sábado, 31 de dezembro de 2011

BENTO XVI: PRIMEIRAS VÉSPERAS DA SOLENIDADE DE MARIA SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS E RECITAÇÃO DO "TE DEUM"


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Basílica Vaticana
Sábado, 31 de Dezembro de 201
1



Senhores Cardeais,
venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado,
ilustres Autoridades,
queridos irmãos e irmãs!

Estamos reunidos na Basílica Vaticana para celebrar as primeiras Vésperas da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e para agradecer ao Senhor, no final do ano, cantando juntos o Te Deum. Agradeço a todos vós que quisestes unir-vos a mim nesta circunstância tão cheia de sentimentos e significado. Saúdo, em primeiro lugar, os senhores Cardeais, os venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado, os religiosos e religiosas, as pessoas consagradas e os fiéis leigos que representam a inteira comunidade eclesial de Roma. De modo especial, saúdo as Autoridades presentes, começando pelo Prefeito de Roma, a quem agradeço o cálice que doou, segundo uma bela tradição que se renova cada ano. Desejo de coração que, com o esforço de todos, a fisionomia da nossa cidade possa estar sempre mais em conformidade com os valores de fé, cultura e civilização que pertencem à sua vocação e história milenária.

Outro ano chega à sua conclusão enquanto que, com a inquietação, os desejos e as expectativas de sempre, esperamos um novo. Se pensarmos na experiência da vida, ficamos admirados de como ela é, no fundo, breve e fugaz. Por isso, muitas vezes nos questionamos: qual é o sentido que podemos dar aos nossos dias? Mais concretamente, qual é o sentido que podemos dar aos dias de fadiga e de dor? Esta é uma pergunta que atravessa a história, antes, atravessa o coração de cada geração e de cada ser humano. Mas existe uma resposta para esta pergunta: está escrita no rosto de um Menino que nasceu há dois mil anos, em Belém, e que hoje é o Vivente, ressuscitado para sempre da morte. No tecido da humanidade, rasgado por tantas injustiças, maldades e violências, surge de modo surpreendente a novidade, alegre e libertadora, de Cristo Salvador, que no mistério da sua Encarnação e do seu nascimento nos permite contemplar a bondade e a ternura de Deus. Deus eterno entrou na nossa história e permanece presente de modo único na pessoa de Jesus, o seu Filho feito homem, nosso Salvador, que veio à terra para renovar radicalmente a humanidade e libertá-la do pecado e da morte, para elevar o homem à dignidade de filho de Deus. O Natal não se refere somente ao cumprimento histórico dessa verdade que nos toca diretamente, mas que no-la dá novamente, de modo misterioso e real.

É muito sugestivo, neste fim de ano, escutar novamente o anúncio jubiloso que o apóstolo Paulo dirigia aos cristãos da Galácia: «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, para que recebêssemos a adoção filial» (Gal 4,4-5). Essas palavras tocam o cerne da história de todos e a iluminam, antes, a salvam, porque desde o dia do em que nasceu o Senhor, chegou para nós a plenitude do tempo. Portanto, já não há mais lugar para a angústia diante do tempo que passa e não volta para trás; agora é o momento de confiar infinitamente em Deus, por quem sabemos ser amados, para quem vivemos e a quem a nossa vida se orienta, na espera do seu retorno definitivo. Desde que o Salvador desceu do Céu, o homem já não é mais escravo de um tempo que passa sem um porquê, ou que esteja marcado pela fadiga, pela tristeza, pela dor. O homem é filho de um Deus que entrou no tempo para resgatar o tempo da falta de sentido ou da negatividade, e que resgatou toda a humanidade, dando-lhe, como nova perspectiva de vida, o amor que é eterno.

A Igreja vive e professa esta verdade e quer proclamá-la novamente hoje, com renovado vigor espiritual. Nesta celebração, temos motivos especiais para louvar o Senhor pelo seu mistério de salvação, presente no mundo por meio do ministério eclesial. Temos muitos motivos de agradecimento ao Senhor por tudo o que a nossa comunidade eclesial, no coração da Igreja universal, realiza a serviço do Evangelho nesta Cidade. A tal propósito, unido ao Cardeal Vigário, Agostino Vallini, aos Bispos Auxiliares, aos Párocos e todo o presbitério diocesano, quero dar graças ao Senhor, nomeadamente, pelo promissor caminho comunitário dirigido a adequar a pastoral ordinária às exigências do nosso tempo, por meio do projeto «Pertença eclesial e corresponsabilidade pastoral». Este tem o objetivo de colocar a evangelização em primeiro lugar; para fazer mais responsável e frutífera a participação dos fiéis nos Sacramentos, de tal forma que cada um possa falar de Deus ao homem contemporâneo e anunciar o Evangelho com eficácia aos que nunca o conheceram ou o esqueceram.

A questio fidei é também o desafio pastoral prioritário para a Diocese de Roma. Os discípulos de Cristo estão chamados a fazer renascer em si mesmos e nos demais a saudade de Deus e a alegria de viver n'Ele e de testemunhá-Lo, a partir da pergunta, sempre muito pessoal: Por que creio? É necessário conceder o primado à verdade, confirmar a aliança entre a fé e a razão, como as duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da Verdade (cf. João Paulo II, Enc.Fides et ratio, Prólogo); tornar fecundo o diálogo entre o cristianismo e a cultura moderna; levar à redescoberta da beleza e da atualidade da fé, não como um ato em si mesmo, isolado, que diz respeito a algum momento da vida, mas como uma orientação constante, mesmo nas escolhas mais simples, que leva à unidade profunda da pessoa, tornando-a justa, ativa, benéfica, boa. Trata-se de reavivar uma fé que instaure um novo humanismo capaz de gerar cultura e empenho social.

Neste quadro geral, na Assembleia diocesana do passado mês de junho, a Diocese de Roma iniciou um caminho de aprofundamento sobre a iniciação cristã e sobre a alegria de gerar novos cristãos para a fé. De fato, anunciar a fé no Verbo feito carne é o cerne da missão da Igreja, e toda a comunidade eclesial deve redescobrir esta tarefa, com um renovado ardor missionário. As novas gerações que mais sentem a desorientação, acentuada também pela crise atual, não só econômica, mas também de valores, têm necessidade, sobretudo, de reconhecer em Cristo Jesus «a chave, o centro e o fim de toda a história humana» (Conc. Vat. II. Gaudium et spes, 10).


Os pais são os primeiros educadores na fé dos seus filhos desde a mais terna idade; por isso, é necessário apoiar as famílias na sua missão educativa, por meio de iniciativas adequadas. Ao mesmo tempo, é desejável que o caminho batismal, primeira etapa do itinerário formativo da iniciação cristã, além de favorecer uma consciente e digna preparação para a celebração do Sacramento, dê a devida atenção aos anos imediatamente sucessivos ao batismo, com os itinerários apropriados que levem em conta as condições de vida das famílias. Animo, portanto, as comunidades paroquiais e as outras realidades eclesiais a continuarem refletindo para promover uma melhor compreensão e recepção dos sacramentos através dos quais o homem se torna participante da vida mesma de Deus. Que a Igreja de Roma possa sempre contar com fiéis leigos, prontos a oferecer a sua contribuição pessoal para edificar comunidades vivas, que permitam que a Palavra de Deus entre no coração dos que ainda não conheceram o Senhor ou se afastaram d'Ele. Ao mesmo tempo, é oportuno criar ocasiões de encontro com a Cidade, que permitam um diálogo proveitoso com todos os que estão à procura da Verdade.

Queridos amigos, desde que Deus mandou o seu Filho unigênito para que nós pudéssemos ter a filiação adotiva (cf. Gal 4,5), não pode existir para nós uma tarefa mais importante que estar totalmente ao serviço do projeto divino. Neste sentido, quero animar e agradecer todos os fiéis da Diocese de Roma, que sentem a responsabilidade de devolver a alma à nossa sociedade. Obrigado a vós, famílias romanas, células primeiras e fundamentais da sociedade! Obrigado aos membros das muitas Comunidades, Associações e Movimentos comprometidos em animar a vida cristã da nossa cidade!

«Te Deum laudamus!» A Vós, ó Deus, louvamos! A Igreja nos sugere concluir o ano dirigindo ao Senhor o nosso agradecimento por todos os seus benefícios. É em Deus que deve terminar a nossa última hora, a última hora do tempo e da história. Esquecer este final da nossa vida significaria cair no vazio, viver sem sentido. Por isso, a Igreja coloca nos nossos lábios o antigo hino Te Deum. É um hino repleto da sabedoria de tantas gerações cristãs, que sentem a necessidade de elevar o seu coração, na certeza que estamos todos nas mãos cheias de misericórdia do Senhor.

«Te Deum laudamus!». Assim canta também a Igreja que está em Roma, pelas maravilhas que Deus realizou e realiza nela. Com a alma cheia de gratidão nos dispomos a atravessar o limiar do ano 2012, lembrando que o Senhor vela sobre nós e nos protege. Nesta tarde, queremos confiar-Lhe o mundo inteiro. Coloquemos em suas mãos as tragédias do nosso mundo e ofereçamos a Ele também as esperanças de um futuro melhor. Depositemos estes votos nas mãos de Maria, Mãe de Deus, Salus Populi Romani. Amen.

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2011/documents/hf_ben-xvi_hom_20111231_te-deum_po.html

VOTOS DE ANO NOVO: EDUCAÇÃO PARA A JUSTIÇA E A PAZ


           

            Por ocasião do Ano Novo, temos o costume de desejar às pessoas os mais nobres sentimentos para o ano que se inicia. Desejamos, dentre tantos, bens a paz. A Igreja, através do seu Romano Pontífice, o Bispo de Roma, o Papa, há quarenta e cinco anos, possui o costume de, na ocasião do Dia Mundial da Paz, festejado concomitantemente com o Ano Novo, lançar os seus mais felizes votos pelo período do ano que se avizinha, publicando uma mensagem que augura estas duas datas: o Dia Mundial da Paz e a Passagem para o Ano Novo. É a tradicional Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz, que, neste ano tem por tema: “Educar os jovens para a justiça e a paz”.

            Quase sempre, na iminência de um novo ano, fazemos muitos propósitos. Assim agimos porque somos impulsionados pela esperança. É este sentimento que nos faz pensar positivo, dando-nos força e coragem para enfrentarmos as diversas, e tantas vezes adversas, situações da vida. Acreditamos que, quanto mais próximos de Deus, mais o nosso coração se abastece da esperança, pois, como nos alude São Paulo, “A esperança não decepciona”(Rm 5, 5). Esta certeza nós temos porque aprendemos e experimentamos a fidelidade de Deus, mesmo quando lhe somos infiéis com os nossos pecados, com as nossas fraquezas. Ainda sabemos que, juntamente com a esperança, a pessoa que crê é presenteada por Deus com tantas outras benesses.

            O cristão autêntico, mais do que ninguém, deve “dar razões da sua fé”. E, nestes últimos dias de violência, de tragédias, de corrupção, de frustrações, de crise (inclusive de valores éticos e culturais) devemos dar, com a esperança em nosso peito, o pleno testemunho de que o mundo possui jeito. A desesperança do mundo advém de uma falsa sensação de autonomia de Deus. E, a partir daí, da vã tentativa de viver sem o Absoluto, as pessoas caem no vazio e na falta de profundas perspectivas. E quais são elas, senão uma vida desinteressadamente material e eminentemente transcendental? Sim, o caminho para a paz começa pela sensação da ação da Providência Divina. Quantas vezes percebemos que as pessoas vivem freneticamente em função do material, daquilo que é efêmero, passageiro. Quase nunca estas pessoas possuem como norte de sua vida a busca constante dos bens transcendentais. E qual é a via para assim vivermos? Jesus, no Evangelho, nos mostra o caminho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6,33). Não raramente somos capazes de trocar o que é perene, eterno, pela vaidade do ter e do aparentar. Neste ano que adentramos, muitos foram os votos de saúde, dinheiro, de uma parcial prosperidade que trocamos entre nós. Não estamos querendo dizer que estas coisas não são importantes. Sim, elas têm a sua importância, porém não são fundamentais. E qual é o fundamento da vida do cristão? Deus! Por isso, devemos desejar, não somente por ocasião do Ano Novo, mas sempre, que as pessoas tenham Deus, não o tendo como uma propriedade sua, mas que ele esteja no coração e na vida. Assim sendo, ao desejarmos os votos de Ano Novo, deveríamos dizer: “Tenha um ano repleto de Deus!”


            Em um mundo desesperançado e infeliz, Deus é a resposta antiga e sempre nova que solucionará as suas incertezas. E o Papa, ao referir-se às pessoas que nutrem a esperança no coração, aplicará para elas o salmo 130, 6, dizendo: “O salmista diz que o homem de fé aguarda o Senhor ‘mais do que a sentinela pela aurora’, aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação” (Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz, 1). O fato de saber que Deus é a grande resposta para as tragédias de diversas ordens presentes no mundo deve ser destinado de uma forma especialíssima para a juventude.
           
            Os jovens são os construtores do amanhã. Eles devem, muito mais dos que os adultos, nutrir a esperança para a “construção dum futuro de justiça e da paz” (Ibidem, 1). A juventude deve tomar a dianteira neste intento, pois tal atividade “não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade” (Ibidem, 1).
           
            Muitos se enganam ao afirmar, genericamente, que a juventude esta transviada, que é indiferente aos destinos da humanidade. No entanto, encontramos acesa, em muitos deles, a chama do desejo de um futuro promissor, não somente em um plano egoísta e materialmente supérfluo, mas em um âmbito extensivamente coletivo, coadunando as suas expectativas com a vontade de fazer deste um mundo mais humanizado em todos os sentidos, inclusive mais espiritualizado, repleto de Deus. Aqui, não estamos abominando a busca de melhores condições de vida, a luta por direitos, até porque este fatores contribuem para uma melhor dignidade de vida pessoal e social. Isso é perceptível na juventude quando vemos neles “o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade” (Ibidem, 1), uma aspiração de superação de diversos níveis de dificuldade que se iniciam no seio das suas famílias, perpassando, inclusive, pela procura de um emprego estável, e ainda,“da capacidade de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário” (Ibidem, 1).
           
            No afã de construir um mundo mais justo e pacífico faz-se mister uma educação, não apenas técnico-científica, mas que, antes de tudo, sirva para a vida. A ação de educar para a vida inicia-se no seio familiar. No dizer de Bento XVI, “A família é a célula originária da sociedade” (Ibidem, 2). Mas, como poderemos esperar que a sociedade vá bem se encontramos as famílias desajustadas pela falta de diálogo, pelos vícios de seus membros, pelo bombardeamento destrutivo do conceito de família baseado originariamente no amor entre um homem e uma mulher, seja graças aos meios de comunicação social, seja pela ideologia monstruosa dos que querem transformar os laços familiares em contratos, ou mesmo do que querem apoiá-los na indecência e na bestialidade? E a família que deveria ser a escola preliminar dos nossos jovens cai aos frangalhos em uma sociedade permissiva e pervertida. A justiça e a paz devem começar nos nossos lares através da iniciativa do diálogo sincero e constante entre os seus membros.
           
            A educação para a vida também deve acontecer nas instituições com tarefas educativas, ou seja, nas escolas, a fim de que possam “ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar ativamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna” (Ibidem, 2). Que os nossos centros educacionais, em seus diversos graus de escolaridade, sejam templos não somente de disciplinas tecnicamente exatas e humanas, mas sobre que sejam das verdadeiras humanidades, as quais primam pela ética, pelos salutares costumes propagados pelo cristianismo, base de toda cultura ocidental.
           

            A educação para a vivência humana deve ser responsabilidade eminente dos políticos e governantes, não somente patrocinando a educação bancária dos cidadãos, mas primando pelo apoio a dignidade integral do indivíduo baseado nos valores morais e éticos, não se deixando levar pela praga do relativismo e do laxismo de consciência da sociedade atual. Este apoio aos bons costumes deve ser iniciado através de uma prática política transparente, não corrupta, tampouco mercenária como meio fácil de vida e acumulação de bens. Política não é profissão, é serviço. Por isso, os políticos e os governantes “proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para todos” (Ibidem, 2).
           
            Se o jovem é educado para a vida, igualmente é formado para a verdade e a liberdade: a primeira, aspiração intrínseca do homem: todos ansiamos por conhecer a verdade. E já sabemos que a verdade nos vem por Aquele que diz de si mesmo “Eu sou a Verdade” (Jo 14, 6): Jesus Cristo, Suma Verdade que nos apresenta o autêntico sentido da vida; a liberdade, que nunca deve ser confundida pela libertinagem, se fundamenta, primariamente, em Deus, “Autor de toda liberdade e que faz do ser humano livre”, como também no respeito por si e pelo outro, regrado pela lei moral natural.

            Meus queridos irmãos, se queremos um mundo melhor, apostemos na educação dos nossos jovens para a paz e para a justiça. Somente nesta esperança poderemos construir com eles e com Deus este horizonte novo e fecundo para a humanidade, onde não haverá luto, dor, violência, corrupção, pecado. Pois o Senhor, com a sua cruz, já calcou as mazelas do pecado e o mal já não tem nenhum poder sobre nós. Façamos, pois, a nossa parte!
           
            Desejo, de coração, um Ano Novo repleto de Deus e de suas bênçãos para todos!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

RETROSPECTIVA: OS CAMINHOS DE BENTO XVI EM 2011





Joseph Ratzinger caminha para concluir o sétimo ano de Pontificado. Eleito à Cátedra de Pedro em 19 de abril de 2005, após a morte de João Paulo II, este ano Bento XVI beatificou seu antecessor, num evento que marcou a história da Igreja Católica este ano e reuniu cerca de 1 milhão de pessoas na Praça São Pedro, no dia 1º de maio.


– Dirijo uma cordial saudação aos peregrinos de língua portuguesa, de modo especial aos Cardeais, Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, e numerosos fiéis, bem como às Delegações oficiais dos países lusófonos vindos para a Beatificação do Papa João Paulo II. A todos desejo a abundância dos dons do Céu por intercessão do novo Beato, cujo testemunho deve continuar a ressoar nos vossos corações e nos vossos lábios, repetindo como ele no início do seu pontificado: “Não tenhais medo! Abri as portas, melhor, escancarai as portas a Cristo”.

Ainda na Itália, Bento XVI foi à Veneza, San Marino, Ancora, Lamezia Terme e Assis. No Vaticano, durante às quartas-feiras e nos domingos, dividiu com os peregrinos a Palavra nas audiências gerais e na oração do Angelus. Esses dois encontros são especiais para os brasileiros. É o momento em que eles podem ouvir o Papa em português.

Em 2011, o Bispo de Roma completou 84 anos de vida. Nascido em Marktl am Inn, na Alemanha, em 1927, Bento XVI também viveu seu aniversário de 60 anos de ordenação sacerdotal. Porém, a missão do Papa vai muito além de datas comemorativas. Bento XVI levou a Palavra de Cristo em diversas viagens apostólicas, à Itália e ao exterior, e fez história ao ser o primeiro Papa a discursar no Bundestag, o Parlamento Alemão.

– O convite para pronunciar este discurso foi-me dirigido como Papa, como Bispo de Roma, que carrega a responsabilidade suprema da Igreja Católica. Deste modo, vós reconheceis o papel que compete à Santa Sé como parceira no seio da Comunidade dos Povos e dos Estados. Na base desta minha responsabilidade internacional, quero propor-vos algumas considerações sobre os fundamentos do Estado liberal de direito.

Além da Alemanha, Bento XVI também foi à Croácia e ao Benim, sua última viagem apostólica em 2011. Na Croácia, incentivou a entrada do País balcânico na União Europeia. Já na África, entregou a Exortação Apostólica Africae Munus, o Compromisso da África. Um dos momentos mais envolventes dessa segunda viagem de Bento XVI à África foi o encontro com as crianças.
– E o que é a oração? É um grito de amor lançado para Deus, nosso Pai, com a vontade de imitar Jesus, nosso Irmão. Jesus retirava-Se sozinho para rezar. Como Jesus, posso também eu encontrar cada dia um lugar calmo onde me recolho diante duma cruz ou duma imagem sagrada para falar a Jesus e escutá-Lo”.

Em Madri, na Espanha, durante a Jornada Mundial da Juventude, enfrentou junto com os milhões de jovens as adversidades da natureza. Nem mesmo o vento e a chuva esfriaram a fé dos jovens, que em Madri ouviram o Papa anunciar aquele que será um momento histórico para o Brasil em 2013: a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, entre 23 e 28 de julho.

– Compraz-me agora anunciar que a sede da próxima Jornada Mundial da Juventude, em 2013, será o Rio de Janeiro. Peçamos ao Senhor, desde já, que assista com a sua força quantos hão-de pô-la em marcha e aplane o caminho aos jovens do mundo inteiro para que possam voltar a reunir-se com o Papa naquela bonita cidade brasileira.

Em 31 de outubro, durante a apresentação das credenciais do novo embaixador brasileiro junto à Santa Sé, Almir Franco de Sá Barbuda, Bento XVI recordou quando esteve no Brasil, em 2007 – Deixo aqui minhas orações pela prosperidade e bem-estar de todos os brasileiros, cujo carinho experimentado na minha visita pastoral de 2007 permanece indelével nas minhas lembranças. Registro com vivo apreço e profundo reconhecimento a disponibilidade manifestada pelas diversas esferas governamentais da Nação, bem como da sua Representação diplomática junto da Santa Sé, para apoiar a XXVIII Jornada Mundial da Juventude que se realizará, se Deus quiser, em 2013 no Rio de Janeiro.

Outro fato marcante - e inédito - foi a Missa presidida e requirida pelo Papa para a América Latina, celebrada na Basílica de São Pedro, em português e espanhol, no dia 12 de dezembro, dia de Nossa Senhora de Guadalupe, a Padroeira da América.

– Atualmente, enquanto se comemora em diversos lugares da América Latina o Bicentenário da sua independência, o caminho da integração nesse querido continente progride, enquanto se sente o seu novo protagonismo emergente no cenário mundial.

Para 2012, já foram confirmadas duas viagens apostólicas internacionais: Cuba e México.


De Rafael Belincanta – Fonte: www.cnbb.org

sábado, 24 de dezembro de 2011

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR

HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI
Basílica Vaticana
24 de Dezembro de 2011




Amados irmãos e irmãs!


A leitura que ouvimos, tirada da Carta do Apóstolo São Paulo a Tito, começa solenemente com a palavra «apparuit», que encontramos de novo na leitura da Missa da Aurora: «apparuit – manifestou-se». Esta é uma palavra programática, escolhida pela Igreja para exprimir, resumidamente, a essência do Natal. Antes, os homens tinham falado e criado imagens humanas de Deus, das mais variadas formas; o próprio Deus falara de diversos modos aos homens (cf. Heb 1, 1: leitura da Missa do Dia). Agora, porém, aconteceu algo mais: Ele manifestou-Se, mostrou-Se, saiu da luz inacessível em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de nós. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. Já não é apenas uma ideia, nem algo que se há-de intuir a partir das palavras. Ele «manifestou-Se». Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem é? A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: «Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens» (Tt 3, 4). Para os homens do tempo pré-cristão – que, vendo os horrores e as contradições do mundo, temiam que o próprio Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse, sem dúvida, ser também cruel e arbitrário –, esta era uma verdadeira «epifania», a grande luz que se nos manifestou: Deus é pura bondade. Ainda hoje há pessoas que, não conseguindo reconhecer a Deus na fé, se interrogam se a Força última que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou então se o mal não seja tão poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos. «Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens»: eis a certeza nova e consoladora que nos é dada no Natal.


Na primeira das três leituras desta Missa de Natal, a liturgia cita um texto tirado do livro do Profeta Isaías, que descreve, de forma ainda mais concreta, a epifania que se verificou no Natal: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros, e dão-lhe o seguinte nome: “Conselheiro admirável! Deus valoroso! Pai para sempre! Príncipe da Paz!” O poder será engrandecido numa paz sem fim» (Is 9, 5-6). Não sabemos se o profeta, ao falar assim, tenha em mente um menino concreto nascido no seu período histórico. Mas isso parece ser impossível. Trata-se do único texto no Antigo Testamento, onde de um menino, de um ser humano, se diz: o seu nome será Deus valoroso, Pai para sempre. Estamos perante uma visão que se estende muito para além daquele momento histórico apontando para algo misterioso, colocado no futuro. Um menino, em toda a sua fragilidade, é Deus valoroso; um menino, em toda a sua indigência e dependência, é Pai para sempre. E isto «numa paz sem fim». Antes, o profeta falara duma espécie de «grande luz» e, a propósito da paz dimanada d’Ele, afirmara que o bastão do opressor, o calçado ruidoso da guerra, toda a veste manchada de sangue seriam lançados ao fogo (cf. Is 9, 1.3-4).
Deus manifestou-Se… como menino. É precisamente assim que Ele Se contrapõe a toda a violência e traz uma mensagem de paz. Neste tempo, em que o mundo está continuamente ameaçado pela violência em tantos lugares e de muitos modos, em que não cessam de reaparecer bastões do opressor e vestes manchadas de sangue, clamamos ao Senhor: Vós, o Deus forte, manifestastes-Vos como menino e mostrastes-Vos a nós como Aquele que nos ama e por meio de quem o amor há-de triunfar. Fizestes-nos compreender que, unidos convosco, devemos ser artífices de paz.  Amamos o vosso ser menino, a vossa não-violência, mas sofremos pelo facto de perdurar no mundo a violência, levando-nos a rezar assim: Demonstrai a vossa força, ó Deus. Fazei que, neste nosso tempo e neste nosso mundo, sejam queimados os bastões do opressor, as vestes manchadas de sangue e o calçado ruidoso da guerra, de tal modo que a vossa paz triunfe neste nosso mundo.


Natal é epifania: a manifestação de Deus e da sua grande luz num menino que nasceu para nós. Nascido no estábulo de Belém, não nos palácios do rei. Em 1223, quando Francisco de Assis celebrou em Greccio o Natal com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se visível uma nova dimensão do mistério do Natal. Francisco de Assis designou o Natal como «a festa das festas» – mais do que todas as outras solenidades – e celebrou-a com «solicitude inefável» (2 Celano, 199: Fontes Franciscanas, 787). Beijava, com grande devoção, as imagens do menino e balbuciava-lhes palavras de ternura como se faz com os meninos – refere Tomás de Celano (ibidem). Para a Igreja antiga, a festa das festas era a Páscoa: na ressurreição, Cristo arrombara as portas da morte, e assim mudou radicalmente o mundo: criara para o homem um lugar no próprio Deus. Pois bem! Francisco não mudou, nem quis mudar, esta hierarquia objectiva das festas, a estrutura interior da fé com o seu centro no mistério pascal. Mas, graças a Francisco e ao seu modo de crer, aconteceu algo de novo: ele descobriu, numa profundidade totalmente nova, a humanidade de Jesus. Este facto de Deus ser homem resultou-lhe evidente ao máximo, no momento em que o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, foi envolvido em panos e colocado numa manjedoura. A ressurreição pressupõe a encarnação. O Filho de Deus visto como menino, como verdadeiro filho de homem: isto tocou profundamente o coração do Santo de Assis, transformando a fé em amor. «Manifestaram-se a bondade de Deus e o seu amor pelos homens»: esta frase de São Paulo adquiria assim uma profundidade totalmente nova. No menino do estábulo de Belém, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinhá-Lo. E o Ano Litúrgico ganhou assim um segundo centro numa festa que é, antes de mais nada, uma festa do coração.


Tudo isto não tem nada de sentimentalismo. É precisamente na nova experiência da realidade da humanidade de Jesus que se revela o grande mistério da fé. Francisco amava Jesus menino, porque, neste ser menino, tornou-se-lhe clara a humildade de Deus. Deus tornou-Se pobre. O seu Filho nasceu na pobreza do estábulo. No menino Jesus, Deus fez-Se dependente, necessitado do amor de pessoas humanas, reduzido à condição de pedir o seu, o nosso, amor. Hoje, o Natal tornou-se uma festa dos negócios, cujo fulgor ofuscante esconde o mistério da humildade de Deus, que nos convida à humildade e à simplicidade. Peçamos ao Senhor que nos ajude a alongar o olhar para além das fachadas lampejantes deste tempo a fim de podermos encontrar o menino no estábulo de Belém e, assim, descobrimos a autêntica alegria e a verdadeira luz.


Francisco fazia celebrar a santíssima Eucaristia, sobre a manjedoura que estava colocada entre o boi e o jumento (cf. 1 Celano, 85: Fontes, 469). Depois, sobre esta manjedoura, construiu-se um altar para que, onde outrora os animais comeram o feno, os homens pudessem agora receber, para a salvação da alma e do corpo, a carne do Cordeiro imaculado – Jesus Cristo –, como narra Celano (cf. 1 Celano, 87: Fontes, 471). Na Noite santa de Greccio, Francisco – como diácono que era – cantara, pessoalmente e com voz sonora, o Evangelho do Natal. E toda a celebração parecia uma exultação contínua de alegria, graças aos magníficos cânticos natalícios dos Frades (cf. 1 Celano, 85 e 86: Fontes, 469 e 470). Era precisamente o encontro com a humildade de Deus que se transformava em júbilo: a sua bondade gera a verdadeira festa.


Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Belém dá-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edifício os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a intenção de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se. Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, então devemos descer do cavalo da nossa razão «iluminada». Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de São Francisco: o caminho rumo àquela extrema simplicidade exterior e interior que torna o coração capaz de ver. Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer. Celebremos assim a liturgia desta Noite santa, renunciando a fixarmo-nos no que é material, mensurável e palpável. Deixemo-nos fazer simples por aquele Deus que Se manifesta ao coração que se tornou simples. E nesta hora rezemos também e sobretudo por todos aqueles que são obrigados a viver o Natal na pobreza, no sofrimento, na condição de emigrante, pedindo que se lhes manifeste a bondade de Deus no seu esplendor, que nos toque a todos, a eles e a nós, aquela bondade que Deus quis, com o nascimento de seu Filho no estábulo, trazer ao mundo. Amen.

FELIZ NATAL


O NATAL É UMA OPORTUNIDADE SINGULAR PARA GERARMOS O SENHOR NO NOSSO CORAÇÃO E, DEPOIS DE DARMOS-LHE À LUZ, APRESENTÁ-LO AO MUNDO.

DESCEU DO CÉU O SALVADOR DO MUNDO. COM MARIA CONTEMPLEMOS O SEU ROSTO!


UM SANTO NATAL!






sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO


(25 de dezembro de 2011 – Missa da Noite)



I Leitura: Is 9, 1-6
Salmo Responsorial: Sl 95 (96), 1-2a. 2b-3. 11-12. 13 (R/. Brilha hoje uma luz sobre nós, pois nasceu para nós o Senhor).
II Leitura: Tt 3, 4-7
Evangelho: Lc 2, 15-20


Prorrompei, ó Igreja expectante, vibrai em altos tons: “Eis que Ele, o Esperado, veio a nós!” Rejubilai, o Senhor está em nosso meio!



Queridos irmãos,



É um costume arraigado e milenar na Igreja, por ocasião da data de hoje, a récita das Kalendas, um anúncio natalino, feito na Celebração Eucarística após o sinal da cruz e a saudação presidencial, antes do Hino de Louvor, em substituição do Ato Penitencial: “Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo e fez o homem à sua imagem; séculos depois de haver cessado o dilúvio, quando o Altíssimo fez resplandecer o arco-íris, sinal de aliança e de paz; vinte e um séculos depois do nascimento de Abraão, nosso pai; treze séculos depois da saída de Israel do Egito sob a guia de Moisés; cerca de mil anos depois da unção de Davi como rei de Israel; na septuagésima quinta semana da profecia de Daniel; na nonagésima quarta Olimpíada de Atenas; no ano 752 da fundação de Roma; no ano 538 do Edito de Ciro autorizando a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém; no quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto, enquanto reinava a paz sobre a terra, na sexta idade de mundo. JESUS CRISTO DEUS ETERNO E FILHO DO ETERNO PAI, querendo santificar o mundo o mundo com a sua vinda, foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem; transcorridos nove meses nasceu da Virgem Maria em Belém de Judá. Eis o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a natureza humana. Venham, adoremos o Salvador. Ele é Emanuel, Deus Conosco”.


Esta belíssima narração tenta inserir os fiéis no contexto histórico-teológico do nascimento do Salvador do gênero humano. Desta forma, a Igreja assevera-nos que o Senhor, em sua atemporalidade, nos veio no tempo (de paz, inclusive), e todos os grandes eventos bíblicos e pagãos encontram o seu ponto convergência em Jesus, em seu nascimento. A Sábia Igreja vê estes eventos como uma preparação, direta ou indireta, para a chegada do tempo de plenitude, onde, de fato, Deus está conosco: “Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis et vidimus gloriam eius gloriam quasi unigeniti a Patre plenum gratiae et veritatis” (Jo 1, 14). Sim, o Menino que hoje nos nasceu é manifestação autêntica e singular de Deus. É Deus mesmo que, em um movimento de ‘abaixamento’ e amor, faz questão de adentrar na pobre história dos homens, elevando-nos a si, revelando-se. Que mistério inaudito de amor!


Na Plenitude dos tempos, Deus, revelando-se a nós na simplicidade e doçura de criança, é-nos um farol: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9, 1). Quem é este povo senão uma gama de gerações que abarca milênios, e em cuja participação somos inseridos? Nós, transeuntes sem perspectivas; nós, que estávamos sem rumo, fomos visitados pelo Senhor e a sua luz nos invadiu, atraindo-nos a si. Tal como o navegante perdido em meio ao mar que, ao avistar o fanal, é impelido àquele lume, nós também andávamos náufragos no mar do mundo, sendo engolidos pelas ondas do pecado, quando avistamos o Senhor travestido em nossa essência sem abandonar o que é por divindade, na meiguice de um recém-nascido, esbanjando-nos alegria. Sim, ele é a nossa luz! “Ego Sum Lux Mundi!” (Jo 8, 12). Por isso, a solenidade do Natal do Senhor ser celebrada no dia 25 de dezembro, no hemisfério norte do planeta, data do solstício de inverno, quando os pagãos celebravam a festa do Natale solis invicti, Nascimento do sol invencível, comemorando o nascimento do deus sol. No século IV, estabelecendo uma relação entre o simbolismo bíblico luz-trevas e Cristo, vitorioso absoluto da noite do pecado, a Igreja canoniza esta data para fazer memória do Nascimento do ‘Sol da Justiça que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os passos no caminho da paz’ (cf. Lc 2, 78-79). “Ó, quão maravilhosamente agiu a Providência que naquele dia em que o sol nasceu […] Cristo deveria nascer”, afirma São Cipriano; e, João Crisóstomo: “Eles chamam isso de 'aniversário do invicto'. Quem de fato é tão invencível como Nosso Senhor?”  



As Kalendas ainda afirmam: “enquanto reinava a paz sobre a terra”; ou seja: quando tudo estava favorável, ele veio para reordenar o mundo com a paz que este Menino-Deus nos traz. Veio para apagar do mundo a iníqua violência que oprime e destrói vidas e corações, pois ele abate o jugo opressor, as botas de tropa de assalto e os trajes manchados de sangue ele destrói por trazer a paz ao mundo, ele que é prometido – dentre tantos cognomes – como “Príncipe da paz” (cf. Is 9, 5) ao implantar o seu reino fazendo com que a paz não tenha fim. E Jesus, como cumprimento das Escrituras, por cujo nascimento é apresentado pelo Evangelho de hoje, é concretude disso: “E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto do céu, e paz na terra aos homens por ele amados’” (Lc 2, 14). A atitude do Senhor de fazer-se homem e nascer é uma ocasião estupenda de glorificação de Deus e pacificação do ser humano. Mais uma vez nos deparamos com o mistério: Deus que nasce e o seu nascimento é glorificação de si mesmo.


Hoje, Deus nos nasceu! É neste tempo teológico desta noite santa que contemplamos a bondade de Deus sacramentada em uma criança para a nossa salvação, tal como explicita a Segunda Leitura: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens […] (pois) ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2, 11. 14). Hoje, em Jesus, Deus ganha um ‘endereço’ em meio à humanidade; nesta noite, vemos no Menino Jesus o sublimíssimo sacramento de Deus, como nos diz São Leão Magno: “O Natal do Senhor, pelo qual o Verbo se fez carne, nos ensina não só a recordar o passado, mas nos parece vê-lo presente”. Portanto, o Menino e a noite são sacramentos de Deus: o Menino, por ser Deus mesmo, tal como reza a Igreja no prefácio de hoje: “E, reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos” (Prefácio do Natal do Senhor I); a noite, por abrigar no tempo e no espaço àquele que essencialmente não se influi pelos caracteres temporais nem tampouco se prende à contingência espacial. A noite, para Leão Magno, ainda é sacramento porque “Celebrando a inefável condescendência da misericórdia divina, pela qual o Criador dos homens dignou-se fazer-se homem, sejamos incorporados à natureza daquele que adoramos encarnado na nossa natureza”. Destarte, tanto a noite quanto o Menino são sacramentos (sinais). Porém, o primeiro inferior ao segundo porque aquele nos insere no mistério deste. Ou seja, na festa de Natal, Cristo opera e em tal celebração atua a graça da sua renovada presença.


Esta santa e memorável noite é ainda o momento escolhido para o mistério da restauração do gênero humano, pois é neste santo momento misticamente vivenciado pela Igreja que acontece o intercâmbio entre Deus e a humanidade: “E assumindo a humanidade sem deixar de ser Deus, uniu em si mesmo duas realidades contrárias, a saber, a carne e o espírito. Uma delas conferiu a divindade, a outra recebeu-a. Aquele que enriquece os outros torna-se pobre. Aceita a pobreza de minha condição humana para que eu possa receber os tesouros de sua divindade. Aquele que possui tudo em plenitude, aniquila-se a si mesmo; despoja-se de sua glória por algum tempo, para que participe de sua plenitude. […] Ele assumiu a minha condição humana para restaurar a perfeição dessa imagem e dar a imortalidade a esta minha condição” (São Gregório de Nazianzo).



Como estamos nos portando na presença de “Jesus, a Alegria dos homens”, para fazer menção ao que compusera Johann Sebastian Bach? Quais os sentimentos do nosso coração ao vermos desvelados em uma frágil criança os mistérios da suma grandeza de Deus, nesta data em que a sentimentalidade aflora na humanidade? Nesta noite, as palavras cessam e fala o olhar ao contemplar o Pequenino reclinado em sua manjedoura; nesta noite, a razão humana se cala diante do escândalo da Encarnação e Nascimento do Salvador, e ressoa a fé.


Ó venerável noite que assististe absorta o nascimento do Deus Menino, diz-nos o que viste: uma Virgem parindo um Deus-Homem? Responde-nos, ó estrela-guia: quem te ensinou o lugar da reclinação deste Menino Adorável? Falai-nos, pastores, contai-nos a emoção que sentiste! Dizei para nós, ó corte angelical, a alegria de ver o gênero humano sendo elevado à condição de Deus, sendo-vos superior o homem que, outrora, era nada mais do que cinza e pó! Ó Reis Magos, como vos curvastes ao Rei que o mundo governa, que se nos apresenta em uma criança? Ó Herodes, porque te turbaste, já que o que nasceu possui o verdadeiro Reino de per si inabalável? E, tu, manjedoura, com as tuas finas tábuas, como suportaste o peso Daquele que tudo sustém? Belém, casa do pão, não soubeste acolher em teu meio o que faz valer o teu nome, aquele que é o “Verdadeiro Pão do Céu” (Jo 6, 32 ss.). Testemunha-nos José, com o teu silêncio proclamador, como foi grandiosa esta experiência de receber o teu Deus nos braços, sendo-lhe pai. Ninguém melhor do que ti, ó Santa Maria, para ensinar-nos a contemplar, extasiados, tamanho mistério, mesmo sem entender, guardando tudo no coração. Ó Santo Menino porque nos amas tanto?


Que este mistério, celebrado nesta feliz e silenciosa noite de Natal, invada o nosso coração para que, vislumbrado-o nos mais puros sentimentos, possamos fazer com que o Salvador nasça e renasça constantemente em nosso interior, até gozarmos dele plenamente no céu, quando renasceremos para a glória.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

IV DOMINGO DO ADVENTO


(Ano B – 18 de dezembro de 2011)


I Leitura: 2Sm 7, 1-5.8b-12.14a.16
Salmo Responsorial: Sl 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29 (R/. cf. 2a)
II Leitura: Rm 16, 25-27
Evangelho: Lc 1, 26-38


Rejubila-te, ó Igreja bradante pelo seu Salvador! Implora a sua vinda e ele descerá de seu trono, de sua majestade, em teu socorro! Ele reinará sobre tudo, reinando sobre ti.



Queridos irmãos,



Paulatinamente, estamos nos achegando ao dia da libertação do gênero humano, quando Deus descerá de sua glória e vai fazer morada entre nós, sem deixar de ser o que é: Deus, porém humanado, o que não o diminui. Ele o Shekinah, Deus presente, o Emanuel, Deus conosco. A Igreja, tal como Maria, grande mulher do Advento, está gestante de seu Deus e carrega no seu ventre ele mesmo, querendo apresentá-lo ao mundo como seu Senhor. Não que a Esposa divina a tenha querido por escolha, mas acontece justamente o contrário: Deus, o Divino Esposo a escolheu e a constituiu para si. Não percamos de vista que somos Igreja porque estamos, pelo Sangue de Cristo, nos acercado, quando do nosso Batismo, em suas benditas fileiras. Portanto, estamos prenhes do Deus que nos amou e nos quis para si, estamos na expectativa de dar-lhe a luz, já que o estamos gerando em nosso íntimo, em nosso coração.


A Igreja clama e, obviamente, nós, junto com ela e nela: “Céus, deixai cair o orvalho, nuvens, chovei o justo; abra-se a terra, e brote o Salvador!” (Is 45, 8; Antífona de entrada do IV Domingo do Advento). Sim, já não podemos mais nos conter; esta espera nos custa e por isso o chamamos: “Vem, Senhor!”


A Liturgia da Palavra de hoje nos apresenta o Messias como verdadeiro herdeiro do trono de Davi. E, como de praxe, principalmente no Advento, no Evangelho vamos ter o cumprimento da profecia que a Primeira Leitura anuncia. Assim sendo, no trecho do segundo livro de Samuel que nos foi proferido pela Magistra Ecclesia (Igreja Mestra), temos a figura de Davi que, tendo-se estabelecido em Jerusalém, feliz e próspero no trono de Israel, preocupa-se com um templo, local de habitação de Deus em meio ao povo. Interessante notarmos que a presença de Deus em meio ao povo é garantida pela arca da aliança. Dar um abrigo digno àquela que resguardava em seu interior as Tábuas da Lei e outros elementos da manifestação do Senhor, é asilar Deus mesmo.


A lógica de Deus difere da de Davi. À tentativa de “enclausurar” a presença do Poderoso de Israel, tal como pensava Davi, em um templo, em um edifício de pedra construído por mãos continentes, limitadas, é um absurdo rejeitado imediatamente por Aquele que, essencialmente, é incontinente, ilimitado. E o Senhor, pelo profeta Natã, replica: “Porventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? Fui eu que te tirei do pastoreio, do meio das ovelhas, para que fosses chefe do meu povo, Israel. Estive contigo em toda parte por onde andaste, e exterminei diante de ti todos os teus inimigos, fazendo o teu nome tão célebre como o dos homens mais famosos da terra” (2 Sm 7, 5. 8b-9). Não. Ainda que seja um centro de culto o intento de Davi construir uma casa para Deus, Aquele que operou maravilhas não quer que o seu servo faça-lhe uma casa; pelo contrário, preparando um lugar pacífico e profícuo para o seu povo, Deus fará morada no meio dele, ou melhor, Deus já está junto dele. E a profecia vai além ao afirmar: “E o Senhor te anuncia que te fará uma casa. Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Tua casa e teu reino serão estáveis para sempre diante de mim, e teu trono será firme para sempre” (v. 11-12. 14a. 16). Cronologicamente, vemos que o sucessor de Davi será o seu filho Salomão, conhecido por sua brilhante inteligência, e, depois deste, o seu neto Roboão. O primeiro sábio, como dissemos, porém, no término de sua vida, infiel ao Senhor; foi graças ao segundo que Israel foi seccionado em dois, e o trono que outrora era de Davi reinou em apenas uma parte mínima do que antes comandava. Logo, se fôssemos levar em conta unicamente o aspecto histórico, a profecia teria falhado.


A sucessão prometida a Davi não se baseará em aspectos sucessivamente temporários, mas possui uma profunda dimensão teológica que estará bastante em voga no Evangelho proclamado hoje. Aliás, não somente o ponto da linhagem sucessiva de Davi que está exposto, mas toda a perícope de Samuel meditada a pouco estará sendo explicitada no Evangelho da Anunciação.


Se na Primeira Leitura o Senhor se comunica com Davi pelo sonho de Natã, na plenitude dos tempos, Deus se comunica a Maria de maneira solene: através de seu anjo, de um mensageiro especial: Gabriel (cf. Dn 8, 16; 9, 21). Lucas faz questão de ressaltar que o anjo se dirige a uma virgem, Maria, prometida em casamento a um descendente de Davi, José. Logo, podemos localizar o aceno que o Evangelista quer fazer ao falar da procedência genealógica de Jesus, a do rei Davi. Com esta acentuação, Lucas pretende ressaltar que o fruto do seio da Virgem não procede apenas como um mero parente, mas como de fato é: o grande esperado da casa de Davi; o sucessor prometido por Deus. Este que veio para ocupar o lugar de seu pai é o sentido de ser do reinado do seu antepassado Davi: “Suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza” (2 Sm 7, 12). Portanto, a grandeza do reinado davídico não está em si mesmo, mas no seu magno sucessor, Jesus, cuja ascendência estava um milênio após o seu ilustre antecessor, Davi.



Se no Antigo Testamento existia a arca da aliança, em cujo conteúdo estavam símbolos representativos da presença de Deus junto a Israel, em Maria, sublime Arca da Nova e Eterna Aliança não estará representação, e sim, o próprio Deus, Jesus cujo sangue derramado é o marco da Nova e Inextinguível Aliança. O rebento da Virgem é autenticidade plena de que Deus está conosco (Emanuel), que habita entre nós (Shekinah). Se antes Deus falava por pessoas-instrumentos, a Virgem carrega o Verbo de Deus: “Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis et vidimus gloriam eius gloriam quasi unigeniti a Patre plenum gratiae et veritatis” - E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. (Jo 1, 14). Enquanto que a primeira arca era pretendida ser encerrada por Davi em uma casa, a Nova Arca é resguardada pela força do próprio Deus: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1, 35). Eis um fato inédito na Escritura: uma virgem conceber; virgem integralmente. Desta proeza só nos poderia vir alguém unicamente especial. Somente Maria, incorrupta de todo fermento de maldade, foi grandemente abençoada. Maria é templo nunca profanado que abriga o Incontinente que, por seu próprio desígnio, humilhou-se, limitando-se a nossa carne sem deixar de ser o que lhe é essencial. Que escândalo bendito para nossa simples razão!


Maria Virgem sabe, pela anunciação do Arcanjo, que o menino que dela nascerá não será um grande homem apenas, como fora Samuel, João Batista, Isaac, cujos nascimentos foram preditos, mas que esperará em seu seio o Grande, Filho do Altíssimo, Aquele que se assentará eternamente sobre o trono de Davi, seu famoso e célebre ancestral. A partir do início daquela intervenção divina que perdurará por toda sua existência, a Jovem de Nazaré possui a certeza de que o seu Jesus é o cumprimento de toda a promessa destinada a Israel, aqui representado pelo trecho “ele reinará para sempre sobre a descendência de Jacó” (v. 33). Em Jacó por figura, em Jesus realmente, a promessa de descendência numerosíssima se cumpre. Neste sentido, a Igreja recorre ao que afirma São Paulo na Segunda Leitura: “Agora este mistério foi manifestado e, mediante as Escrituras proféticas, conforme determinação do Deus eterno, foi levado ao conhecimento de todas as nações, para trazê-las à obediência da fé” (Rm 16, 26). O que Maria, por ora, esconde no ventre, será, no Natal, manifestação sensível do mistério eterno do coração de Deus. Logo, tudo o que acontece no ventre da Virgem é, como nos afirma o Salmo Responsorial: a lealdade do Senhor para sempre (cf. Sl 88, 3).


Por fim, referindo-se ao sim de Maria, São Bernardo de Claraval reza e nós, Igreja, misticamente com ele à Maria: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem – tu ouviste – mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida. Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta reposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés. E não é sem razão, pois de tua palavra dependem o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a sua raça. Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, reponde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna. Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar a tua piedade pela palavra. Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38)”. (Oratio IV de B.M.V., 8 s.).


“Vinde, Senhor! Vinde sem demora, ó nosso Esperado! Eis que clamamos, eis que bradamos, porque fielmente esperamos por vós. Não tardeis!”

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MAIS UMA DA TV RECORD, A RAINHA DAS BESTEIRAS, O ABSURDO DAS TV's BRASILEIRAS


RIO DE JANEIRO, 15 Dez. 11 (ACI) .- A rede Record, pertencente ao líder da Igreja Universal Edir Macedo, protagonista de escândalos de corrupção que o levaram à prisão e ativo promotor do aborto, criticou o pedido da deputada católica Myriam Rios de um financiamento de 5 milhões de Reais para a JMJ 2013 alegando que o evento será um transtorno para a cidade do Rio de Janeiro, que o estado laico não deveria contribuir a eventos religiosos e que esta verba deveria ser usada para outras necessidades da cidade. Católicos brasileiros repudiaram os argumentos da matéria da Record. 


O site da Renovação Carismática (RCC) de São Paulo critica a manchete usada pelo Jornal da Record: "Dinheiro para promover evento católico sairá do bolso do carioca". A notícia lançada no dia 9 de dezembro afirmava que o evento que "trará o Papa Bento XVI ao Rio de Janeiro, provoca polêmica e já arranca críticas da população".



"Os cariocas já reclamam do possível caos que toda essa movimentação deverá trazer a cidade. Mas o que chama mais a atenção dos cariocas é que a Jornada Mundial da Juventude poderá ser financiada com dinheiro público, recursos que poderiam ser destinados a hospitais, escolas e outros benefícios", afirma a nota da Record.



O argumento é rebatido pelo site católico humanitatis que afirma: "Não é difícil ver que a reportagem quer denegrir o evento católico e tem um caráter ideológico muito forte, o que já denuncia a fraqueza na argumentação contra a emenda da deputada. Por exemplo, afirmar que a chegada de peregrinos vai piorar o trânsito da cidade, que a visita de jovens vai aumentar a sensação de insegurança, que a excessiva estadia de turistas dificultará o atendimento em hospitais e postos de saúde é uma piada!"



"Com ou sem peregrinos visitando o Rio de Janeiro, os serviços básicos de saúde, transporte e segurança já estão no limite do ridículo", assevera a nota do humanitatis. 



"Além do mais, o Rock in Rio, a Rio 92, o Carnaval e, futuramente, a Rio + 20 também trazem um volume enorme de turistas e visitantes à cidade, mas não existe a mesma repulsa da mídia por estes eventos", recalca o site católico.



Outra acusação é a de que o dinheiro gasto na JMJ deveria ser revertido para benefícios básicos, de que a população do Rio de Janeiro está carente. A reportagem dá um tom catastrófico ao assunto, induzindo o leitor desatento a imaginar alguma falha de caráter da deputada Myrian Rios. Porém, "uma leitura mais cuidadosa faz ruir essa insinuação", afirma humanitatis.



"De fato, a deputada pede aos parlamentares a reorientação da verba do estado para apoiar a organização de um evento que é mundial, com um Chefe de Estado. Jovens do mundo todo virão ao país e ao estado para essa jornada e esse aporte parece ser necessário para uma boa preparação. Por isso, a deputada sugeriu a emenda, que é absolutamente legal, e visa direcionar uma verba que não pode ir para pagamento de médicos, nem de policiais, nem de guardas de trânsito". 



"Além disso, a última JMJ rendeu aos cofres de Madrid não 5 milhões de reais, mas 354 milhões de euros, algo superior a 1,5 bilhão de reais. Diante dessas cifras, não parece que os 5 milhões solicitados pela deputada deixam de ser "gasto" e passam a ser "investimento"?, questiona Robson Oliveira do site Humanitatis. 

Outra crítica ao evento é o comentário do deputado estadual Édino Fonseca, que "é contra a utilização do dinheiro do contribuinte para a promoção de um evento católico, advertindo que o Estado é laico". 



Rebatendo o argumento de que a laicidade do Estado o impede de contribuir com eventos como a JMJ, Oliveira afirma que este ponto "é o mais vergonhoso da argumentação" da matéria da Record.



"Quem escreveu a matéria quis vender a ideia de que o estado laico é aquele que não subsidia a religiosidade de seus cidadãos. Ora, mas uma das funções do estado é subsidiar ações que facilitem a vida dos seus membros. Negar essa função é renegar um caráter próprio do estado. Uma visão mais perfeita de laicidade revela que estado laico é o estado que não obriga seus cidadãos a seguir uma religião específica".



O site da RCC de São Paulo também critica a matéria esclarecendo que "o que mais nos chama a atenção é esse ataque da Rede Record contra esse evento. Quando se trata de um assunto como Copa do Mundo ou Olimpíadas Mundiais percebemos um apoio enorme".



A RCC –SP lamenta que milhões e milhões estão sendo investidos nestes dois eventos, mas quando se trata de um evento religioso, ainda mais católico, a história seja diferente.
"Não há nada de imoral ou ilegal na emenda da deputada Myrian Rios. Pelo contrário, os que a atacam fazem-no por espírito revanchista e/ou pisoteando a Constituição Federativa do Brasil. Seus argumentos são fracos, contraditórios ou simplesmente inexistentes". 



"Muitas críticas sobre a JMJ ainda virão, mas que pelo menos analisem melhor seus dados e refaçam toda a cadeia argumentativa. Tal qual foi apresentada no telejornal citado, fica difícil acreditar no(a) escritor(a)", conclui a nota de Robson Oliveira no Humanitatis.net. 



Fontes da Organização da JMJ afirmaram a ACI Digital que ainda não têm uma posição oficial sobre as críticas, porém informaram a ACI Digital que os jovens estão se manifestando significativamente nas Redes Sociais em apoio ao evento negando que este será um transtorno para o Rio.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DESCULPAS

Queridos amigos,

Peço-lhes desculpas, já que não pudemos nos encontrar no domingo passado. É que estou em pastoral de férias, iniciada no último 06 de dezembro e cujo término se estenderá até o dia 20. 

Fui designado pelos meus formadores para a Paróquia Nossa Senhora Rosa Mística, Conjunto Jardim, Nossa Senhora do Socorro, Sergipe. E, quando terminei de escrever a nossa reflexão dominical, não encontrei um "bico" (rsrsrsrsrs!!!) de internet sequer para postá-la.

Espero contar com a sua sincera compreensão, na perspectiva de nos reencontramos neste domingo seguinte, 18 de dezembro, IV Domingo do Advento.

Até lá!!!

Deus os abençoe! 

sábado, 3 de dezembro de 2011

ÁUDIO DO HINO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

A pedido de um dos nossos internautas, o áudio do Hino de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da cidade de Aracaju, bem como da Arquidiocese de Aracaju e de todo Estado de Sergipe.



HINO DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
EXCELSA PADROEIRA DE ARACAJU

Letra: Seminarista Everson Fontes Fonseca
                                                                                         Música: André Souza Santos

1.      Viemos cantar-vos louvores,
Ó Senhora Mãe de Deus,
Pelos imensos favores
Que nos vieram dos céus.
O vosso povo bendiz:
Sois Rainha soberana,
A Santa Imperatriz
Da terra aracajuana!

Sois a Virgem Imaculada!
Escutai nossa oração
:/Desta terra a vós votada,
Senhora da Conceição!/: (bis)

2.      Povo a Deus consagrado,
Por vossas mãos, ó Maria.
Desde o antigo traçado,
Sois nosso amparo e guia
Protegei-nos com um manto,
Doce Senhora sem par!
Aracaju ergue um canto:
Defendei-nos sem cessar!

3.      A fé da Igreja apregoa:
Sois Maria Imaculada!
Nenhuma mancha enodoa,
Sois do Eterno plasmada;
Portastes em vosso seio
Nosso Jesus Redentor.
Ouvi o profundo anseio:
Ofertai-nos ao Senhor!

4.      Sempre Virgem, Mãe Clemente,
Dos altos céus onde estais,
Protegei a nossa gente,
Aumentai-nos sempre mais
Nos sentimentos do amor,
Da força, e da gratidão
Vos louvamos com fervor,
Senhora da Conceição!

II DOMINGO DO ADVENTO


(Ano B – 04 de dezembro de 2011)


I Leitura: Is 40, 1-5. 9-11
Salmo Responsorial: Sl 84(85), 9ab-10.11-12.13-14 (R/. 8)
II Leitura: 2 Pd 3, 8-14
Evangelho: Mc 1, 1-8 (João Batista)


Queridos irmãos,


Deus, em seu eterno desígnio, como já anteriormente afirmamos em outras ocasiões, é Senhor da História. Sim, ele, em sua onisciência, já havia nos querido e nos amado. Assim como com todos, da mesma forma com João. Na preparação do Natal do Senhor, é imprescindível não nos depararmos com a figura providentíssima de João Batista.


Como escutamos na Liturgia da Palavra deste II Domingo do Advento, o profeta João Batista já era antecedido por uma profecia, a de Isaías, como demonstra a Primeira Leitura de hoje. Isso observado numa ótica cristã. São Marcos faz questão de frisar este dado. Logo após fornecer-nos a informação de que aquilo que ele escreve é o alegre anúncio de Jesus (Evangelho, em grego, significa Boa-Nova), Marcos nos apresenta a mesma profecia de Isaías audita na Primeira Leitura: “Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’” (cf. Is 40, 3; Mc 1, 2-3). Marcos começa o seu anúncio sobre Jesus a partir da experiência que João, o profeta prenunciado, fez.


Quando o mundo ansiava um redentor, um sacerdote iminente capaz de ser pontífice entre os homens e Deus, conforme nos explicita a Carta aos Hebreus, Deus faz-se precisar de um mensageiro, alguém que, nascido fora da lógica humana (nos assevera o seu nascimento de uma estéril, o seu perfil e as suas práticas), é um valoroso pregoeiro que, a frente do Senhor, prepara-lhe os caminhos do tão esperado Salvador da humanidade prostrada à servidão do pecado, endireitando as estradas daquele que “vem em nome do Senhor”.


Interessante que, assim como outros, João exerceu o seu profetismo no deserto, muito embora com um ponto único: João batizava - “no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (Mc 1, 4). No dizer de Orígenes: “Observa, ao mesmo tempo, que o significado é mais forte se se entende ‘deserto’ no sentido espiritual, e não no sentido literal. Pois aquele que prega no deserto emprega a sua voz em vão, já que lá não há quem escute o falar. O Precursor de Cristo, ‘a voz do que clama no deserto’ prega no deserto das almas que não possuem paz. E não somente hoje, mas também naquela época ‘é uma lâmpada ardente e brilhante’ (Jo 5, 35), que vem por primeiro ‘e anuncia o batismo da penitência pela remissão dos pecados’. Pois vem ‘a verdadeira luz’ (Jo 1, 9), quando a lâmpada se diz ‘é necessário que ele cresça e eu diminua’ (Jo 3, 30). A palavra de Deus é proferida ‘no deserto, e se difunde em toda a região em torno do Jordão’. Qual outro lugar em que o Batista poderia ir, senão em torno do Jordão para mergulhar na água todos os que fizessem penitência?” (Evang. Luc., 21, 2, 2-7).


João expectava o Cristo; era consciente de sua missão. Por este motivo, não se preparou apenas, como preparou a todo o povo, consolando-o: “Consolai o meu povo, consolai-o! – diz o vosso Deus –. Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumprida; ela recebeu das mãos do Senhor o dobro por todos os seus pecados” (Is 1, 2). Mediante a preparação das vias do Senhor no coração do povo que este pregoeiro fará, Deus manifestará a sua glória “e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou” (cf. 5), ou seja, o Verbo Divino, Jesus Cristo, o “Deus Conosco”, “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1, 15).


E diz-nos João com as palavras de Isaías: “Sobe a um alto monte, tu, que trazes a boa-nova a Sião; levanta com força a tua voz, tu, que trazes a boa-nova a Jerusalém, ergue a voz, não temas; dize às cidades de Judá: ‘Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo domina: eis, com ele, sua conquista, eis à sua frente a vitória’” (Is 40, 9-10). João, por ser o profeta que abre o Novo Testamento e encerra o Antigo, traz o alegre anúncio da vinda do Salvador, do próprio Deus. Interessante é que o profeta Isaías traz-nos à idéia um Deus poderoso, vitorioso; consoantemente, o Batista diz: “Depois de mim virá alguém mais forte do que. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias” (Mc 1, 7). E como nos vem o Messias, o ‘Esperado das nações’, senão envolto em nossa pobre condição humana, tal como um pastor que tentar sondar as necessidades de seu rebanho (para utilizar uma imagem da profecia de Isaías na Primeira Leitura – cf. v. 11). Sim, o que nos virá é forte, é grande, é majestoso, é vitorioso. Mas, por ser tudo isso, é que ele é complacente, misericordioso. A misericórdia é um atributo-filha da onipotência do Senhor; logo, não se constitui, portanto, um paradoxo, um disparate.


Deus é misericordioso, como bem o sabemos. A Primeira Leitura deste domingo historicamente se insere na esperança da libertação de Israel do jugo do cativeiro da Babilônia. E, por que o povo estava cativo? Porque pecou. Deus é justo, mas é misericordioso. Por isso, pelo profeta que prenuncia a vinda de um outro que falará da libertação, é lembrada a Israel o motivo de sua redenção: a imensa misericórdia do Senhor: “Ela (Jerusalém, cidade que simboliza todo o povo de Israel) recebeu das mãos do Senhor o dobro por seus pecados” (v. 2). Se grande foi o pecado de Israel, proporcionalmente foi o castigo, a escravidão (não porque Deus o quisesse, mas porque o povo assim o quis), incomparavelmente superior (dobro) o beneplácito do Senhor. Do mesmo modo, nos aconteceu quando, cegos, não podíamos enxergar a luz de Deus. Cegos pelas nossas faltas, infidelidades. Se grande era a nossa cegueira, incomensurável, pela misericórdia imensa, foi o preço pago para que fôssemos livres, outrem nos resgatou com um altíssimo valor: Deus mesmo, fez-se pecado por nós, habitando em nossa mísera condição. Daí, a Igreja rezar ao Pai na Oratio Super Oblata: “[…] e, como não podemos invocar os nossos méritos, venha em nosso socorro a vossa misericórdia”. Sim, por nós mesmos nada podíamos, pois somos incapazes e grande era a dívida a ser saldada. E, a partir daí, alcançamos de Deus a vida divina: “Ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 1, 8).


Uma das imagens mais antigas de Deus trazida pelas Escrituras é a de harmonizador: o Criador organiza o que cria. Esta idéia, embora indiretamente, é contemplada no Salmo Responsorial. Ao falar o Senhor traz a paz! Quem é o Verbo de Deus senão o que nos nascerá? Ele veio e com ele a paz (lembremo-nos do canto angelical diante dos pastores quando nasceu o Menino Deus: “Gloria in altissimis Deo et in terra pax in hominibus bonae voluntatis” – Lc 2, 14). Jesus é a plenitude da paz ao mundo; a sua suave presença (Shekinah, em hebraico) traz o ápice da paz, que é embutido na salvação, que, por sua vez, propicia ao mundo justiça (cf. Sl 84, 11b.12b.14), fidelidade (cf. v. 12), bondade (cf. v. 13a), prosperidade integral (cf. v. 13 b), verdade (cf. v. 11a).


Logicamente, dentro do contexto deste tempo, temos presente, na Segunda Leitura, o alerta dado por São Pedro acerca da segunda vinda do Senhor. Interessante, enquanto no tempo teológico estamos na expectativa da chegada do Salvador feito carne, no tempo cronológico (que não se exclui o caráter teológico), esperamos o seu retorno, fato que o Príncipe dos Apóstolos nos atenta hoje.


Muitos (geralmente os que pertencem a seitas que apelam para o choque de idéias apocalípticas) tentam incutir medo nas pessoas com relação à tenacidade da vinda do Senhor, tiranizando Deus. Inclusive, alguns chegam até mesmo a datá-las, o que é absurdo. A Mãe Igreja nunca escondeu esta verdade de fé: “O Senhor virá!” (“E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim”). Mas quando isto acontecerá? Repetindo o seu Mestre, Pedro diz: “Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia. O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns, achando que demora” (2Pd 3, 8-9). Com isso, o Apóstolo está nos aconselhando à paciência. Logicamente, não devemos ficar passíveis à volta do Senhor (vulgarmente, “com a cara pra cima”, esperando que ele volte). Também, não devemos nos atemorizar com este divino evento em que seremos finalmente recolhidos no Senhor. Igualmente, não devemos nunca pensar que o Senhor não virá (como está em voga na mentalidade imposta por uma fé barata da Teologia da Prosperidade).


Sim, o Senhor virá para reunir-nos. A lembrança deste dia surpreendente é convocação para uma “vida santa e piedosa” (2Pd 3, 11), pois, como bem sabemos, esta terra não é o nosso lugar definitivo, mas a partir dela, rumaremos aos “novos céus e nova terra” (v. 13).


Que nesta vida que levamos de expectativa do Senhor, não percamos de vista a dimensão da vinda cotidiana do Senhor. Assim como ele nos veio e nos virá, ele vem a nós cotidianamente nos mistérios da Igreja. Estas “vindas”, igualmente imprescindíveis como a Encarnação e a Parusia, são oportunidades espetaculares de um aprimoramento de vida, conformando-a a do Senhor. Que a Virgem Maria nos auxilie com o seu perfeito exemplo e com a sua maternal intercessão.