terça-feira, 30 de agosto de 2011

FESTA DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE,

EXCELSA PADROEIRA DE LAGARTO
De 30 de agosto a 08 de setembro de 2011






LAGARTO VOS VENERA, MARIA!!!!!






HINO DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE


Ó Virgem Mãe, ó Mãe da humanidade,
Ó Padroeira desta terra tão querida,
O teu olhar de ternura e castidade,
Nos conforta nos embates desta vida (3x).


1. Salve, a voz, o poder e a bondade
Que nos clamores desta gente escutou,
Salve, salve a Virgem Mãe da Piedade
Do grande jugo nossa terra libertou (3x).


2. Nossa terra que outrora assim gemia,
Sem ostentar os seus grandes esplendores,
Mas em noss'alma a fé sempre se erguia
E circundaste-a de sorrisos e de flores (3x).


3. Ó Mãe Celeste, ó que suavidade,
Ó que conforto em nosso coração,
Nessa terra, ó Virgem Mãe da Piedade,
A tua imagem é amor e gratidão (3x).



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sábado, 27 de agosto de 2011

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

(Ano A – 28 de julho de 2011)





I Leitura: Jr 20, 7-9
Salmo Responsorial: Sl 62 (63), 2. 3-4. 5-6. 8-9
II Leitura: Rm 12, 1-2
Evangelho: Mt 16, 21-27 (Participar da cruz)





Querido irmãos,




A realidade batismal nos confere uma identidade indelével: a de cristão, seguidor do Cristo. Por meio deste proto-sacramento somos levados, através de tantos meio, principalmente a um testemunho de vida, a um compromisso com Aquele que nos escolheu para si e nos ungiu e, a partir Dele, com a Igreja e os irmãos.

Estamos enfrentando um grande problema na Igreja: muitos os cristãos fazem pouco caso da graça-missão de ser batizado. Digo pouco caso porque poucos tentam configurar a sua vida a do Mestre, esquecendo-se do conselho dado por São Paulo: “Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Cor 11,1). Outros cristãos vivem numa espécie de letargia testemunhal: até querem ser discípulos de Jesus, mas na hora da “prova dos nove” se retraem através de uma vida cômoda para não dizer laxa. Isso sem falar da característica involuntária e falsa que o sacramento do Batismo recebeu por parte de alguns outros: a de ação tradicionalmente costumeira como que uma simples herança e status familiares e sociais. A Liturgia da Palavra deste domingo nos interpela: como batizados, como estamos seguindo o Senhor?

Jesus, no seu itinerário, quer deixar os discípulos conscientes de quem ele é, bem como da sua missão. Por isso, no domingo passado (XXI Domingo do Tempo Comum) ter indagado os seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16, 13); “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 15). E quando da resposta de Pedro “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16), Jesus, felicitando-o, entregou-lhe a chaves do Reino dos Céus, implantando a sua Igreja sobre a Profissão de Fé de Pedro. Logo, a Liturgia da Palavra do domingo anterior nos revelou quem é Jesus, ao tempo em que a do presente domingo nos mostra Jesus conscientizando os discípulos acerca da sua missão, inclusive o seu sofrimento, morte e ressurreição. Mas, por que o Senhor os conscientiza? Para que a esperança deles no Filho de Deus não se evacue, esmorecendo. Interessante, caríssimos, recordar: mesmo o Senhor clarificando aos seus qual seria o seu fim, querendo evitar que eles não fraquejassem, ainda assim, os discípulos fogem, abandonando-o na hora da Paixão.

Jesus apresenta Jerusalém como “estrado” da Salvação. E para lá ruma com os discípulos mostrando a eles que tudo aquilo se fazia necessário para revelar o Pai, e este o Filho e o seu poder salvífico. Pedro, o mesmo que outrora havia feito uma belíssima e sincera alocução acerca de quem é Jesus, arrasta o Mestre à parte e repreendendo-o, disse-lhe: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16, 22). Por que Pedro age assim? Ora, naquele momento, na tronca cabeça de Simão Pedro, era inconcebível a idéia de que o Messias sofresse e morresse; o sofrimento e a morte seriam, para o líder dos Discípulos, uma incongruência com a missão do “Cristo, o Filho de Deus”. Parece até que Pedro queria dar aulas de soteriologia ou cristologia ao próprio Jesus Cristo. Muitos estudiosos chegam a afirmar que há uma possibilidade de Simão Pedro ter pertencido à facção dos sicários, os quais pretendiam libertar Israel do poder dos romanos através da rebelião de uma luta armada (lembremo-nos que, quando da prisão de Jesus, Pedro saca de uma espada e golpeia um soldado romano de nome Malcus, este é um forte indício da pertença de Simão Pedro ao grupo dos sicários). Estes rebeldes ainda esperavam o advento de um Messias guerreiro que iria igualmente libertar Israel, instaurando uma monarquia forte e pujante. Jesus, ao manifestar o seu sofrimento e morte, frustra os planos e os conceitos que Pedro tinha a respeito do Messias. Por conta disto, Jesus ter chamado Pedro de Satanás, de pedra de tropeço, acusando-o de possuir uma mentalidade tão humanizada que quer sufocar os planos de Deus (v. 23).



Jesus expõe aos seus a condição necessária para o seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la. De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” (v. 24-26). Neste sentido, acorre-nos São João Crisóstomo, parafraseando o Senhor: “Não penseis que seguir-me é fazer isso que agora fazeis ao seguir-me. Necessitareis de muitos trabalhos e passar por muitos perigos, se haveis de seguir-me. Não por haver-me confessado agora, ó Pedro, vais a pensar que só te esperam coroas e que com só o pensamento que tiveste te basta para a salvação e que no futuro hás de viver alegre como se já tudo estivesse acabado. Como Filho de Deus que sou, posso eximir-te de experimentar os males, no entanto, para o teu bem não quero fazê-lo, para que tu ponhas algo de tua parte e assim sejas melhor provado. Nenhum treinador desportivo, quando estima muito a um atleta quer coroá-lo gratuitamente, sem que anseie que este o ganhe com o seu próprio trabalho, sobretudo porque o estima. Assim Cristo quer que aqueles, a quem especialmente ama, brilhem com seu próprio mérito e somente por sua graça” (Sobre o Evangelho de São Mateus, 55).

E Jesus continua, concluindo o Evangelho: “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com todos os seus anjos, então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta” (v. 27). Em outras palavras, seremos recompensados por aquilo que fizemos para segui-lo. Esta afirmativa de Jesus acerca do seguimento do discípulo deve-nos incomodar. Quantas vezes queremos seguir a um pseudo-Cristo, pintado conforme os nossos interesses particulares, uma espécie de Jesus à nossa conveniência? O mundo, prioritariamente por dois motivos, necessita do testemunho cristão: 1) Porque já se sente vazio e fatigado de tantas palavras descomprometidas com a vida; 2) Porque o testemunho arrasta a muitos para o Cristo. Se os cristãos não derem razão de sua fé pela vida, a fim de atrair muitos para Jesus, para que todos Nele alcancem a Vida, quem o dará? Os indiferentes? Em nome de um cristianismo desleixado, muitos acabam pensando que Jesus é uma ideologia, e, por isso, não encontram razão para alicerçar-se nos valores evangélicos. Outros cristãos se desesperam no meio dos trabalhos e cruzes da vida, pensando que Deus o abandonou à mercê de sua própria sorte. Por isso, na hora em que urge a demonstração da força da fé, estes se deflagram na aflição, no desespero, na depressão. Jesus nunca prometeu vida fácil para os que lhe querem seguir: “Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna” (Mc 10, 29-30).



Na Primeira Leitura, temos o exemplo de Jeremias como seduzido inteiramente por Deus. Já na última parte de seu livro, o Profeta reconhece que esta sedução pelo Senhor lhe acarreta inúmeros desafios, inclusive o da incompreensão, da indignação, da marginalização, da chacota, entre outros. Jeremias tenta a todo custo separar-se deste amor: “Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele” (Jr 20, 9). No entanto, quanto mais ele tentar divorciar-se deste amor, mais apaixonado estará, sentindo cada vez mais a vontade de estar perto Dele, sentimento agudo comparado a um fogo ardente e penetrante. Reconhece assim que o amor fascinante do Senhor é mais forte do que toda e qualquer adversidade.

Quantas vezes o desânimo de sermos profetas nos abate? No Batismo, fomos também ungidos para o profetismo. Ao nos debatermos com as cruzes, incompreensões e dificuldades de nossa vida, somos obrigados, como uma necessidade, a recordar da emoção que sentimos pelo nosso primeiro amor e amante: Deus. Devemos ter na lembrança o nosso “Divino Sedutor”. Jeremias foi um apaixonado por Deus a tão máximo ponto que derramou seu sangue, testemunhando o Senhor, o “violento sedutor” de sua vida. Que a seu exemplo, tenhamos um santo furor no nosso testemunho de profeta do Evangelho, eternos enamorados da causa do Senhor. Que sempre sintamos a necessidade de declarar com o Salmo: “A minh’alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus” (Sl 62, 2).

O amor ao Senhor faz-nos aderir ao convite que São Paulo nos faz na Segunda Leitura: o de sermos um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12, 1), tão como uma prestação de um culto espiritual. É a nossa vida como oblação. E como faremos na prática esta oferenda? São Paulo nos responde oferecendo-nos as pistas: a inconformação com o mundo, que nos leva a atitudes de conversão constante, inclusive nas dificuldades e agruras da vida, realizando, em tudo, a vontade de Deus, que de per si é boa, lhe é agradável, e nos aproxima mais da perfeição.

Que o Senhor sempre nos contagie com o seu amor, que lhe sejamos correspondentes neste profundo e autêntico sentimento. Que, ao levar  a nossa cruz, sejamos menos indignos da nossa identidade cristã.       

DOM DULCÊNIO PREGA NA FESTA DA CATEDRAL DE MACEIÓ


HOMILIA PARA A MISSA SOLENE DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES, EXCELSA PADROEIRA DE MACEIÓ

(Catedral Metropolitana de Maceió, 27 de agosto de 2011)




·         Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Frei Antônio Muniz Fernandes, Arcebispo Metropolitano de Maceió;


     ·         Reverendíssimo Monsenhor Celso Alípio Mendes, Pároco do Curato da Sé Metropolitana de Maceió;


·         Reverendíssimos sacerdotes;


·         Caríssimos diáconos, seminaristas, religiosos e religiosas;


·         Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo Jesus Nosso Senhor;


 

MÃE DE JESUS, MÃE DA ALEGRIA – “FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU QUE TERIAM UM CUMPRIMENTO AS COISAS QUE LHE FORAM DITAS DA PARTE DO SENHOR”. “MARIA É FELIZ PORQUE TEM FÉ, PORQUE ACREDITOU, E, ACOLHEU NO SEU VENTRE O VERBO DE DEUS PARA DÁ-LO AO MUNDO”




Desde há muito, o devoto povo maceioense tem o bendito costume de cantar os louvores a Deus por meio da Virgem dos Prazeres, entoando: Padroeira de nossa cidade / Santa Mãe dos Prazeres Maria / protegei-nos, ó Mãe de Bondade / dai-nos paz, dai-nos a alegria. / Sem vós nossa luta é renhida / Somos pobres humílimos seres / defendei-nos, ó Virgem querida / sustentai-nos ó Mãe dos Prazeres!

O título de Maria, a Virgem dos Prazeres nos leva a refletir acerca da Bem-Aventurança da Mãe de Deus. Esta designação mariana está associada, não a um singular momento da vida de Nossa Senhora, mas possui uma longa raiz que perpassa toda a existência da Soberana Virgem, Mãe de Jesus e da humanidade.

Sempre o povo de Maceió soube reconhecer quão ditosa foi a vida daquela que, cumulada de alegrias por ter sido escolhida para Mãe do Salvador, tornou-se matrona destas terras. Assim, festejar Nossa Senhora dos Prazeres é celebrar as alegrias de Maria, não como contentamentos banais, mas como recompensa de sua fé.

Segundo uma arraigada tradição, cujo saber todos vós tendes, a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres remonta a Portugal no século XVI. Ao aparecer para uma jovem em uma fonte, a Senhora do Céu promete-lhe que aos que beberem daquela água jorrada, seriam validos de suas enfermidades. Pede-lhe que seja construída uma ermida naquele local, cuja denominação seria dada pelo patrocínio de Nossa Senhora dos Prazeres, ao tempo em que a Virgem Maria presenteia aquele povo com uma imagem sua.


A antiquissima imagem de Nossa Senhora dos Prazeres venerada nesta Catedral sintetiza aquilo que o seu título embute. Vemos a Virgem ornada com vestes áureas, o que na iconografia representa a glória com a qual Maria foi por Deus adornada. Nossa Senhora está entre as nuvens e aos pés possui anjos, designando que a glória de Maria, mesmo iniciada ainda nesta terra, possui a sua completude na Pátria dos Santos. A Virgem leva às mãos um ramalhete de rosas, o que simboliza a alegria com a qual o Senhor a ornou. No rosto a imagem estampa um singelo sorriso o que demonstra a sua felicidade, o seu prazer em ser toda do Senhor e, por isso, ser cumulada de bens espirituais como nenhuma criatura o foi.  A soberana Senhora do povo maceioense repousa sobre o ventre a sua mão direita, manifestando que as suas alegrias iniciaram quando, nela, o próprio Deus se fez carne. Logo, Maria, em si mesma, não possui nenhum mérito, mas tudo o que lhe aconteceu se deu unicamente pelos méritos do seu Filho e Senhor.

A titulação “dos Prazeres” remonta-nos à ideia de que a vida de Maria foi ornada de um setenário de alegrias. Por isso, eu ter afirmado anteriormente que o título de vossa padroeira perpassa toda a vida da Virgem, desde o anúncio do Anjo Gabriel até a sua Assunção e Coroação no Céu.

Ao tratarmos das alegrias de Maria, se faz mister termos diante de nós a Palavra de Deus. Assim, no Evangelho de São Lucas, quando da anunciação do Anjo, a Virgem, mesmo estando estupefata pela embaixada do mensageiro divino, aí encontra a sua alegria ao dizer: “Eis aqui a Serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Digo que neste primeiro momento a Senhora Imaculada encontra a sua alegria porque o seu prazer está em cumprir a vontade de seu Deus: “Eis que venho fazer com prazer a vossa vontade, Senhor!” (Sl 39, 9).

Em um segundo momento, temos como gozo de Maria a sua visita a Isabel. Quanta vibração o coração de Nossa Senhora teve ao escutar de sua prima as palavras: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42). Neste sentido, Orígenes afirma: “Disse, pois: ‘Bendita ti entre as mulheres’. Nenhuma foi jamais tão cumulada de graça, nem poderia ser-la, por que somente ela é Mãe de um fruto divino”.
Isabel, imbuída do Espírito, não só proclama a beatitude de Maria, como também se sente honrada pelos dois ilustres visitantes: Deus feito homem e a sua Mãe. Disse Isabel: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lc 1, 43-44). Se o coração de Nossa Senhora já estava radiante de júbilo, ao sentir-se tão tributada, ela tinha consciência de que o motivo de toda aquela receptividade não se dava prioritariamente por sua pessoa, mas por conta do Verbo a quem ela carregava como receptáculo.


Ó felizarda Isabel, se te admiras de ter concebido um menino na tua velhice, com maior honra foste cumulada ao receber sob o teto de tua casa o próprio Salvador e sua Mãe. Se te alegras em conceber um homem, ainda que seja um profeta de grande quilate, quão felicidade não tiveste em reconhecer o Cristo ainda no ventre de sua Mãe. Se rejubilaste em ter dado à luz ao “Precursor do Altíssimo”, quão júbilo não tiveste ao ser cuidada por aquela que devotamente iria zelar pela vida do Deus Encarnado! Ó feliz Isabel, mais agraciada que tu, só mesmo a Virgem Mãe de Deus!”

A idosa bendiz a Maria, não apenas pela sua gestação carnal, mas porque, antes mesmo desta, ela já estava prenhe da fé na Palavra do Senhor. Por isso, Isabel prorrompe: “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1, 45). Esta veneração e predição de Isabel é um reconhecimento da importância da Virgem na obra de salvação da humanidade. O Catecismo da Igreja Católica, ao tratar sobre a resposta do homem a Deus, põe a fé de Maria em um lugar de prestígio: “A Virgem Maria realiza da maneira mais perfeita a obediência da fé. Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazida pelo anjo Gabriel, acreditando que ‘nada é impossível a Deus’ (Lc 1, 37) e dando o seu assentimento: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1, 38). Isabel a saudou: ‘Bem-aventurada a que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido’ (Lc 1, 45). É em virtude desta fé que todas as gerações a proclamarão bem-aventurada” (CIC 148).

Se Isabel prorrompe em gozo, a alma de Maria possui maiores motivos para elevar louvores a Deus, por isso entoa o Magnificat. Se Isabel profetiza acerca da Virgem, esta possui uma profecia mais pontual. Maria, humildemente, reconhece o que Deus fará à humanidade por meio dela, e se alegra estupendamente proclamando as maravilhas de Deus: “Minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva.” (Lc 1, 46-48). Parafraseando, é como se ela quisesse dizer: As maravilhas que Deus pronunciou as cumprirá em meu corpo; no entanto a minha alma não será infrutuosa diante de Deus. Porque quanto maior é o milagre com que sou honrada, tanto maior é a obrigação que tenho de honrar Àquele que em mim realiza coisas maravilhosas.

Dando continuidade, a Virgem declara: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo” (Lc 1, 48-49). A esta profecia de Maria sobre si mesma, onde todas as gerações a chamarão feliz, temos Isabel como a primeira na longa série das gerações que declaram a Mãe do Salvador como bendita. Isabel é a primeira a cumprir o que Deus falava pelas palavras de Maria. É baseado nesta passagem que a Igreja eleva a Nossa Senhora o seu preito e veneração. O louvor iniciado, outrora, pela idosa Isabel chega hoje aos nossos corações a fim de ser proclamado pelos nossos lábios. Não proclamamos as maravilhas de Maria, mas bendizemos a Deus pelo que Ele se dignou fazer naquela a qual escolheu para ser a Mãe do Verbo; é pelos méritos de Cristo que honramos a Doce Senhora do Céu.

O Cântico de Maria é a litania dos sem voz e sem vez, é o pregão dos humildes e marginalizados. Por tal motivo, a Virgem profetiza a elevação dos humildes e indigentes. Neste sentido, afirma-nos São Basílio: “Certamente que a presente passagem nos afasta das coisas sensíveis, ensinando-nos a incerteza dos bens mundanos, pois são caducos, como a onda que aqui e lá se difunde pelo ímpeto dos ventos. Tomado intelectualmente, o gênero humano teria fome, a exceção dos judeus, a quem havia enriquecido com a tradição da Lei e os ensinamentos dos profetas; mas como não aderiram humildemente ao Verbo humanado, foram deixados vazios, não levando nada, nem fé, nem ciência. Foram privados da esperança dos bens e da terrena Jerusalém e excluídos da vida futura. No entanto, aqueles dentre os gentios que tinham fome e sede, havendo aderido ao Senhor, foram cumulados de bens espirituais” (In Psalmo, 33).

A terceira e quarta alegrias de Maria se dão, respectivamente, no Nascimento do Salvador e na visita dos Magos ao recém-nascido Jesus. Quando não havia a assolação das guerras, quando a paz reinava sobre o mundo, eis que aparece a Esperança do Povo, o Messias, enviado pelo Pai. Aqui, somos invitados a contemplar a satisfação de uma mãe, desta escolhida para levar o Menino Deus em seu ventre e em seus braços, expondo ao mundo, mergulhado nas trevas do pecado, a Luz Resplandecente do Cristo. Maria o mostra: a sua criança é o prêmio e garantia da humanidade. Ela tem na consciência o que anjo afirmou: “Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo” (Lc1, 32), e a grande prova disto é a visita dos Reis Magos que, provindos do Oriente, oferecem valiosos presentes. Naquela pobreza, Maria reconhece mais uma vez a grandiosidade do seu menino. Por este motivo, garante-nos Santo Agostinho: Consumado o milagre do parto virginal, em que o útero cheio da divindade deu à luz ao Deus-Homem sem perder o selo da sua integridade, entre os tenebrosos esconderijos de um estábulo e a estreitez de um presépio, nos quais a Majestade infinita, reduzindo-se nas curtas dimensões de um terno corpinho, permite ser envolto em simples panos, um novo astro aparece de repente no céu iluminando a terra. E, dissipada a névoa que cobria todo o mundo, converte a noite em dia para que o dia não ficasse oculto entre a noite. Por isso disse o evangelista: ‘Pois quando nasceu’” (In sermone 5 de Epiphania). Imaginemos quanta ternura Maria dispensou àquela criança; o quanto a Virgem o estreitou, acariciou o seu Jesus...

Outra exultação de Nossa Senhora pode ser vista quando ela reencontra Jesus adolescente no Templo, porque este se perdera de seus pais durante uma festa judaica. Quanta aflição Maria não deve ter experimentado naquela hora? O sentimento de preocupação deve ter invadido o seu Imaculado Coração. Perder de vista o seu adorável Filho e Deus. A angústia foi tanta que ela, ao encontrá-lo na posição de Mestre entre os mestres do povo de Israel, respira aliviada. Os que eram doutos na Escritura e nas Leis sendo interrogados por um meninote imberbe.

Quando Maria encontra o seu Filho, ela se extasia, o contempla, o admira. Isso sem falar do alívio que ela deve ter sentido. Surpresa Maria diz: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição” (Lc 2, 48); ao que o menino responde: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2, 49). E São Lucas prossegue: “Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera” (Lc 2, 50). Embora tivesse ficado, como que atordoada, Maria deve ter se alegrado em saber que a cada dia que se passava o Menino Jesus vai tomando consciência de quem ele é e da sua missão: revelar o Pai, interessando-se pelas coisas que se referem a Ele.

O sexto júbilo da Virgem dos Prazeres: a contemplação da ressurreição de seu Jesus. Se grande foi a agonia da Sexta-Feira da Paixão do Senhor, quanta felicidade o seu coração não experimentou ao ver Jesus ressuscitado em um corpo glorioso, manifestando a humanidade o seu poder e a sua vitória sobre o pecado e morte, manifestando ao mundo a sua divindade? Embora não exista nenhum argumento bíblico que narre Maria contemplando o Ressuscitado, por óbvia dedução a Igreja afirma este fato, porque já que Jesus apareceu à Igreja e Maria estava sempre com ela, logo, ela também o viu e o adorou. Maria é a Senhora da Alegria Pascal.

Por fim, muito ligada à sexta, temos a sétima alegria: a glorificação de Maria. A morte não poderia corromper o corpo Daquela que nunca foi corrompida pelo pecado. O sono da morte não poderia abater Aquela que trouxe o Sol Brilhante da Justiça, Jesus Cristo Senhor Nosso, cujos raios despertam a humanidade do torpor dos vícios e da miséria de sua condição. A Virgem Maria rumou para a Pátria dos Eleitos a fim de ocupar o Seu lugar honroso na Corte Celestial, junto do Seu Filho Bem-Amado; para isto ela foi arrebatada em corpo e alma. Aquela que trouxe no seio virginal O que veio do Céu é conduzida pelos anjos ao mesmo Céu, para ser acolhida por quem antes acolhera.

Ao venerarmos a Senhora dos Prazeres como assunta aos céus em corpo e alma, possuímos um convite magnânimo para, com Maria, elevarmo-nos para o céu, para “onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica, a da santidade” (Bento XVI, Homilia de 15 de agosto de 2008). Se a cada momento somos invitados a elevar os nossos corações, tendo como expectativa as realidades celestes, ao contemplarmos a Virgem Maria sendo conduzida às alturas Celestes, nossa esperança multiplica-se infindamente, pois vemos cumprir-se o que o Apóstolo dos Gentios nos alenta: “Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (1Cor 15, 22-23). Portanto, nossa esperança multiplica-se porque tendo a absoluta certeza que Jesus, as primícias da nossa ressurreição e imortalidade, nos abriu o véu da sua glória, a nós que acreditamos (“por ocasião da sua vinda”), ao mesmo tempo contemplamos muitos que, tal como nós, creram no Cristo e, por isso, já participam dos júbilos do Prêmio eterno. Desta forma, ao celebrarmos a glorificação de Maria, festejamos a mesma glória de Cristo que comungaremos junto com Ela. A Virgem nos antecede nos céus! A glória que ela possui, graças aos méritos de seu Filho, a teremos também, pelo mesmo merecimento.

Enquanto este ditoso dia não nos vem, momento em que adormeceremos com Cristo para nele revivermos, contamos com uma ímpar intercessora: Maria, aquela cuja vida foi toda repleta de prazeres autênticos, alegrias provenientes de uma vida sintonizada com Deus.

Maria está na Glória dos Eleitos, nós, militando. Mas esta certeza nos acompanha: do céu ela intercede, vela por nós. Por isso, vós maceioenses, nunca enfastiando de cantar os seus louvores entoam solenemente:



Sem vós nossa luta é renhida

Somos pobres humílimos seres

Defendei-nos, ó Virgem querida

Sustentai-nos ó Mãe dos Prazeres!

 

Que ela vos acompanhe com a sua materna intercessão!



Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

      

       








HOMILIA DE DOM DULCÊNIO FONTES DE MATOS

HOMILIA PARA A NONA NOITE DE NOVENÁRIO DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES
(Catedral Metropolitana de Maceió, 26 de agosto de 2011)


·         Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Frei Antônio Muniz Fernandes, Arcebispo Metropolitano de Maceió;
·         Reverendíssimo Monsenhor Celso Alípio Mendes, Pároco do Curato da Sé Metropolitana de Maceió;
·         Reverendíssimos sacerdotes;
·         Caríssimos diáconos, seminaristas, religiosos e religiosas;
·         Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo Jesus Nosso Senhor;

MARIA É A IMACULADA CONCEIÇÃO, AQUELA QUE CHEIA DE GRAÇA DE DEUS, INCONDICIONALMENTE DÓCIL À PALAVRA DIVINA. A SUA FÉ OBEDIENTE EM FACE DA INICIATIVA DE DEUS, PLASMA CADA INSTANTE DE SUA VIDA. VIRGEM DA ESCUTA VIVE EM PLENA SINTONIA COM A PALAVRA DIVINA; CONSERVA NO SEU CORAÇÃO OS ACONTECIMENTOS DO SEU FILHO, COMPONDO-OS, POR ASSIM DIZER, NUM ÚNICO MOSAICO
 
Ao meditarmos a passagem de São Lucas que nos trata da Encarnação do Verbo feito carne para a nossa Salvação, Jesus Cristo Senhor Nosso, somos interpelados por muitas lacunas produzidas pelo mistério da direta intervenção divina na história humana, dentre estas impressiona-nos o silêncio de Maria. E é justamente sobre este aspecto da Virgem que queremos refletir nesta noite de novena.

Maria, a serva predestinada do coração do Pai para gerar o Filho sob o poder do Espírito Santo, é cumulada de graça desde a sua concepção. Sem mácula original, conserva intacta a sua índole dada pelo próprio Deus no seu desígnio de amor.  Como Imaculada Conceição, mesmo inconsciente como quando da sua puerilidade, quando nunca imaginara ser a escolhida desde a eternidade para Mãe do Verbo (como afirmamos piamente no Ofício da Imaculada Conceição), ela foi a Maria da Escuta, do Silêncio.

O silêncio de Maria nunca pode ser visto como mero gesto de passividade, de distração. Mas, em todos os momentos da sua vida, o constante silenciar de Maria foi galgando dimensões virtuosas. Imaginemos  Maria Imaculada em sua infância. Imaginemos com que atenção, veneração e silêncio, Nossa Senhora Menina ia aprendendo as Escritura seja de seu idoso pai São Joaquim seja de sua mãe outrora estéril Sant’Ana. Pensemos com que dedicação buscava a Menina Imaculada buscava aprender acerca das coisas do Senhor Deus. Reflitamos com que admiração a criança, filha única daquele ditoso casal, escutava de seus pais as maravilhas realizadas pelo Senhor na vida deles quando do nascimento daquela que seria mais tarde a “Aurora do Sol da Justiça”.

Ponderemos a infinidade de vezes que a Virgem Maria refletiu a grande profissão de fé do Povo de Israel, o Shemá: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e os levarás como uma faixa frontal diante dos teus olhos. Tu os escreverás nos umbrais e nas portas de tua casa” (Dt 6, 4-6. 8-9). E, seguindo a didática dos seus ancestrais, de tanto ruminar a Palavra de Deus, acabava decorando os textos sagrados. Digo decorando relacionando este verbete à ideia mais pura do termo: “trazer no coração”, sede da afetividade, da inteligência, dos sentimentos.

Como a jovem Maria encontrava seus deleites na Sagrada Escritura. Refletia-as dia e noite, incansavelmente. Imaginemos o interesse das jovens daquela época em contraste com o de Maria... quão sublime eram os gostos da filha de Ana e Joaquim, muito embora a vida desta moça fosse inteiramente normal. Maria que tinha seus sonhos, projetos; Maria que tudo fazia tendo os olhos na vontade de seu Deus: “fazer vossa vontade, meu Deus, é o que me agrada, porque vossa lei está no íntimo de meu coração” (Sl 39,9). Foi com esta forma, a de ver as coisas sobre o prisma da fé, que a Virgem nazarena cunhou a sua vida desde a mais tenra idade.

Contemplamos Maria encerrada em sua casa, em seu quarto, mergulhada em oração. Com que espanto o “Rebento do Tronco de Jessé” não foi acometida com a aparição do Anjo proclamando com as palavras do próprio Deus, que ela tanto meditava, mas diante de quem nunca imaginara possuir uma notoriedade tão imensa: “Ave Maria, plena de graça!” A palavra grega Káire se traduz por Ave, saudação latina dada geralmente aos imperadores e grandes do Império Romano. É a única vez que na Sagrada Escritura alguém é saudado de maneira tão nobre, ainda que seja uma saudação angélica e divina. Esta saudação era inédita para a “Jovem Filha de Sião”, ela o sabia. Segundo Santo Ambrósio: “Admirava também a nova fórmula de saudação, que nunca se tinha ouvido até então, pois estava reservada somente para a Maria”. Por isso São Lucas não se comede e narra a atitude da Virgem: “Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação” (Lc 1, 29). E ainda o Santo Bispo de Milão, Ambrósio, continua: “Conhecei a Virgem pelo acanhamento, porque se turbou, pois segue: ‘E quando esta o viu, se turbou’. Perturbar é próprio das virgens, e o sobressaltar-se quando se aproxima um homem e temer todo trato dos homens. Aprendei, virgens, a evitar toda a licença de palavras. Maria se perturbava até da saudação do anjo”.

Com máxima certeza, Maria esperava o Messias. Esperava-o não como mãe, pois tal pensamento nunca tinha invadido o seu coração. Esperava-o, sim, como uma crente na Palavra de Deus, porque também ela ansiava a libertação de Israel trazida pelo Salvador. Nunca imaginaria que de seu seio viria o Filho do Homem; que em sua pequenez, Deus se fizesse carne em seu ventre. E se não esperava a maternidade divina, com certeza também não aguardava uma predicativo de magnitude tão alta: “cheia de graça”. Neste ponto, São Jerônimo nos alude: “E na verdade que é cheia de graça, porque aos demais se distribui com medida, no entanto em Maria se derramou ao mesmo tempo toda a plenitude da graça. Verdadeiramente é plena de graça aquela pela qual toda criatura foi inundada com a chuva abundante do Espírito Santo. Já estava com a Virgem quem lhe enviava seu anjo e o Senhor se antecipou ao seu enviado. Não pode ser encerrado em um lugar Aquele que está em todas as partes; de onde segue “O Senhor é contigo”.

Maria é a mulher do silêncio quando da sua visita a Isabel. Pressurosamente, a Virgem, logo após o anúncio de sua divina gestação, ruma para a região montanhosa da Judeia, para a casa de sua prima que, logo após ouvir a sua saudação, começa a louvar o que Deus fez na vida e no seio daquela Virgem; obra que não apenas influiria na intimidade de Maria, mas mudaria para sempre as sendas da história e a vida da humanidade. Vemos outra atitude produzida pelo silêncio de Maria com a entoação do Magnificat. Sim, esta foi uma ação fruto do silêncio, pois silencioso é o que não joga palavras ao léu, mas as utiliza para a comunicação de coisas honrosas e santificantes, como o louvor do Senhor. O Cântico de Maria é ainda fruto do silêncio porque foi graças esta bendita prática que ela refletia profundamente em seu coração as Escrituras e analisava sabiamente como vivenciá-las. Observemos que os atributos positivos do Cântico estão intimamente relacionados com a vida de quem tem uma profunda intimidade com Deus (cf. Lc 1, 46-55).

Um dos momentos em que Maria mais praticou este silêncio foi quando de sua maternidade divina. Desde a caminhada de Nazaré para Belém; da lotação das hospedagens; do nascimento da criança entre os animais em um estábulo; das misteriosas visitas dos pastores, magos... São Lucas não se detém e afirma: “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (2,19). Ao referir-se ao silêncio orante da Virgem parturiente, São Beda, o Venerável, afirma: “Guardando, pois, as leis do decoro virginal, não queria dizer por nada os mistérios de Cristo que conhecia, no entanto comparava ao que ela havia lido que devia suceder com o que via que vinha sucedendo, não explicando-o com palavras, e sim conservando-o em seu coração” (In homilia in Nativitate Domini).

O mistério silencioso e orante da vida de Maria em consonância com seu Deus não para aqui. Dando continuidade a sua vida unida intimamente (corpo e alma) ao Deus a quem gerou, a Virgem nada entende quando da profecia de Simeão: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 34-35), mas juntamente com José “estavam admirados das coisas que dele se diziam” (Lc 2, 33). Fato similar aconteceu quando da perseguição de Herodes e fuga para o Egito, ela silencia e crê, fazendo de sua vida uma oblação, uma oração.

O que poderíamos dizer da perda e encontro de Jesus no Templo de Jerusalém, passagem que todos nós conhecemos? Ao questionar Jesus Adolescente: “Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição” (Lc 2, 48), bem como ao receber a resposta do Verbo: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2, 49). Lucas transcreve o sentimento que se passava no coração de Nossa Senhora e de São José: “Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2, 50-51). Interessante notarmos que esta última frase se repete no mesmo capítulo por duas vezes: “Maria guardava todas estas coisas no seu coração”, ainda que não as compreendesse, mas ela as acolhia. Sabia que a Palavra de Deus estava acontecendo ali, ela era uma personagem da história sagrada, não como protagonista. Não! Mas como Serva, Mãe. Interessante: que “confusão” não se passava na cabeça da Virgem: o próprio Deus Infante, único com o Pai, lhe é submisso e obediente. Justamente a ela que tinha o seu coração na Lei e na Palavra do seu Senhor!

O mosaico do silêncio de Maria permanece, passando pela vida pública de seu adorável Jesus, encontrando o seu cume no caminho para o vértice do Calvário. Segundo as fontes extra-escriturísticas do cânon bíblico, Maria encontra-se com Jesus ensanguentado, extenuado de dores no caminho para o Gólgota. A partir daqui, a Virgem forte e silenciosa entende o que Simeão manifesta-lhe a respeito da espada de dor que lhe encravaria o coração, o mesmo de cujas lembranças servia como espécie de receptáculo de fatos que explanavam que a Palavra de Deus estava se cumprindo em sua existência de Mulher, Virgem e Mãe. A Virgem das Dores é a Virgem do Silêncio. Quando Deus silencia, Maria espera. Quando Deus silencia, Maria confia, ainda que com o peito retalhado de dor. O silêncio de Maria, a sua atitude magnânima de permanecer de pé aos pés da cruz, ilustra-nos o que vos digo. Imaginemos o choro silencioso de Nossa Senhora quando Jesus lhe volve o olhar e diz: “Eis o teu filho!” (Jo 19, 26).

O silêncio produtivo de Maria, a Virgem da Piedade. O silêncio reverente da Mãe-Serva que deposita um Filho-Senhor em um sepulcro e o arranja com bálsamos, sudário e todo apetrecho fúnebre. O silêncio meditativo de Maria da Soledade, no sábado santo, Shabat Pascal para os judeus. Enquanto os judeus festejavam, Maria não se lamentava, mas guardava tudo em seu coração de Mulher, de Discípula, de Fiel, de Mãe.

Não! Tudo não está acabado, resta a esperança da Discípula Fiel, de uma Mãe que primeiro acreditou. No seu silêncio, ela tem diante de si as inúmeras vezes que Ele disse: “E o entregarão aos pagãos para ser exposto às suas zombarias, açoitado e crucificado; mas ao terceiro dia ressuscitará” (Mt 20,19). E assim aconteceu! O silêncio pascal de Maria é sinônimo de júbilo. É justamente este gáudio que cantamos na Páscoa quando entoamos o Regina Caeli.

O silêncio de Maria está retratado também na Igreja nascente, cuja imagem São Lucas, o cantor da Virgem, traz nos Atos dos Apóstolos. Ela está lá junto à Igreja, numa atitude de escuta, humildade e reverência.

“Ele olhou para a humildade de sua serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo” (Lc 1, 48-49). A atitude silenciosa de Maria é recompensada. A Virgem Mãe do Salvador e da Igreja é assunta e glorificada no céu. No dizer de São João Damasceno: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura como mãe e serva de Deus”. O mesmo silenciar que durante toda a sua existência terrena foi uma constante, agora na Glória pode ser contemplada. Porém, nem mesmo assim, o silêncio de Nossa Senhora é estéril: na Glória Celeste, a Virgem dos Prazeres, silenciosa e discretamente, tal como o fez nas Bodas de Caná (Jo 2, 1-12), nos acompanha com a sua intercessão e proteção.

Este é o rico mosaico de Maria, cujas pedras, como que um adorável quebra-cabeças de luz e inigualável beleza, nos atrai. Pedras de fé, esperança e amor se coadunam numa atitude de uma Mulher, como muitas de vocês aqui; de uma pessoa que tinha o seu coração na Lei do Senhor, como nós discípulos também o temos. Que os exemplos de silêncio, reverência e virtudes ímpares da Gloriosa Virgem, a Senhora dos Prazeres, nos encham e nos façam alcançar, como ela, a Bem-Aventurança eterna.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!    
  



sábado, 20 de agosto de 2011

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

(Ano A – Liturgia do Dia – 21 de agosto de 2011)





I Leitura: Ap 11, 19a, 12, 1.3-6a.10ab
Salmo Responsorial: Sl 44 (45), 10bc. 11 e 12ab e 16 (R/. 10 b)
II Leitura: 1Cor 15, 20-27
Evangelho: Lc 1, 39-56 (Cântico de Maria)


Queridos irmãos,


Hoje, a Virgem Maria foi elevada ao Céu em corpo e alma! A morte não poderia corromper o corpo Daquela que nunca foi corrompida pelo pecado. O sono da morte não poderia abater Aquela que trouxe o Sol Brilhante da Justiça, Jesus Cristo Senhor Nosso, cujos raios despertam a humanidade do torpor dos vícios e da miséria de sua condição. Hoje, a Virgem Maria rumou para a Pátria dos Eleitos, a fim de ocupar o Seu lugar honroso na Corte Celestial, junto do Seu Filho Bem-Amado; Aquela que trouxe no seio virginal O que veio do Céu é, hoje, conduzida pelos anjos ao mesmo Céu, para ser acolhida por quem antes acolhera.

Em todos os anos, quando no Hemisfério Norte do Planeta é verão, justamente no cerne desta estação, toda a Igreja celebra com fé a mais anosa de todas as festas marianas: a Solenidade da Assunção da Beatíssima Virgem Maria. Esta festividade é um convite magnânimo para, com Maria, elevarmo-nos para o céu, para “onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica, a da santidade” (Bento XVI, Homilia de 15 de agosto de 2008). Se a cada momento somos invitados a elevar os nossos corações, tendo como expectativa as realidades celestes, hoje, ao contemplarmos a Virgem Maria sendo conduzida às alturas Celestes, nossa esperança multiplica-se infindamente, pois vemos cumprir-se o que o Apóstolo dos Gentios nos alenta na Segunda Leitura desta celebração: “Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (1Cor 15, 22-23). Portanto, nossa esperança multiplica-se porque tendo a absoluta certeza que Jesus, as primícias da nossa ressurreição e imortalidade, nos abriu o véu da sua glória, a nós que acreditamos (“por ocasião da sua vinda”), ao mesmo tempo contemplamos muitos que, tal como nós, creram no Cristo e, por isso, já participam dos júbilos do Prêmio eterno. Desta forma, ao celebrarmos a glorificação de Maria, festejamos a mesma glória de Cristo que comungaremos junto com Ela. A Virgem nos antecede nos céus! A glória que ela possui, graças aos méritos de seu Filho, a teremos também, pelo mesmo merecimento.
Na Primeira Leitura, escutamos a narração da visão apocalíptica de São João acerca da abertura do “Templo de Deus que está no céu”, e, a partir do Templo, aparece a arca da Aliança. Ora, qual a importância da arca na religião judaica e, consequentemente, no Antigo Testamento? Este objeto era uma espécie de relicário para os blocos pétreos em que estavam grafadas o Decálogo e que foram entregues a Moisés. Estas tábuas foram, segundo os livros do Êxodo e do Deuteronômio, escritas pelo “dedo de Deus” (cf. Ex 31, 18; Dt 9, 10). Elas se tornaram, dentro da tradição do judaísmo, símbolo da Aliança entre Deus e o povo de Israel.

Na perícope do Apocalipse apresentada hoje, logo após o anúncio da aparição da Arca, vemos a narração do Apóstolo João: “Então apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1-2). E continua: “Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo” (v. 3). Percebamos as nuances do texto: na segunda parte, vemos João que diz que apareceu um sinal; enquanto que, na primeira, ele manifesta aos seus ouvintes que o sinal era “grande”. Se o Templo de Deus se abriu, logo, entendemos automaticamente que ele estava lacrado; abrindo-se o Templo surge a arca da Aliança; e, após este relato, o estupendo sinal. Podemos traduzir esta visão do Apóstolo como: O Céu, Morada de Deus se abre, e aparece a Arca da Aliança. Esta é sinônima da presença de Deus, não em si mesma, mas porque porta a escrita de Deus. O Céu se abre e Deus vem habitar em Maria, a Arca, a qual, em si, não possui grande relevância, mas sua grandeza reside no fato de portar em seu bojo o próprio Deus. É por este motivo que, na Litania de Nossa Senhora, carinhosamente, a titulamos de “Foederis Arca” – Arca da Aliança. A continuidade do texto, ao apresentar o grande sinal, faz com que tenhamos igual certeza.

Qual é o sinal grandioso? Em um primário relance, o leitor tem a impressão de que, em si mesma, a mulher é o grande sinal. Não! A Mulher apocalíptica em si, não possui esta magnificência, mas é o que ela porta que a faz exacerbadamente nobre, muito embora devamos ter em mente as especialidades que ela possui já que nos planos de Deus ela foi eternamente agraciada, pois, como explicita o Catecismo da Igreja Católica: “Convinha que fosse ‘cheia de graça’ a mãe daquele em quem ‘habita corporalmente a Plenitude da Divindade’ (Cl 2, 9). Por pura graça, ela foi concebida sem pecado como a mais humilde das criaturas, a mais capaz de acolher o Dom inefável do Todo-Poderoso” (CIC 722). Tal como a Arca do Antigo Testamento não poderia ter sido feita de um material qualquer (cf. Ex 25, 10-22), a Arca da Sublime, Nova e Eterna Aliança não poderia ser de qualquer sorte. A sua elegância e imponência (vestida de sol, lua debaixo dos pés, coroa com doze estrelas) não é em vista de seus méritos, mas nela resplandece a dignidade de um invólucro que guarda uma preciosidade. Se entendermos a Mulher do Apocalipse como a Virgem Maria, “Typus da Igreja” (como afirma Santo Agostinho), teremos diante dos olhos a majestade da virgindade plena da Imaculada Senhora. Tendo-a como esta imagem apocalíptica, devemos ter consciência de que os ornatos vistos por João são figuras de sua inteira virgindade e pureza. Maria foi a digníssima Arca da Aliança irrevogável, Nova e Eterna, Jesus Cristo. Este Verdadeiro Deus e Verdadeiro homem é o Verbo, a Palavra de Deus; é Deus!

Os ornatos da Mulher muito dizem acerca da sua vivência. Ao estar vestida de sol, a mulher está envolvida por uma luz que a abraça inteiramente. O que seria esta luz esplendorosa senão o próprio Deus que abrange Maria com a sua graça, tornando-a “Plena de Graça” (Lc 1, 28), este mesmo Senhor que a cobre com a sua sombra (cf. Lc 1, 35), e, neste paradoxo de sombra e luz faz germinar em terra “fértil e virginal” Aquele que é a Luz do Mundo, Sombra para os que estão exauridos pelo ardor das luzes ofuscantes e alucinantes do mundo e do pecado (cf. Mt 11, 28)? Fértil porque deu o melhor dos frutos nunca antes visto; virginal porque nunca germinou nada além de seu adorável fruto, Jesus (cf. Lc 1, 42), tal como São Lucas nos apresenta. O que designa a lua pisoteada pela mulher senão o poder do maligno sendo calcado pela Virgem (cf. Gn 3, 15)? A lua, na religiosidade do paganismo animista, era tida como divindade. Maria, Mãe do Verdadeiro Deus, vem esmagar tudo aquilo que, sendo ídolos (deuses falsos), quer roubar o coração dos homens do Único e Verdadeiro Senhor por quem se vive, como afirmou a Virgem em sua aparição ao índio Juan Diego. A Mulher é também coroada com doze estralas porque Aquele a quem ela carrega no ventre reunirá em torno de si as Doze Tribos de Israel, designando que “veio para governar todas as nações com cetro de ferro” (Ap 12, 5). As doze estrelas que coroam a cabeça da Mulher representam-nos também todas as virtudes com as quais Maria foi coroada (Doze é o número da totalidade). É por este motivo que São João Maria Vianney fala: “A Santa Virgem sem mancha, é ornamentada com todas as virtudes que a tornam bela e agradável à Santíssima Trindade. A santa Virgem é a bela criatura que nunca desiludiu o bom Deus” (NODET B., O pensamento e a alma do Cura d'Ars, Turim 1967, p. 303). Por isto, a Igreja nunca cansa de repetir para a Virgem Maria “Tota pulchra es, Maria!” Maria é a estrela matutina que nos orienta para o seu Filho, Sol da Salvação. Em Maria, Deus fez resplandecer para o seu povo peregrino nesta terra um sinal de consolação e de esperança segura.



A Virgem Maria é o protótipo da Igreja! O que aconteceu com a Mãe de Cristo irá acontecer com a Divinal Esposa do Senhor. Sem prejuízo, a imagem da Mulher do apocalipse se associa também a esta. A “Mãe Católica” é a Arca da Aliança porque porta em sua essência o Novo e Eterno Testamento selado com o Sangue preciosíssimo de seu Senhor e Salvador. Ela é sinal magnânimo, portanto, sacramento que provém do Céu graças Àquele que a instituiu. Reveste-se Daquele a quem fielmente anuncia (vestida de sol). A amplitude de sua beleza e dignidade abrange até os povos dos extremos do mundo (coroa de doze estrelas). Ainda relacionada à sua coroa de doze estrelas, naturalmente, ela localiza-se na cabeça da Mulher, da Igreja. E quem é a cabeça da Igreja senão o próprio Jesus? Cristo-Cabeça atrai para o seu Corpo Místico gente de todos os povos e nações.  Por ser do seu Amado indivisivelmente, esmaga o mal e toda potência maligna (lua debaixo dos pés). Esta distinta Dama está prenhe Daquele que governa todos os povos com um cetro férreo, ou seja, com um poder indissolúvel. A Mulher-Igreja está pronta para dar à luz Àquele a quem ansiosa e alegremente espera. Porém, este parto será precedido e sequenciado por inúmeras investidas do que é Derrotado para sempre, o qual pretende, a todo custo, devorar o Seu Filho que é vitorioso eternamente.

Após dar à luz, a Mulher foi enviada para o deserto. Logo, entendemos que a Igreja possui um duplo aspecto: ao mesmo tempo em que é triunfante, por estar no Céu, ela é militante, por estar no mundo. Lá e aqui são lugares de uma mesma realidade divinamente instituída, a Igreja. Nela, observamos a concretude da salvação, da força e da realeza de Deus. E qual é a relação entre Maria e a Igreja? A Lumen Gentium nos revela: “Assim como no céu, onde já está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a Igreja em sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta terra, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal de esperança segura e consolação para o Povo de Deus em peregrinação” (LG 68) 

No Evangelho de hoje, passagem da visita de Maria a Isabel, chama-nos à atenção o trecho em que Isabel brada, estupefata: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Com esta afirmativa, percebemos que Isabel, movida pelo Espírito, torna-se uma profetiza. Ela fala a respeito do futuro glorioso da Virgem: o de trazer ao mundo o Filho de Deus; o da sua assunção e glorificação em corpo e alma no Céu. Maria é feliz pela fé! Maria é assunta graças à sua fé no Filho! Mas por que desta felicidade, deste mérito de ser elevada ao céu de corpo e alma? Apenas por ter sido escolhida para a Mãe do Salvador? Não! Mas, principalmente porque, como ninguém, acreditou no Senhor e em suas promessas. Esta verdade não é somente realçada nesta frase de Isabel, como o próprio Cristo também a diz: “Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 27). Se por Abraão foi iniciada a obra de salvação; pela fé da Santíssima Virgem Maria, elevada hoje aos céus, temos o seu definitivo cumprimento: a vinda de Jesus Nosso Senhor, e, com Ele a nossa garantia de imortalidade.

Maria é bem-aventurada porque creu. Inseriu perfeitamente em sua vida a fé que possuía. Parafraseando o Bispo de Hipona, Maria, antes de O conceber em seu ventre virginal, Ela já O tinha concebido em seu virginal coração. E, como prêmio, recebeu a “coroa imarcescível da Glória”. Tendo-a como modelo de fé, creiamos! E, porque cremos, o Justo Juiz também nos concederá a coroa da imortalidade, a habitação da Pátria Celeste, “Jerusalém do Alto”, a qual já a experimentamos desde agora na Igreja peregrina e triunfante, nossa Mãe! Assim como o Cristo ergueu Maria do sepulcro e tomou-a para si, nós seremos igualmente erguidos e elevados para o festim do Noivo! Enquanto este dia não nos vem, elevemos continuamente o nosso crédulo coração a Deus; Ele o acolherá. Não porque merecemos, mas pela virtude do seu amor que é eterno. E quando nos vir tão majestoso dia, poderemos ter a certeza de que estaremos, tal como a Senhora do Céu, reinando com Cristo nos séculos sem fim, resplandecentes de glória e beleza.

Com Maria, deixemo-nos ser elevados! Por hora, de coração; um dia, de fato. Elevemo-nos! Elevemo-nos e contemplaremos Deus; a glória que Ele, em sua infinda bondade, nos reservou. Glória que nos faz reinar com Ele! Glória da imortalidade!     

          

O QUE NOS DISSE O PAPA



Na Santa Missa de hoje (sábado, 20 de agosto de 2011), na Catedral de Madri, o Santo Padre, Bento XVI falou aos seminaristas. Não somente aos que estavam presentes naquele templo, mas aos de todo o mundo.


Amavelmente, nos disse o "Doce Cristo na Terra":




Sinto uma profunda alegria ao celebrar a Santa Missa para todos vós, que aspirais a ser sacerdotes de Cristo para o serviço da Igreja e dos homens, e agradeço as amáveis palavras de saudação com que me acolhestes. Hoje esta Catedral de Santa Maria a Real da Almudena lembra um imenso cenáculo onde o Senhor desejou ardentemente celebrar a Sua Páscoa com todos vós que um dia desejais presidir em seu nome os mistérios da salvação. Vendo-vos, comprovo de novo como Cristo continua chamando jovens discípulos para fazer deles seus apóstolos, permanecendo assim viva a missão da Igreja e a oferta do evangelho ao mundo. Como seminaristas, estais a caminho para uma meta santa: ser continuadores da missão que Cristo recebeu do Pai. Chamados por Ele, seguistes a sua voz; e, atraídos pelo seu olhar amoroso, avançais para o ministério sagrado. Ponde os vossos olhos n’Ele, que, pela sua encarnação, é o revelador supremo de Deus ao mundo e, pela sua ressurreição, é a fiel realização da sua promessa. Dai-Lhe graças por este sinal de predileção que reserva para cada um de vós.

A primeira leitura que escutamos mostra-nos Cristo como o novo e definitivo sacerdote, que fez uma oferta total da sua existência. A antífona do salmo aplica-se perfeitamente a Ele, quando, ao entrar no mundo, Se dirigiu a seu Pai dizendo: "Eis-me aqui para fazer a tua vontade" (cf. Sl 39, 8-9). Procurava agradar-Lhe em tudo: ao falar e ao agir, percorrendo os caminhos ou acolhendo os pecadores. A sua vida foi um serviço, e a sua dedicação abnegada uma intercessão perene, colocando-Se em nome de todos diante do Pai com Primogênito de muitos irmãos. O autor da Carta aos Hebreus afirma que, através desta entrega, nos tornou perfeitos para sempre, a nós que estávamos chamados a participar da sua filiação (cf. He 10, 14).

A Eucaristia, de cuja instituição nos fala o evangelho proclamado (cf. Lc 22, 14-20), é a expressão real dessa entrega incondicional de Jesus por todos, incluindo aqueles que O entregavam: entrega do seu corpo e sangue para a vida dos homens e para a remissão dos pecados. O sangue, sinal da vida, foi-nos dado por Deus como aliança, a fim de podermos inserir a força da sua vida onde reina a morte por causa do nosso pecado, e assim destruí-lo. O corpo rasgado e o sangue derramado de Cristo, isto é, a sua liberdade sacrificada, converteram-se, através dos sinais eucarísticos, na nova fonte da liberdade redimida dos homens. N’Ele temos a promessa duma redenção definitiva e a esperança segura dos bens futuros. Por Cristo, sabemos que não estamos caminhando para o abismo, para o silêncio do nada ou da morte, mas seguindo para a terra prometida, para Ele que é nossa meta e também nosso princípio.

Queridos amigos, vos preparais para ser apóstolos com Cristo e como Cristo, para ser companheiros de viagem e servidores dos homens.



Como haveis de viver estes anos de preparação? Em primeiro lugar, devem ser anos de silêncio interior, de oração permanente, de estudo constante e de progressiva inserção nas atividades e estruturas pastorais da Igreja. Igreja, que é comunidade e instituição, família e missão, criação de Cristo pelo seu Espírito Santo e simultaneamente resultado de quanto a configuramos com a nossa santidade e com os nossos pecados. Assim o quis Deus, que não se incomoda de tomar pobres e pecadores para fazer deles seus amigos e instrumentos para redenção do gênero humano. A santidade da Igreja é, antes de mais nada, a santidade objetiva da própria pessoa de Cristo, do seu evangelho e dos seus sacramentos, a santidade daquela força do alto que a anima e impele. Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar.


Meditai bem este mistério da Igreja, vivendo os anos da vossa formação com profunda alegria, em atitude de docilidade, de lucidez e de radical fidelidade evangélica, bem como numa amorosa relação com o tempo e as pessoas no meio de quem viveis. É que ninguém escolhe o contexto nem os destinatários da sua missão. Cada época tem os seus problemas, mas Deus dá em cada tempo a graça oportuna para os assumir e superar com amor e realismo. Por isso, em toda e qualquer circunstância em que se encontre e por mais dura que esta seja, o sacerdote tem de frutificar em toda a espécie de boas obras, conservando sempre vivas no seu íntimo aquelas palavras do dia da sua Ordenação com que se lhe exortava a configurar a sua vida com o mistério da cruz do Senhor.



Configurar-se com Cristo comporta, queridos seminaristas, identificar-se sempre mais com Aquele que por nós Se fez servo, sacerdote e vítima. Na realidade, configurar-se com Ele é a tarefa em que o sacerdote há-de gastar toda a sua vida. Já sabemos que nos ultrapassa e não a conseguiremos cumprir plenamente, mas, como diz São Paulo, corremos para a meta esperando alcançá-la (cf. Fl 3, 12-14).

Mas Cristo, Sumo Sacerdote, é igualmente o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas até ao ponto de dar a vida por elas (cf. Jo 10, 11). Para imitar nisto também o Senhor, o vosso corações tem de ir amadurecendo no Seminário, colocando-se totalmente à disposição do Mestre. Dom do Espírito Santo, esta disponibilidade é que inspira a decisão de viver o celibato pelo Reino dos céus, o desprendimento dos bens da terra, a austeridade de vida e a obediência sincera e sem dissimulação.

Pedi-Lhe, pois, que vos conceda imitá-Lo na sua caridade até ao fim para com todos, sem excluir os afastados e pecadores, de tal forma que, com a vossa ajuda, se convertam e voltem ao bom caminho. Pedi-Lhe que vos ensine a aproximar-vos dos enfermos e dos pobres, com simplicidade e generosidade. Afrontai este desafio sem complexos nem mediocridade, mas antes como uma forma estupenda de realizar a vida humana na gratuidade e no serviço, sendo testemunhas de Deus feito homem, mensageiros da dignidade altíssima da pessoa humana e, consequentemente, seus defensores incondicionais. Apoiados no seu amor, não vos deixeis amedrontar por um ambiente onde se pretende excluir Deus e no qual os principais critérios por que se rege a existência são, frequentemente, o poder, o ter ou o prazer. Pode acontecer que vos desprezem, como se costuma fazer com quem aponta metas mais altas ou desmascara os ídolos diante dos quais muito se prostram hoje. Será então que uma vida profundamente radicada em Cristo se revele realmente como uma novidade, atraindo com vigor a quantos verdadeiramente procuram Deus, a verdade e a justiça.



Animados pelos vossos formadores, abri a vossa alma à luz do Senhor para ver se este caminho, que requer coragem e autenticidade, é o vosso, avançando para o sacerdócio só se estiverdes firmemente persuadidos de que Deus vos chama para ser seus ministros e plenamente decididos a exercê-lo obedecendo às disposições da Igreja.
Com esta confiança, aprendei d’Aquele que Se definiu a Si mesmo como manso e humilde de coração, despojando-vos para isso de todo o desejo mundano, de modo que não busqueis o vosso próprio interesse, mas edifiqueis, com a vossa conduta, aos vossos irmãos, como fez o santo padroeiro do clero secular espanhol São João de Ávila. Animados pelo seu exemplo, olhai sobretudo para a Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes. Ela saberá forjar a vossa alma segundo o modelo de Cristo, seu divino Filho, e vos ensinará incessantemente a guardar os bens que Ele adquiriu no Calvário para a salvação do mundo. Amém.