sexta-feira, 8 de julho de 2011

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM



I Leitura: Is 55, 10-11
Salmo Responsorial: Sl 64 (65), 10abcd. 11. 12-13. 14 (R./ Lc 8, 8)
II Leitura: Rm 8, 18-23
Evangelho: Mt 13, 1-23 (Parábola do semeador)


            Queridos irmãos,

            A Liturgia da Palavra de hoje se utiliza de uma simples linguagem campestre, porém muito profunda acerca da eficácia da Palavra de Deus na vida daqueles que a escutam. Sabemos que o nosso Deus nunca deixou de comunicar-se com a humanidade, manifestando-se sempre. Primordialmente, com os patriarcas e profetas do Antigo Testamento; em um segundo momento, na plenitude dos tempos, revela-se plenamente no Filho, Único Profeta do Novo Testamento, sendo Deus que fala sobre si mesmo: o Verbo eterno.
            As cativantes leituras de hoje, nos envolvem; e, não diferindo das atitudes práticas que devemos sempre ter diante da Palavra, examinarmo-nos constantemente, contrastando-nos com ela, e, a partir desta bendita comparação, pautar a nossa vida.
            O Evangelho proposto para a nossa reflexão nos apresenta Jesus pregando, de uma barca, às multidões no Mar da Galileia. Pregar de uma barca significa dizer que o Reino de Deus é anunciado da Igreja; ela é o lugar proeminente de onde Cristo fala, inaugurando o Reino de Deus que é para todos os que acolhem a sua voz.
            Parabolicamente, apresentando o semeador, Jesus nos remete a figura de um Deus que fala ao coração das pessoas de modo equitativo, sem exceção, tal como a chuva e a neve figurativamente apresentadas na Primeira Leitura. Embora seja em outro contexto, o próprio Senhor afirma no Evangelho de São Mateus: “ele [Deus] faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos” (Mt 5, 45). Ou seja, a Palavra e a consequente Salvação trazidas por Jesus possui um endereçamento universal: Deus derrama sobre todos, com largueza, as suas sementes. A prova disso está nos diversos tipos de terrenos pelos quais as sementes são uniformemente espalhadas.
            Assim, ao lançar as sementes, o agricultor derruba algumas na estrada, onde, posteriormente, os pássaros vêm e comem. Jesus, ao explicar este trecho, o aplica para os que escutam a Palavra do Reino e, consequentemente, graças a uma não vivência desta mesma Palavra, vem o Demônio e rouba o que foi semeado em seu coração. A semente fica volúvel à beira da via. Percebamos que o termo utilizado por Jesus é “semeado em seu coração” (cf. Mt 13, 19), e, não caiu acidentalmente. Assim, designa que a Palavra foi dirigida também aos insensíveis, aos que têm a terra do coração achatada, tal como terra de uma estrada pelos viandantes, que, por conta de amassarem e pisarem a terra, a semente é impedida de entrar no seu seio e produzir os seus frutos. Se formos tal como esta imagem, deveremos ser cônscios de que o transeunte que ‘apila’ o terreno do nosso coração é o próprio Diabo que, por meio das durezas de um coração fechado à Palavra de Deus, cria na nossa vida como que anticorpos que combatem a ação de Deus em nossa existência, e, dessa forma, a Palavra do Senhor não brota em nós.
            Relacionando a figura apresentada pelo Evangelho da semente na terra pedregosa com o coração do homem, Santo Efrém afirma: “Deus, que é bom, manifesta assim a sua misericórdia; apesar de que a dureza da terra não estivesse na rota do trabalho, ainda assim a este terreno não é privada a sua semente. Esta terra representa aquele que se afasta da doutrina de Nosso Senhor, tal como aqueles que disseram: “Esta Palavra é dura; quem pode entendê-la? (Jo 6, 60). E como Judas que, escutando a Palavra do Mestre, vendo Jesus agir milagrosamente, floresceu, mas no momento da tentação, novamente esterilizou-se” (Diatessaron, 11). Muitas as vezes, somos até atentos na escuta da Palavra, mas por não estarmos com as raízes da nossa fé espraiadas no terreno da doutrina do Cristo, nos ensinamentos da Igreja, secamos. Quantos de nós assumimos uma atitude de “cristãos oba-oba” não nos comprometendo com o que escutamos? Dessa forma, damos espaço somente para o nosso sentimentalismo: sentimos Deus falar, mas não lhe correspondemos. Não raras as vezes não agimos desta maneira? É fácil ser ouvinte da Palavra em momentos repletos de benesses, mas, nos sofrimentos, nem sempre é doce viver conforme aquilo que tão ‘alegremente’ ouvimos. É preciso estarmos enraizados no Cristo que fala pela Igreja com uma fé consistente para sermos capazes de florescer até nos momentos mais turbulentos, porém normais, da existência humana, pois nem tudo é flores.
            Vemos ainda a comparação de Jesus entre as sementes que caíram em meio dos espinhos com coração do homem que recebe a Palavra, mas que a sufoca graças às preocupações. São muitas as inquietações do mundo moderno, dentre elas, a luta desenfreada pelo capital financeiro, por seguranças outras que não Deus. Muitos de nós até fazemos um papel estático na escuta da Palavra. Digo estático porque ficamos imobilizados, deixando a Palavra ser sufocada pelas nossas adesões às tentações do ser, ter e poder. Embora as tentações sejam normais e, por isso, frequentes na vida cristã - até porque estamos no mundo, mas não somos do mundo (cf. Jo 17, 16) -, não devemos deixá-las criar raízes em nós juntamente com Palavra. É necessário um profundo discernimento na administração da nossa caminhada de vida, deixando-nos contagiar inteiramente por Deus, e não pelas tentações que roubam o nosso coração dele, sufocando-o em nosso íntimo. Quantos – em nome das tentações que, paradigmaticamente, enchem de vaidade e vazio o ser humano – chegam a proclamar a morte de Deus, a anulação do seu agir? É essa falsa sensação de independência de Deus, o ateísmo, que entorpece o nosso ser em todos os sentidos. O que é isso senão um coração que asfixia Deus pelos espinhos do pecado que roubam os nutrientes da terra do nosso coração?
            Uma quarta parte da semente caiu em terra boa. Foi o único quinhão que se salvou. Como outrora já dissemos, a terra é o coração do homem, do ouvinte da Palavra. Mas que tipo de solo seria este adjetivado de “boa”? É justamente o coração daquele que teme a Deus e escuta os seus santos preceitos, aplicando-os com inteireza de ser; o que acha “seu prazer na Lei do Senhor e a medita dia e noite” (Sl 1, 2), não com uma reflexão infrutífera, mas abundantemente frutuosa aos olhos de Deus e dos homens e, por causa desta farta produtividade, enche o mundo com os frutos do mais nobre testemunho que Cristo, o Bom Semeador, que através da sua Palavra, semente onipotente, cultivou o coração, terra fecunda, do que acolhe o seu germe. Os que acolhem a Palavra do Senhor dignamente terão toda vida enxertada dos benefícios do Altíssimo, sendo sensivelmente tocados e transformados pela Palavra, tal como assevera a Primeira Leitura: “Assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, antes realizará tudo o que for da minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la” (Is 55, 11).
            Por que o semeador deixou as sementes caírem em terrenos malogros? Seria imprudência de sua parte? Não, mesmo que a nossa vã lógica possa deduzir isso. Porém, mesmo deixando a maior parte dos grãos germinativos caírem em terrenos improdutivos, o semeador não o faz imprudentemente. Antes, tem consciência de que elas estão sendo lançadas em terras áridas, no entanto, nunca impróprias, pois elas foram distribuídas pela livre e absoluta vontade daquele agricultor que tem o poder de transformar um solo estéril em uma terra produtiva e vivificante. Agindo diferente, prova-nos que um motivo suficientemente convincente ele tem: é que ele atua com atributos divinos, inclusive a paciência. É na esperança de que aquela terra inóspita seja transformada e acolha os germens da vida, que ele os lança. Mas o não florescimento da semente nunca poderá ser culpa do Divino Agricultor, mas do tipo de terra que acolhe ou não o que foi semeado; pois, na parábola, a semente não produz não por culpa dos pássaros, mas da terra; não por conta do penedo, mas pela profundidade insuficiente do solo; não pelos espinhos, mas pela falta de nutrientes do terreno que não permitiu que a semente brotasse e crescesse em um tempo ágil.
            Percebemos que Cristo não explica a parábola a todo o povo, mas apenas aos discípulos que a pedem. Assim fazendo, Jesus apela para a consciência e discernimento da tuba. A atitude de explicar apenas aos discípulos, mesmo por pedido deles, os encoraja para que, mesmo com a dureza do coração e não-receptividade daqueles que ouvirão a Boa Nova anunciada pelos apóstolos, não fiquem desanimados com um possível insucesso. O Mestre tranquiliza os discípulos quando lhes acontecer uma situação como esta: “Pois à pessoa que tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas à pessoa que não tem, será tirado até o pouco que tem” (Mt 13, 12); logo, os que não acolherão a Palavra prestarão contas daquilo que desprezaram.
            Na Segunda Leitura, temos São Paulo que, escrevendo aos Romanos, afirma que “A criação geme como que em dores de parto” (Rm 8, 22), “esperando ansiosamente o momento de se revelarem os filhos de Deus” (Rm 8, 19). Mas quando se revelarão aqueles que foram adotados pela filiação divina? Quando ressuscitarmos, no final dos tempos, manifestando a todos a nossa salvação, que não nos foi oferecida pelos nossos méritos, mas pela divina vontade daquele que “nos amou e por nós se entregou” (Ef 5, 2). Claro que a salvação doada por Jesus é universal, mas para alcançá-la é preciso que escutemos e acolhamos os seus suaves preceitos e os vivamos cordialmente.
            Que Maria, aquela que primeiramente abrigou o Verbo em seu coração, nos ensine a acolher a Palavra de Salvação, pronunciada pelo próprio Senhor, e a vivamos intensamente. Pois parafraseando Santo Agostinho: Maria é mais bem-aventurada porque acolheu o Verbo em seu coração, antes mesmo do que tê-lo acolhido em seu ventre. Pois, no dizer do próprio Jesus: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 27).

quinta-feira, 7 de julho de 2011

E NO MUNDO DO TANTO FAZ...




Estamos acostumados, na conjuntura de um mundo tecnológico, a falar de progresso eminente. Esquecemo-nos de que, antes mesmo de um avanço puramente material, faz-se imprescindível uma retomada das mais nobres inspirações que a humanidade já obteve ao longo de sua história: os valores, que não os econômicos, mas os que caracterizam o homem como tal, ou seja, fruto de sua racionalidade.

No conturbado fim do século XIX, surge, dentro da caminhada do pensamento filosófico, o alemão Friedrich Nietzsche, cujo axioma profetizava a “transmutação de valores”. Muitos achavam que aquilo era um vão delírio de alguém que falava em nome de uma criticidade nefasta. Mas, se bem observarmos, o filósofo tinha razão: os valores transmutaram-se. Nietzsche acertou no fato, mas se atrapalhou na consequência, já que afirmava que tal mudança seria uma libertação das algemas morais vivenciadas pela humanidade; e o que está em jogo, nos nossos dias, não é mais o aparente “cárcere” dos valores, e sim o que a sua abolição tem causado. Tratamos do grande monstro do relativismo, cuja presença constantemente nos cerca.

No embalo de uma emoção desprovida de responsabilidade, a humanidade cai em um niilismo que abarca âmbitos fundamentais do que lhe é inerente. Esquece-se do que é Deus; do que é a verdade (em busca de “verdades”); de que coisas são realmente importantes e basilares; enfim, esquece-se de sua identidade. Vive em um ledo engano. O “pluri-vazio” que o homem vive afeta, com drásticas consequências, a sua própria existência, bem como a de seus semelhantes.

É no esdrúxulo do relativismo que, o que antes se constituía crime, hoje já não o é mais; o que era despudor, hoje é moda; o que era virtuoso, atualmente “fundamentalismo” e “cafonice”; ideia de pecado ficou para os religiosos; a vivência da hombridade é para os ultrapassados. Outorga-se a lei da libertinagem, mascarada de liberdade e verdade, como positiva. Prega-se uma religião pragmática, mercantilista e panteísta. A imoralidade e a devassidão permeiam o cérebro e a cultura da humanidade, manifestação generalizada do pornográfico. E ainda, se tem coragem de apelidar tal intento de “Direitos Humanos”, onde o cognome cabível não seria indiferença?

A “onda” do “tudo é permitido” e do “ser normal é ser diferente” (obviamente no que se refere ao liberalismo moral) faz com que os seguidores de tais “tribos ideológicas” sejam “autogurus” numa intenção rumo a uma suposta liberdade, que se constitui um passo largo em direção ao abismo da libertinagem. E, no mundo do tanto faz, caímos na omissão de não podermos pensar com retidão racional. Com esta impossibilidade, cada um produz a sua regra de vida, as suas leis, os seus tabus. E a ideia de humanidade se esvai, porque o que importa é ser feliz, pelo menos subjetivamente.

No “jogo do tanto faz”, imerso no relativismo, o mundo, e dentro deste os jovens, absorve passivamente uma indústria cultural atopetada de contra-valores que, em si, mínguam a cultura dos nossos povos. É uma rápida desconstrução de uma cultura, construída temporariamente longa por nossos ancestrais, e demolida sem piedade pela atual e relativa proposta que se autodenomina “cultura global”, criadora de “subculturas” individualistas e ideologicamente grupais. É ainda na banalidade do pouco importa, que o desrespeito, o hedonismo, o capitalismo materialista exacerbado, a exaltação do que é alienante, e outras coisas igualmente triviais encontram lugares em uma sociedade que se auto-afirma desenvolvida.

O direito do ir e vir, de um mundo de comportamentos ideologicamente democráticos, garantidos pelas leis constitucionais, assevera, não um “permissivismo”, mas, antes de tudo, um dever que nos assiste, um comprometimento com a humanidade como um todo. O ser um cidadão com direitos, inclusive o de liberdade de expressão, não me autoriza a ser imparcial com a verdade. A capacidade racional, ou de livre pensamento, não me abona a construir sentenças verossímeis próprias, totalmente contrárias à vida e aos valores humanos, bem como, contra a tudo aquilo que a humanidade, ao longo de sua história, esforçou-se para construir, e viu que é condizente com a realidade.

A dinâmica do ter, do ser e do poder, ou seja, da egolatria, sugere-nos uma ousadia tamanha em pensar que um único indivíduo é o centro de todo o universo. O jargão que constantemente ouvimos na boca de muitos “a vida é minha, faço dela o que bem quero” reflete o total desajuste com uma objetividade social. Com tal pensamento, firo também a liberdade do outro, ou mesmo coletiva. Por que, se “com a minha vida faço o que quero”, o outro, ou a coletividade, como um todo, tem que arcar com o meu desmantelo?

No mundo do “tanto faz” também há lugar para os “pans” que ora estão em voga. Aqui, os pensadores que ainda restam na face da terra têm que cuidar para não serem mal-interpretados e indevidamente punidos ao fazerem as suas reflexões e possíveis críticas. Tudo isso em nome dos supostos Direitos Humanos que também relativizam o que não pode ser relativizado e vice-versa. E a religião igualmente entra neste mesmo ínterim, pois, como erroneamente dizem por aí: “o que interessa é chegar até a divindade”, não importando os meios, os lugares e qual seja a divindade.

O Papa Montini afirmava que o “mundo sofre por falta de convicções”. E, no caminho que o homem atual está tomando, onde a indecisão e a relativização reinam, ele mergulha no absurdo mistério de sua auto-ignorância: sabe a engrenagem do mundo, sabe que sabe, mas não sabe quem é, nem que decisões constantemente perenes tomar. Tem no pensamento que decisões firmes para uma vida toda são um atraso, uma quimera.

A crise vivenciada nos serve como oportunidade de crescimento; é uma ocasião ímpar. Devemos sair do retrocesso, caminhando para um progresso de humanidade. Pois é isso que o resgate dos valores é: caminhos de humanidade. Faz-se necessário o advento de um novo tempo que propicie mais uma transmutação de valores. Não rumo ao caos do relativismo, mas em busca do que seja objetivamente benéfico, próximo da verdade, cuja proclamação deve ser feita por meio de atitudes verdadeiramente nobres. Cabe à minoria que abraça essa causa iluminar a massa que jaz nas trevas de sua alienação e ignorância, não centrados em nossos valores subjetivos, mas naqueles que, em si, são puros, belos, edificantes e dignificantes para todos. Só assim, estaremos cumprindo de verdade o nobre encargo a nós confiado e ora exigido: sermos profetas de um novo tempo.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, APÓSTOLOS



I Leitura: At 12, 1-11
Salmo Responsorial: Sl 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7. 8-9 (R/. 5)
II Leitura: 2Tm 4, 6-8. 17-18
Evangelho: Mt 16, 13-19 (Tu és Pedro)



“Ó Roma feliz, adornada de púrpura pelo sangue precioso de príncipes tão excelsos. Tu ultrapassas toda a beleza do mundo”


            Queridos irmãos,

            Gostaríamos de iniciar a nossa reflexão, rememorando a frase acima, atribuída a Paulino de Aquileia (+806), que a Liturgia das Horas nos apresenta como hino das II Vésperas da Solenidade de hoje.
            Roma é feliz porque, em uma nova fase de sua história, mesmo sem saber que iriam inaugurar uma era inédita e durável para esta civilização, acolhe as duas principais colunas da Construção de Deus, uma divindade que lhe era estranha até então. Roma é felizarda porque, em seu seio, Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, e Paulo, o Doutor dos gentios, espiraram violentamente para este mundo e adentraram para a glória do Céu que tanto ansiavam. Roma é feliz porque é contagiada e vencida pelo avesso ao seu nome – AMOR – que estes dois corajosos homens lhe implantaram como consequência do Evangelho anunciado por eles, e testemunhado até as suas mortes. Ó Felix Roma!
            Como já era de se supor, toda a Liturgia da Palavra de hoje gira em torno destas figuras ímpares do cristianismo: Pedro e Paulo. Pedro, de simples pescador galileu, ganha, graças à missão recebida do próprio Senhor, uma cidadania que nunca imaginara para si: a universal. Paulo, de fabricante de tendas e judeu zeloso, reseta toda a sua vida, renuncia todo o seu ‘pseudo-prestígio’ e lança-se numa aventura sem precedentes para si: a de ser perseguido. Se foram distantes em vida, como alguns maldosamente aludem, o martírio os irmanou. No entanto, preferimos ficar com o pensamento de Santo Agostinho que afirma, na segunda leitura do Ofício das Leituras da solenidade de hoje: “Um só dia é consagrado à festa dos dois apóstolos. Mas também eles eram um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, eram um só. Pedro precedeu, Paulo seguiu [...] Celebremos, pois este dia de festa, consagrado a nós pelo sangue dos apóstolos” (Discurso 295, 7.8). Ambos tinham consciência da importância da missão do outro: “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação” (Prefácio de São Pedro e São Paulo, Apóstolos).
            Uma antiga tradição, proveniente da era apostólica, conta que, onde atualmente se ergue a majestosa Basílica de São Paulo Fora dos Muros, aconteceu o último encontro entre Pedro e Paulo, naturalmente antes do martírio. Nesta feita, os dois teriam abraçando-se demoradamente, abençoando-se reciprocamente. Neste sentido, São Leão Magno comenta: “Dos seus méritos e das suas virtudes, superiores a quanto se possa dizer, nada se deve pensar que os oponha, nada que os divida, porque a eleição os tornou semelhantes, a fadiga e o final, iguais” (In natali apostolorum, 69, 6-7).
            O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus que apela à consulta dos seus seguidores no intuito de saber se o povo tinha consciência de quem realmente ele era. Para a massa, Jesus poderia ser tudo, raros eram os que lhe atribuíam a sua verdadeira identidade: Filho de Deus. Isso porque o povo estava interessado apenas nas atitudes exteriormente miraculosas que Jesus poderia realizar. E, se estranhava a sua forma de pregar, o associava a algum dos profetas que tinham marcado a história de Israel. Jesus falava diferente, “como quem tinha autoridade” (Mt 7, 29). Logo, muitos imaginavam que ele falasse em nome de Deus (profeta), nunca pensavam que ele fosse Deus, o Filho. Jesus repete a pergunta com um direcionamento diferente. Antes, perguntava aos discípulos quem ele era no pensamento popular; agora, ainda aos discípulos, pergunta-lhes como se manifestava: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 15). Não sabemos se o coração dos apóstolos já tinha discernido acerca da real pessoa de Jesus; mas, de uma maneira clara, percebemos que o coração de Pedro já tinha decodificado quem era Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt. 16, 16). Para que Cefas chegasse a tal certeza, duas atitudes foram essenciais: Jesus já tinha dado provas suficientes sobre a sua pessoa e missão, não somente a Pedro, mas a todos; Pedro, mesmo com o seu jeito tronco, era o mais sensível dos que seguiam Jesus. Profissão semelhante a esta de Pedro, encontraremos em uma outra passagem, quando o próprio Simão Pedro afirma ante uma provocação de Jesus: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. Agora nós acreditamos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6, 68-69).
            Pedro é o homem da profissão (cf. At 2, 14-36), mas também o da negação (cf. Jo 18, 15-18). É um homem cabeça dura (cf. Mt 14, 22-33; 16, 21-23), como é o homem do arrependimento (cf. Mt 27, 69-75; Jo 21, 15-19). Pedro é um ser de múltiplas facetas; é um homem surpreendente.           
            À proporção da crença acerca da revelação da identidade de Jesus por parte de Pedro para os seus, o Cristo publica uma nova face de Pedro, até então inédita para todos, inclusive para o próprio Pedro. Primeiro, atribui-lhe o título de “feliz” (cf. Mt, 16 17); depois, de sensível ao próprio Deus – “porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus” (Ibidem); ainda, outorga o designativo matriz “Pedra”, que implica, dentre tantos outros atributos, a função de guardião contra os poderes adversos à Igreja de Cristo, resguardando-a do maligno (cf. Mt 16, 18); e, por fim, a titulação de “despenseiro” entre os céus e a terra: “Tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 19).
            A Primeira Leitura, dos Atos dos Apóstolos, nos traz o episódio da segunda prisão de Pedro, desta vez expedida por ordem de Herodes. Esta perícope marca também o fim da primeira etapa da história da Igreja centralizada em Jerusalém e no mundo judaico. Mas isto não vem ao caso por hora. A data trazida pelo texto para a prisão de Pedro nos remete à paixão de Jesus: “Eram os dias dos Pães ázimos” (At 12, 3). Herodes manda prendê-lo para agradar ainda mais os judeus, já que os tinha aprazido quando manda matar Tiago à espada. Tendo prendido Pedro no dia da Festa dos Pães, Herodes tinha intenção de ordenar a sua execução para os dias posteriores à Páscoa, justamente para preservar os judeus de uma suposta impureza. A priori, Lucas não apresenta nenhuma defesa por parte de Pedro. Isso significa dizer que ele não renegou a sua fé, fazendo jus a idéia de inabalável que o seu nome porta. A Igreja está unida ao seu pastor, coração a coração. Por isso, ela o acompanha com as suas orações.
            Já nas vésperas de sua apresentação e consequente execução, um anjo é enviado para libertá-lo. Interessantes são as palavras do mensageiro divino: “Levanta-te depressa! [...] Coloca o cinto e as tuas sandálias! [...] Põe tua capa e vem comigo! (cf. At 12, 7-8). A fala do anjo nos evoca à memória aquilo que Jesus já advertira a Pedra-Pedro: “Quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, outros te cingirão e te levarão para onde não queres ir” (Jo 21, 18). O anjo liberta Pedro da masmorra de Herodes porque o evento da sua morte não seria de cunho regional. O anjo o liberta para que, livre, ele continue cumprindo as consequências inerentes ao seu seguimento. Pedro ainda tem muito o que fazer, não somente em Israel, mas em todo o orbe, representado pelo seu martírio na então “capital do mundo”: Roma. Tal idéia é confirmada pela única frase de São Pedro nesta passagem dos Atos dos Apóstolos: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12, 11).
            Na Segunda Leitura, é-nos apresentada a figura de São Paulo fazendo uma espécie de “balancete” de sua missão apostólica; ou, como muitos dizem, aqui, neste trecho da segunda epístola a Timóteo, São Paulo apresenta o seu “testamento apostólico”.
            Homem íntegro, Paulo sabe do valor do seu trabalho. Não se ufana quando diz: “Trabalhei mais do que todos eles (os apóstolos); não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15, 10), mas é cônscio do papel único e eficaz que assumiu ao anunciar o Evangelho.
            Ao se apresentar como pronto “para ser derramado em sacrifício” (2Tm 4, 6), não se apresenta como vítima, mas como libação. Utilizando uma linguagem típica da cultura religiosa da época, Paulo afirma que as vítimas (hóstias) são as almas que ele conquistou para Cristo, enquanto ele mesmo seria como que o vinho, a água, ou mesmo o óleo derramado sobre elas, significando que pelo bem delas, ele derramou a sua vida, tal como o Servo Sofredor, Cristo, que se consumiu de amor (cf. Is 53, 12).
            Paulo lutou, combatendo pela fé, para que o Evangelho chegasse aos pontos mais distantes da terra. Lutou inclusive contra si mesmo (cf. Rm 7, 19), contra os espinhos da carne (cf. 2Cor 12, 7); lutou com esperança: “spes non confundit” (Rm 5, 5), por isso espera a “coroa da justiça” (2Tm 4, 8), que lhe está reservada pelo “Justo Juiz”. E por ter certeza disto, é que reconhece o auxílio do Senhor em sua missão, porque a obra é Dele, por isto sabe que é apenas um “embaixador de Cristo” (cf. 2Cor 5,20), que está levando a cabo o que lhe foi confiado pelo próprio Senhor.
            Que os ensinamentos dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, transmitidos fielmente pela Igreja, sejam para nós uma regra de vida testemunhal do próprio Senhor.       
       

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SEXTA-FEIRA APÓS O 2º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES: SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS



I Leitura: Dt 7, 6-11
Salmo Responsorial 102 (103), 1-2. 3-4. 6-7. 8. 10 (R/. 17)
II Leitura: 1Jo 4, 7-16
Evangelho: Mt 11, 25-30


Queridos irmãos,


Hoje, celebramos a terceira das três solenidades pós-Tempo Pascal: a do Sagrado Coração de Jesus. Assim, muito mais do que uma simples lembrança da aparição de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, a Mãe Igreja celebra o indizível amor de Deus pela humanidade. Um Deus que, de tanto nos amar, nos abraça filialmente pela salvação operada por Ele mesmo, pelo Filho.
           Nas culturas antigas, e até mesmo na atualidade, o coração é a sede dos sentimentos. Na Escritura, sempre se atribuía à incorporeidade de Deus, algumas imagens típicas da fisiologia humana para caracterizar, ainda que de maneira ilimitada, os sentimentos do próprio Deus. Assim, o coração de Deus é considerado o órgão de Sua vontade (daí, aparecer 26 vezes esta associação no Antigo Testamento).
            A Liturgia de hoje evidencia o amor e a consequente eleição que Deus nos faz: ele nos ama, e nos quer; nos quer porque nos ama; nos ama porque nos quer. Este trocadilho serve para manifestar a ligação intrínseca entre amor e escolha. O mistério do seu amor é marcado pela profundidade, por isso é inenarrável, insondável, ilimitado, enfim, tantos outros atributos que se associam à idéia de infinitude. O amor é também uma propriedade da onipotência divina: é porque pode tudo, que Deus nos ama plenamente, sente compaixão de nossas misérias.
             O trecho do Deuteronômio que escutamos como Primeira Leitura apresenta-nos Moisés falando ao povo da Antiga Aliança. Neste discurso aos hebreus é recordada a sua consagração ao Senhor, fruto de uma predileção da parte de Deus. Esta afeição não se baseia na quantidade de habitantes nem da importância de Israel na geografia do mundo nem do seu possível poderio (nem terra os hebreus possuíam). O amor do Senhor pelo seu povo é mistério,é profundo, é inexplicável, pois quanto mais Ele demonstra a sua ternura, mais o homem lhe é indiferente, não correspondendo, ainda que na sua limitação humana, com uma vida toda voltada a Ele. Mesmo quando Deus aparentava calar-se (como foi o caso dos quatrocentos anos de escravidão no Egito), não esquecia a promessa demonstrada a Abraão, Isaac e Jacó, patriarcas dos hebreus. E mesmo tendo a misericórdia do Senhor ao seu favor, Israel sempre lhe foi ingrato: “Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais se afastaram; ofereceram sacrifícios aos Baal e queimaram ofertas aos ídolos” (Os 11, 1-2). Esta ingratidão habita principalmente na não observância dos mandamentos do Senhor. O amor de Deus é de natureza tão infinita que, mesmo prometendo que a Sua benevolência seria proporcional ao cumprimento do mandamento, Ele foge e ama incondicionalmente, aqui se explicita a palavra misericórdia (coração que se compadece). O cumprimento dos mandamentos é o mínimo de gratidão que o povo poderia dispensar ao seu Deus.
           O amor que dispensamos ao Senhor é manifestável também no próximo. A isto nos alude a Segunda leitura. Quando nossas relações com outrem se manifestam na caridade, estamos cumprindo igualmente os preceitos que o Senhor nos deu: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18; Mt 22, 39). A medida do amor que dispensamos é o comedimento da nossa intimidade com Deus: por sentirmos ser alcançados pelo Seu amor, amamos. E o maior sentimento do amor de Deus habita no Cristo, “rosto humano de Deus” (Bem-aventurado João Paulo II). São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, afirma, categoricamente: “A caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8). Não findará porque no fim dos nossos dias, quando mergulharmos inteiramente em Deus, em seu Divino Coração, nos perderemos de amor, seremos amor no Amor; por isso, Paulo exalta a caridade, mais do que e esperança e a fé.
            João, o apóstolo-cantor do amor, o Discípulo Amado, afirma que é pela máxima manifestação do amor de Deus, Jesus Cristo, que alcançamos a vida. A vida nos vem pelo Amor: se pautarmos a nossa vida neste nobre sentimento (ágape), teremos a plenitude da vida porque amaremos o Amor por toda a eternidade, contemplando-o no céu, onde, como nos afirma São João da Cruz, nos perderemos de amor.
            Com maior eleição do que o povo de Israel, nós fomos escolhidos pelo próprio Deus, que nos amou desde toda a eternidade e nos predestinou a sermos o Povo da Nova e Eterna Aliança, instaurada pelo sangue de Jesus, o Sumo Amor. A nós foi revelada uma face inédita de Deus: Ele que, de tanto amar, quis fazer-se um de nós para que tivéssemos um livre acesso a Ele, ao Seu imenso Coração. Tal acesso já o temos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29). O jugo de Jesus é suave por que é ele mesmo, o Amor. A humildade do Coração de Jesus é tão suave que nos faz repousar nele. É, pois, do seu coração aberto pela lança, que o Cristo nos atrai a si, fazendo-nos “beber, com perene alegria, na fonte salvadora” (Prefácio do Sagrado Coração de Jesus). Constantemente, atrai-nos a si pelos sacramentos, onde, desde esta terra, como transeuntes, experimentamos o seu amor sempiterno. A água e o sangue que brotam, torrencialmente, do seu peito, são significativos da Graça que obtemos da Sua elevação na Cruz, maior prova de amor que Deus podia nos dar, a entrega do seu Unigênito para, morto nos braços de um lenho, nos dar a vida divina. Na Cruz, estendido, sem vida (porque no-la deu totalmente) está a “Fornalha Ardente de Caridade” (cf. Ladainha do Sagrado Coração de Jesus). Eis o Amor que foge à lógica dos homens! Do Coração de Jesus, ferido pelos nossos opróbrios, nos vêm os mais valiosos tesouros da infinita caridade de Deus.
             Celebrar o Coração de Deus é manifestar a nossa confiança nos mais imperscrutáveis dos seus sentimentos. Não é apenas uma recordação daquilo que recebemos dele; mas deve-nos levar a uma transcendência de vida, pois, pelo seu infindável amor, Deus nos eleva a si.
             Que nós, com nossas escolhas cotidianas, possamos fazer sempre a vontade de Deus, expressa nos seus mandamentos. Ele que, de tanta misericórdia, abriu o seu coração, nos ofertou uma vida inimaginável para a nossa humana condição: a vida divina. E nós como estamos retribuindo, dentro – é claro – das nossas imperfeições, ao gratuito amor de Deus, Ele cujo coração está ferido, machucado pelos nossos pecados, mas que, em compensação, abunda de amor por nós, que fomos resgatados pelo sangue saído de seu interior?      

terça-feira, 28 de junho de 2011

BENEDICTUS XVI: ECCE SACERDOS MAGNUS


           Por ocasião do 150º aniversário de falecimento de São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, toda a Igreja foi convidada a refletir, graças a conclamação do Santo Padre Bento XVI, como o “Sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”. Esta célebre frase do Santo Cura d’Ars foi repetida incansavelmente no Ano Sacerdotal (2009-2010) pelo próprio Papa em seus discursos, e, consequentemente, teve repercussão por toda a Igreja.
            No próximo dia 29 de junho, toda a Igreja Universal meditará – mais uma vez – sobre a importância do sacerdócio na Igreja de Cristo. Nesta data, estaremos unidos a tantas pessoas que rendem graças a Deus por tão prestimoso dom; principalmente, estaremos unidos ao Vigário de Cristo nas comemorações do seu sexagésimo aniversário de Ordenação Presbiteral.
            Há 60 anos o jovem Joseph Ratzinger, nosso amado Bento XVI, juntamente com o seu irmão Georg Ratzinger, deu um sim eterno de amor ao Bom Pastor. Exatamente no dia 29 de junho de 1951, Dia de São Pedro e São Paulo (as duas principais colunas do edifício espiritual  chamado Igreja), estes dois jovens abraçaram como sua a Esposa Imaculada de Cristo, tornando-se, por beneplácito da Cabeça-Cristo, Sacerdotes da Nova Aliança, já que, pela imposição das mãos e oração consecratória, participam do Sacerdócio eminente de Jesus. Há sessenta anos, na Catedral de Frisinga, pelas mãos do cardeal Michael von Faulhaber, Bento XVI foi ordenado presbítero da Igreja Católica, a única querida por Jesus.
            “O Sacerdócio é o amor do Coração de Jesus”. Para nós, esta máxima do Vianney sintetiza o grande dom do chamado do Senhor para Joseph Ratzinger destinado à Igreja. Ratzinger foi e continuará sendo, durante toda a sua vida sacerdotal, mesmo como sucessor de Pedro, um arauto do Cristo, um “Cooperador da Verdade”; não apenas como o maior dos teólogos da atualidade, mas como um digno pastor da Grei do Senhor. Ratzinger é uma manifestação de amor do Cristo que nunca desampara a sua Amada. Bento é um dom do Coração de Jesus para a vida da Igreja em todo o orbe.
           
          Durante esses sessenta anos, o nosso homenageado viveu intensamente a exortação do seu ilustríssimo antecessor, o Príncipe dos Apóstolos, o Bem-Aventurado São Pedro: “Sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, não por coação, mas de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho” (1Pd 5, 2-3). Ratzinger viveu plenamente a diaconia, experimentando em si o que Jesus ordena: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35), fazendo da sua consagração um inteiro serviço a Deus e aos irmãos, por amor Àquele que o chamou, que, por ser fiel, lhe concederá a “coroa permanente da glória” (1Pd 5, 4), na completude dos seus dias. Esta expectativa na participação da beatitude dos santos é o dinamismo que move um homem que segue o Senhor a querer ser grande, a querer ser servo. E, por lutar pela santidade, deseja que outros também cheguem a este parâmetro de vida: um santo nunca o quer ser sozinho. É por esta preocupação que Bento XVI se coloca como “Cooperator Veritatis”. É o amor à Verdade (cf. Jo 14, 6) que impulsiona este ilustre sacerdote (antes alemão, hoje cosmopolita) a testemunhar intrepidamente, ainda que com voz tímida e rouca e aparência frágil de um ancião octogenário, o Cristo; pois a Verdade (cf. Jo 14, 6) é o caminho para o Pai, para a santificação. Este é o nosso Joseph Ratzinger, que, por valorosa vontade de Deus, se tornou a presença do “Doce Cristo na terra”, sendo Bispo de Roma.
            “Ecce sacerdos magnus, qui em diebus suis, placuit Deo” – Eis  o grande sacerdote, que em seus dias, aprouve a Deus. Com estas palavras, a Igreja costuma saudar os seus prelados, vendo neles o próprio Senhor. Santo Inácio de Antioquia nos ensina que o Bispo histórico, carnal, visível aos nossos olhos, é sinal ardente e inflamado do Bispo invisível que é Cristo, que preside a Igreja na caridade. Bento XVI, como Bispo da Igreja Católica, é este referencial que representa o Cristo, governando a sua Imaculada Esposa: Eis o sacerdote, grande presente do Senhor que a nós foi dado, o qual preside a grei como pastor zeloso, sendo Vicarius Christi.
           Em seu best-seller “Caminho”, São Josemaría Escrivá afirma acerca daqueles que o próprio Deus, em seu admirável e majestoso desígnio, escolheu para o múnus sacerdotal de Cristo. Diz-nos o santo: “O Sacerdote – seja quem for – é sempre outro Cristo. [...] Presbítero, etimologicamente, é o mesmo que ancião. – Se merece veneração a velhice, pensa quanto mais terás de venerar o sacerdote”. Assim sendo, ficamos a pensar que a nossa veneração por Bento XVI, como que, triplica, graças à sua longevidade, ao sacerdócio que porta e por ter sido escolhido pelo próprio Jesus, a quem testemunha fielmente, para ser o seu mui digno Vigário. Joseph Ratzinger é outro Cristo!
  
           Santo Padre, diante das diversas dificuldades que tentaram abater o vosso coração de pastor durante estes sessenta anos, sentistes a beneficência da mão do Senhor. Provastes como “Aquele que vos chamou é fiel” (1Ts 5, 24), porque nunca vos abandonou. Ele, em seu desígnio eterno, vos constituiu sacerdote no Sacerdócio do Filho, e, por meio de vós, operou maravilhas para toda a humanidade, através do grande sacramento que a Igreja é. Rendemos graças a Deus, Santidade, pelo maravilhoso dom que nos concedeu: o de ter escolhido a vós como Sacerdos Magnus, “pontífice dos homens nas suas relações com Deus” (Hb 5, 1). Nossa prece sobe Àquele que vos quis, pedindo-lhe que nunca cesse de abençoar-vos nem de governar a Igreja por meio de vós. A vós, Santíssimo Padre, a nossa humilde devoção e preito.

           

sábado, 25 de junho de 2011

XIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


I Leitura: 2Rs 4, 8-11.14-16 a
Salmo Responsorial: Sl 88 (89), 2-3.16-17.18-19 (R./ 2 a)
II Leitura:  Rm 6, 3-4.8-11
Evangelho: Mt 10, 37-42 (Quem é discípulo)


Queridos irmãos,


A Liturgia da Palavra de hoje, principalmente o Evangelho, tem como foco o discipulado e as condições que são exigidas por ele.
Estamos no capítulo décimo do Evangelho segundo São Mateus. Já no fim do capítulo nono, vemos Jesus no início de sua missão, percorrendo todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino, curando os doentes, afirmando para os que o seguiam a urgência da sua missão: “A colheita é grande, mas poucos os operários. Pedi, pois, ao senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9, 37-38). E chama doze discípulos enviando-os com poder de expulsar os demônios e curar todo o tipo de enfermidade. Porém, antes do envio propriamente dito, ele traça a instruções da missão dos discípulos, inclusive, adverte-os sobre os perigos que provém do ato do anúncio, tais como incompreensões, perseguições; mas também as benesses de quem os acolhe por serem discípulos. E é justamente nesta página que nos deteremos para a reflexão deste Domingo.
Podemos, para facilitar a nossa compreensão da perícope dividir o texto em duas partes: do versículo 37-39; e a outra do versículo 40-42.
Na primeira parte, Jesus adverte os apóstolos acerca das necessárias atitudes ativas para a consecução do trabalho evangelizador. O primordial sentimento do coração do apóstolo deve ser o de desprendimento. A exigência de Jesus é eminentemente pedagógico: nem um sentimento forte pode impedir a ação de anunciar, por isso, Ele inicia falando da indignidade daquele ama seus genitores e sua prole mais do que a nobre causa do Evangelho. Antes, nos versículos 35 e 36, Ele já os havia avisado: “Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”. Logo, a nossa exigente missão será incompreendida até mesmo pelos nossos familiares e, a partir deles, pelo mundo. Jesus assim alude para que os apóstolos sejam cônscios de que, mesmo sendo odiados pelos seus, o kerigma não deve parar. Por mais doloroso que pareça ser, mas o sucesso da proclamação da Palavra de Jesus deve transcender às reservas sentimentais do que possui o eminente encargo de anunciar. Neste sentido, também entra o “apofatismo”: “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mt 10, 38). Destarte, o Senhor não promete facilidades de vida para quem o segue; antes, “cruzes”. O que seria a cruz na vida do apóstolo senão todas as agruras que este possa enfrentar? A começar pela “auto-renúncia de si”. Por mais que este termo parece redundante, mas cotidianamente somos invitados à renúncia. Não somente das coisas que possuímos, mas, antes, de nós mesmos. Muitas vezes somos nós os grandes obstáculos do cumprimento do apostolado que recebemos pelo próprio Senhor da Messe no dia do nosso Batismo. Esta é a dimensão do “Quem procura conservar a sua vida vai perdê-la. E quem perde a sua vida, vai encontrá-la” (Mt 10, 39). Renunciar coisas e pessoas extrínsecas a nós, pode parecer dificultoso, mas é bem mais simples do que renunciar os nossos auto-confortos e pseudo-confianças, lançando-se na infinita providência de Deus. Aqui, recordo-me uma frase de São Josémaria Escrivá: “Paradoxo: para Viver é preciso morrer”. O apóstolo não é mais dono de si, mas propriedade de Deus, tal como nos alude a estrofe para o canto de Aclamação ao Evangelho trazida pelo Lecionário hoje (cf. 1 Pd 2, 9).
Quando Jesus promete a vida para os que a desprezam pelo crescimento do Reino, Ele não se refere a uma vida qualquer, tampouco a um aumento da quantidade de idade cronológica de nossa existência, nem a um sucesso material, mas a uma vida toda plena de Deus, a qual alcançaremos na glória do Céu. É lá que está o nosso cêntuplo (cf. Mt 19, 29).     
Na segunda parte do Evangelho (40-42), vemos Jesus que relaciona a atividade apostólica a algumas atitudes passivas do evangelizador. No versículo 40, Jesus traça uma tríade bastante interessante: apóstolo, Cristo, Pai. Assim, o apóstolo fala em nome de Cristo, que é o Verbo Eterno do Pai. Logo, quem presta um serviço de acolhimento a um evangelizador, o faz ao Cristo, e conseguintemente, o presta ao Pai. O contrário também é válido: quem não valoriza o apóstolo, despreza o Cristo, rejeita o Pai. Tal lógica nos faz rememorar a Oração Sacerdotal de Jesus que, dentre tantas palavras, recorremos a: “Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim” (Jo 17, 23).
A cultura da hospitalidade para com aquele que fala de Deus é um elemento marcante na Primeira Leitura. A atitude da mulher rica de Sunam que acolheu Eliseu é uma posição que faz frente às hostilidades preditas por Jesus, e que são tão comuns para o apostolado moderno. Porém, a retribuição para quem age com afabilidade com aquele que anuncia é algo certificado tanto pela Primeira leitura quanto pelo Evangelho. Claro que estas recompensas não se restringem a uma mera prosperidade material, mas é uma resposta de fé para aquele que crê em Deus. Os apóstolos devem ver a benevolência do Senhor nos pequenos gestos cativantes e gratificantes que os mais sensíveis proporcionam às suas vidas.
A Segunda Leitura trata sobre a nova realidade de vida daqueles que receberam o Batismo: viverem para Deus (cf. Rm 6, 10). Ora, depois de mortos para o pecado e ressuscitados, pelo lustro batismal, para Deus, não cabe senão para o cristão o sentimento da pertença a Cristo Senhor. Aqui, habita o porquê de o anunciarmos: queremos que outras pessoas também mergulhem nas águas mortais e vivificantes do Batismo e renasçam para uma vida em Deus, cuja plenitude será obtida quando nos unirmos integralmente a Ele, na morada eterna, onde consolidaremos o anseio da pertença à “raça escolhida” (1 Pd 2, 9), onde, plenamente, nos sentiremos “filhos da luz”, depois de cotidianamente havermos expulsado “as trevas do erro”, tal como imploramos na Coleta.
Que a Sagrada Liturgia deste Domingo nos dê a têmpera dos Santos Apóstolos, aquela que nos faz testemunhar o Senhor com ações e palavras até os confins do mundo.   

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA



Liturgia do dia 24:

I Leitura: Is 49, 1-6
Salmo Responsorial: Sl 138 (139) 1-3. 13-14ab. 14c-15 (R/. 14 a)
II Leitura: At 13, 22-26
Evangelho: Lc 1, 57-66.80



Queridos irmãos,


A Igreja reveste-se de júbilo celebrando o natal daquele a quem o próprio Cristo designa como “o maior dentre os nascidos de mulher” (cf. Lc 7, 28), João, o Batista. Pois bem, ao celebrá-la, a Mãe Igreja o faz tendo em vista o Natal do Salvador. Percebamos que a data desta solenidade de hoje antecede em exatos três meses a do Nascimento do Redentor da humanidade, ressaltando que a gestação de Isabel era três meses mais adiantada do que a da Virgem Maria.
A Liturgia da Palavra possui uma órbita em torno da relação do nascimento de João e o de Jesus. Na Primeira Leitura, o profeta Isaías nos apresenta o segundo cântico do Servo Sofredor. Como todos sabemos, quando Isaías utiliza tal recurso literário, diacronicamente, a Igreja o associa à pessoa do Messias, Jesus Cristo. Ele é o Verdadeiro Profeta do Altíssimo; os outros são prefigurativos Daquele cuja Palavra é eterna. Todo cabedal profético só tem sentido se for observado pelo viés do Cristo. Todos os eventos da Escritura convergem para o evento máximo chamado Verbo Encarnado. O caso de João Batista não difere dos outros. Ele é quem aponta o Servo do Senhor, Lumen Gentium (Is 49, 6), prova disso, temos o que João, o Evangelista, afirma acerca do Batista, logo no Prólogo de seu Evangelho: “Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz” (Jo 1, 7-8); e ainda: “João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim” (Jo 1, 15). Portanto, desde o seu nascimento, João já sabia da sua missão de ser o precursor da Luz,d o Sol Nascente, porque já a tinha escutado da boca de seu pai, Zacarias:

“E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 76-79).


            Se a palavra do profeta João incomodava, quanto mais incômoda era a fala da Palavra eterna cujos vocábulos eram comparados à espada afiada, à flecha aguçada escondida na aljava de Deus (cf. Is 49, 2), Daquele a quem João teve a honra de preceder. Sim, escondida porque eterno com o Pai e o Espírito, em sua economia, manifestou-se a nós pela sua Encarnação. Ele a quem desconhecíamos, porém já o esperávamos ansiosamente para, por meio Dele, restabelecermos a nossa amizade com Deus, alcançando a salvação que Ele mesmo nos traz (cf. Is 49, 6).
            A Igreja sempre viu na pessoa de João este “coadjuvante” do Cristo, porque ele adiantou-se a fim de preparar um povo que fosse digno Dele, ou seja, nós. Provamos tal pensamento pela Oração do Dia: “Ó Deus, que suscitaste São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito...”. João se esmerou. Nenhum de nós teríamos igual ou maior capacidade de “endireitar os caminhos do Senhor” (Is 40, 3) como o Precursor. Nenhum de nós!
            Na Segunda Leitura, vemos o reconhecimento de João Batista feito por Paulo. Em outras palavras, o Apóstolo dos Gentios vê no Precursor do Messias aquele que, de maneira justíssima, cumpre a sua missão desde o batismo de conversão no Jordão até a declaração do término de sua missão, quando diz: “Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13, 25). Logo, dele podemos extrair para nós o exemplo da humildade: perceber que quem deve resplandecer no anúncio não é o que anuncia, mas Aquele que é anunciado. Lembremo-nos que, todos nós, pelo Santo Batismo, somos profetas: Que Cristo resplandeça em nós! Ele é a Salvação do mundo.
            O Evangelho, de maneira velada, apresenta a circuncisão do menino nascido da estéril e anciã Isabel. Cumprindo um mandamento do judaísmo, Zacarias, mudo desde a visão do anjo e a sua conseqüente dúvida acerca daquilo que o mensageiro divino havia lhe anunciado, e Isabel, aquela ditosa em quem a misericórdia divina abundou (cf. Lc 1, 58), se dirigem com o recém-nascido para o Templo. Ora, João, tal como Jesus posteriormente, era primogênito. E também com esta nuance percebemos a relação entre o menino de Isabel e o Filho de Deus, nascido de Maria. Ambos primogênitos. Era no ritual de circuncisão que o menino recebia um nome. Neste caso João (do hebraico יהוחנן, o Senhor mostrou privilégio) alcunha até então inédita na família de Zacarias. Mesmo com peleja, Isabel afirma a identidade do Precursor, que, posteriormente é confirmada pelo silêncio e escrita de seu pai Zacarias.
            João, cuja função é singular na Sagrada Escritura: “Foi o único dos profetas que mostrou o Cordeiro redentor. Batizou o próprio autor do Batismo, nas águas assim santificadas e, derramando seu sangue, mereceu dar o perfeito louvor de Cristo” (Prefácio da natividade de São João Batista). João, asceta em prol de sua vida e missão: “João usava uma vestimenta de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3, 4). Suas vestes testemunhavam-no no sentido de que por suas atitudes firmes de penitência (inclusive conclamando outros para o mesmo), estava vigilante esperando o seu Senhor; sua alimentação refletia a sua inconformidade com os deleites e prazeres que o mundo oferecia: estava à espera Daquele que viria trazer à humanidade, com a sua presença divinal de Emanuel, o verdadeiro deleite: a Salvação!
            O Bispo de Hipona, Santo Agostinho é feliz ao comparar os diversos aspectos relevantes entre o nascimento do Batista e o Natal do Salvador em um de seus sermões (Sermo 293, 1-3), o qual nós refletimos hoje no Ofício das Leituras. No seu escrito, Agostinho alude o costume da Igreja em celebrar o nascimento de João, como esta também faz para festejar o Nascimento de Jesus. Também contrasta a maneira do nascimento: João de anciã estéril, Jesus de uma virgem; ambos contrários e impossíveis à fisiologia humana, porém, totalmente possíveis ao poder de Deus. O Santo Bispo de Hipona contraria a figura de Zacarias e Maria. O primeiro duvida e emudece. A segunda acredita e concebe. Ousaríamos dizer mais: Maria acredita, concebe e canta as maravilhas do Senhor (cf. Lc 1, 46-55). O filho de Santa Mônica ainda enaltece João como vértice da Escritura (logicamente, não podemos tê-lo na conta de ápice da Escritura), como veremos adiante: “João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o antigo e o novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: ‘A lei e os profetas até João Batista’ (Lc 16, 16)”. Sim, ele é limite porque é o último, pois: “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1, 17). E continua o Bispo: “Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe”. Em palavras similares as de Agostinho, afirmamos que João, desde o ventre materno, era um ser sensível a ponto de reconhecer a presença de Deus. Vejamos quando da visita de Maria a Isabel, o quanto João estremeceu no ventre, reconhecendo a presença do Sol Nascente ali, em sua casa. Neste momento, nos vêem à mente aquela famosa pintura de Da Vince que retrata um encontro entre Maria, sua mãe Ana, o menino Jesus e João, ainda criança, a adorar o Salvador que está sentado no colo de Maria.
            Ainda no texto de Santo Agostinho, ele, por meio de indagações nos leva à reflexão acerca da mudez de Zacarias, cessada com o nascimento de seu filho. Comenta: “Por fim, nasce. Recebe o nome e solta-se a língua do pai. [...] Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto, fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce aquele que é a voz. [...] João é a voz; o Senhor, porém, ‘no princípio era a Palavra’ (Jo 1, 1). João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna”.
            Por tudo isso, ó ditoso São João Batista, que dissemos de ti, é que a Igreja, militante, unida à triunfante, te aclama e pede:

Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum,
Solve polluti
Labii reatum,
Sancte Ioannes

Para que os servos possam, com suas vozes soltas, ressoar as maravilhas de vossos atos, limpa a culpa do lábio manchado, ó São João!