quarta-feira, 27 de março de 2013

DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR


(31 de março de 2013)



Por Dom Javier Echevarría
Bispo Prelado do Opus Dei



I Leitura: At 10,34a.37-43
Salmo Responsorial: Sl 117(118),1-2.16ab-17.22-23 (R/.24)
II Leitura: Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,6b-8
Evangelho: Jo 20,1-9 ou nas Missas verspertinas: Lc 24,13-35


Queridos irmãos,


Passado o Sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para irem embalsamar Jesus. Partindo no primeiro dia da semana, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro quando o sol já era nascido. Assim começa São Marcos a narração do sucedido naquela madrugada de há dois mil anos, na primeira Páscoa cristã.


Jesus tinha sido sepultado. Aos olhos dos homens, a Sua vida e a Sua mensagem tinham terminado com o mais rotundo fracasso. Os Seus discípulos, confusos e atemorizados, tinham-se dispersado. As próprias mulheres que vão fazer um gesto piedoso, perguntam umas às outras: quem nos tirará a pedra da entrada do sepulcro? "No entanto, faz notar São Josemaria, continuam... Tu e eu, como andamos de vacilações? Temos esta decisão santa, ou temos de confessar que sentimos vergonha ao contemplar a decisão, a intrepidez, a audácia destas mulheres?".


Cumprir a Vontade de Deus, ser fiéis à lei de Cristo, viver coerentemente a nossa fé, pode parecer às vezes muito difícil. Apresentam-se obstáculos que parecem insuperáveis. No entanto, não é assim. Deus vence sempre.


A epopeia de Jesus de Nazaré não termina com a Sua morte ignominiosa na Cruz. A última palavra é a da Ressurreição gloriosa. E os cristãos, no Batismo, morremos e ressuscitamos com Cristo; mortos para o pecado e vivos para Deus. “Oh Cristo! — dizemos com o Santo Padre João Paulo II — como não Lhe agradecer pelo dom inefável que nos ofereces esta noite! O mistério da Tua Morte e Ressurreição infunde-se na água batismal que acolhe o homem velho e carnal e o torna puro com a própria juventude divina” (Homilia, 15 de abril de2001).


Hoje a Igreja, cheia de alegria, exclama: este é o dia que o Senhor fez: alegremo-nos e rejubilemos! Grito de júbilo que se prolongará durante cinquenta dias, ao longo do tempo pascal, como um eco das palavras de São Paulo: posto que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo sentado à direita de Deus. Ponde todo o coração nos bens do céu, não nos da terra; porque morreram e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.


É lógico pensar — e assim o considera a Tradição da Igreja — que Jesus Cristo, uma vez ressuscitado, apareceu em primeiro lugar à Sua Santíssima Mãe. O fato de que não apareça nos relatos evangélicos, com as outras mulheres, é — como assinala João Paulo II — um indício de que Nossa Senhora já se tinha encontrado com Jesus. “Esta dedução ficaria confirmada também — acrescenta o Papa — pelo dado de que as primeiras testemunhas da ressurreição, por vontade de Jesus, foram as mulheres, as que permaneceram fiéis ao pé da Cruz e, portanto, mais firmes na fé” (Audiência, 21 de maio de 1997). Só Maria tinha conservado plenamente a fé, durante as horas amargas da Paixão; por isso é natural que o Senhor Lhe aparecesse em primeiro lugar.


Temos que permanecer sempre junto da Virgem, mas mais ainda no tempo de Páscoa, e aprender d’Ela. Com que ânsias tinha esperado a Ressurreição! Sabia que Jesus tinha vindo salvar o mundo e que, portanto, devia padecer e morrer; mas sabia também que não podia ficar sujeito à morte, porque Ele é a Vida.


Uma boa forma de viver a Páscoa consiste em esforçarmo-nos por fazer os outros participantes da vida de Cristo, cumprindo com primor o mandamento novo da caridade, que o Senhor nos deu na véspera da Sua Paixão: nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. Cristo ressuscitado repete-no-lo agora a cada um. Diz-nos: amai-vos de verdade uns aos outros, esforçai-vos todos os dias por servir os outros, estai pendentes dos mais pequenos pormenores, para fazer a vida agradável aos que convivem convosco.


Mas voltemos ao encontro de Jesus com a Sua Santíssima Mãe. Que contente estaria a Virgem, ao contemplar aquela Humanidade Santíssima — carne da Sua carne e vida da Sua vida — plenamente glorificada! Peçamos-Lhe que nos ensine a sacrificarmo-nos pelos outros sem o fazermos notar, sem esperar sequer que nos agradeçam; que tenhamos fome de passar inadvertidos, para assim possuir a vida de Deus e comunicá-la a outros. Hoje dirigimos-Lhe o Regina Caeli, saudação própria do tempo pascal. Rainha do céu alegrai-vos, aleluia. / Porque Aquele que mereceste trazer em vosso ventre, aleluia. / Ressuscitou como disse, aleluia. / Rogai por nós a Deus, aleluia. / Alegrai-vos e exultai, ó Virgem Maria, aleluia. / Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia.

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR


(29 de março de 2013)


I Leitura: Is 52, 13-53,12
Salmo Responsorial: Sl 30, 2.6;12-13;15-16;17.25
II Leitura: Hb 4, 14-16; 5,7-9
Evangelho: Jo 18, 1-19,42


“Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 53, 5).

Com este sentimento trazido pelo profeta Isaías no cântico do Servo Sofredor, é que relembramos e revivemos este dia em que Jesus nos salva, dando-nos uma nova vida, abrindo para nós os portais do seu Reino. É pelo Cordeiro estirado na Ara do madeiro da Cruz, sacrifício perfeito, que o Senhor nos oferece o penhor da nossa salvação. Os sacrifícios judeus, até então oferecidos como recordação de uma aliança já defasada e figurativa, perde o seu ínfimo valor. Eis que o Cristo, Filho de Deus, se oferece: ele é o sacrifício por excelência. O Seu sangue substitui de maneira plena e eficaz o que antes era representado pela sangria de animais. O que não tinha pecado, assim o fez por nós, entregando-se a morte, sendo-nos infindavelmente propício e benevolente.
Eis que estamos diante do escandaloso e sublime mistério da cruz. Desfigurado, ensanguentado, posteriormente inanimado, vendo o Senhor, calamo-nos, extasiados, emocionados. São Josemaría Escrivá, em uma de suas homilias, afirma: “Convém que meditemos naquilo que nos revela a morte de Cristo, sem ficarmos nas formas estereotipadas. É necessário que nos metamos de verdade nas cenas que vivemos durante estes dias da Semana Santa: a dor de Jesus, as lágrimas de sua Mãe, a debandada dos discípulos, a fortaleza das santas mulheres, a audácia de José e Nicodemos, que pedem a Pilatos o corpo do Senhor. Aproximemo-nos, em suma, de Jesus morto, dessa Cruz que se recorta sobre o cume do Gólgota. Mas aproximemo-nos com sinceridade, sabendo encontrar o recolhimento interior que é sinal de maturidade cristã. Os acontecimentos, divinos e humanos, da Paixão penetrarão desta forma na alma como palavra que Deus nos dirige para desvelar os segredos do nosso coração e revelar-nos aquilo que esperava das nossas vidas”.
Vamos refletir as sete palavras que Jesus pronunciou na cruz. Mesmo sofrendo e agonizando, o Verbo encarnado cumpre até o fim as Escrituras e nos dá um grande exemplo de obediência à vontade do Pai.
No primeiro brado do Senhor, temos: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lc 23, 34) – Com esta sua exclamação, o Salvador do gênero humano dá-nos um extremo exemplo de perdão. São João Crisóstomo, meditando esta atitude, afirma: “Como o Senhor disse, rogai pelos que perseguem, o levou à prática quando subiu à cruz. Por isto, dizia: ‘Pai, perdoa-lhes’. Não porque Ele não podia perdoar, mas para ensinar-nos a rogar pelos que nos perseguem, não somente com a palavra, mas também com a obra”. A oração de Jesus leva a sério a lei dos setenta vezes sete.
Na segunda fala de Jesus em seu madeiro – “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43) – vemos que o Senhor promete ao “bom ladrão” o Paraíso, o céu, sua morada eternal. O Cristo não fecha a sua graça àqueles que fizeram coisas más, mas que, num processo de conversão, ainda que seja no final de suas vidas, se abriram a ação de Deus. “Quem teria instruído o ladrão em mistérios tão profundos? Chama Senhor a esse homem a quem percebe desnudo, ferido, desgraçado, insultado, depreciado e pendido em uma cruz ao seu lado, este mesmo que diz que, após a sua morte, quereria entrar no seu Reino. Assim podemos aprender que o ladrão não pensou o reino de Cristo como temporal, como o imaginaram os judeus, mas que depois da sua morte seria Rei para sempre no céu. Quem foi o seu instrutor em segredos tão sagrados e sublimes? Ninguém, por certo, a menos que seja o Espírito da Verdade, que o esperava com as Suas mais doces bênçãos” (São Roberto Belarmino). Assim, percebemos que, mesmo sendo pecadores, se reconhecemos o Cristo como Senhor e o professamos, arrependendo-nos dos crimes outrora cometidos, as portas do Paraíso não nos serão fechadas. Isso é para nós a expectativa da bem-aventurança eterna. Se o antigo paraíso, prefiguração do verdadeiro, foi-nos fechado pelo pecado da desobediência de Adão, as portas do autêntico Paraíso, da morada de Deus, são-nos abertas pelo Cristo pendente no lenho da cruz, o Novo Adão: "Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão". (1Cor 15,22).
Às vezes, formamos uma falsa ideia deste ‘bom ladrão’. Pensamos diversas coisas sobre a sua vida, as quais muitas vezes não condizem com a realidade. Ponderamos sobre os possíveis crimes que ele tenha cometido para chegar ao ápice da cruenta e extenuante morte de cruz, a pior e mais desumana das penas de morte existentes na época. Porém, no fundo, muitos dos nossos pecados são superiores aos que ele, possivelmente, tenha cometido. Sabemos que ele é ladrão. Não porque tenha usurpado algo de outrem, mas porque até na última hora adquiriu o céu. Olhando para ele, temos a certeza que, para nós também, o céu é-nos aberto.
Um terceiro grito é ouvido da cruz e que ressoa doravante os séculos: “Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (Jo 19, 26-27). Não achando suficiente a sua morte na cruz para a nossa salvação, ter-nos dado a Eucaristia, perpetuação do seu sacrifício redentor, Jesus oferece-nos a sua Mãe. Imaginemos, pois, Jesus sem forças, na agonia, dizendo esta belíssima frase. Meditemos acerca da dor de Maria, a Virgem das Dores, aos pés da cruz, vendo o seu filho morrer. Mergulhemos no coração de Maria, a Senhora aos pés da cruz, marcada em um misto de dor e de fé em ver o seu amado Jesus, seu Filho e Filho de Deus, em situação tão crítica. Com esta palavra do Senhor da cruz, igualmente somos convidados a olhar João, o Discípulo Amado, que, ao escutar tão grande expressão, foi invadido pela surpresa de que ele haveria de ser o guarda da Santíssima Virgem Mãe de Deus; que foi surpreendido pelo papel a ele reservado pelo Senhor: o de representar toda a humanidade que, a partir daquela hora de agonia, era patrocinado pela Virgem Maria.
Na quarta expressão de Jesus no alto de seu lenho, temos: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? – Eli, Eli, lamá sabactâni?” (Mt 27, 46; Mc 15, 34) – Jesus, em agonia, reza. Este trecho “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” é o início do salmo 21. Dor e oração, eis as expressões do Cristo. A crucificação de Jesus coaduna toda a Escritura em si; Jesus encarna a salmodia, as profecias, as Escrituras. Neste sentido, São João Crisóstomo afirmará: “Portanto falou com as palavras do profeta, dando assim testemunho do Antigo Testamento até a última hora; e para que vejam como honra a seu Pai e que não o contraria. Por isso falou em hebraico, para que todos entendessem o que dizia” (Homiliae in Matthaeum, hom. 88,1). Também poderíamos entender tal exclamação do Salvador com outro sentido que não diverge do primeiro, antes, está em íntima consonância. Jesus Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, ao fazer-se pecado por nós, sente-se como que abandonado pelo Pai. Pode parecer até uma situação paradoxal: “Deus abandonou o seu Filho? Deus se abandona?”. As sombras tenebrosas que cobriam a terra naquele instante testemunhavam o abandono de Deus, ao tempo em que o representa. E Orígenes reflete: “Devemos perguntar-nos: O que se entende quando se diz que Jesus Cristo é abandonado por Deus? Alguns, na insuficiência de explicar, dizem que Jesus a diz por humildade. Porém, claramente, se poderia entender que disse fazendo uma comparação de sua glória, a mesma que tinha junto do Pai, e a turbação que padeceu desprezado na cruz. Depois que viu o Salvador que as trevas se tinham estendido por toda a Judeia, disse estas palavras dando a entender que o Pai o havia abandonado. Isto é, que o havia entregado quando ele já não tinha forças, a tantas calamidades, para aquele povo que tinha sido tão honrado pelo Pai, recebera o que merecia, pelo que se atreveu a fazer com Ele. Isto é, que ficasse privado da luz de sua proteção, já que Ele foi abandonado para a salvação das gentes. Que mérito adquiriram os que creram entre os gentios para que merecessem ser comprados do poder do inimigo pelo sangue precioso de Jesus Cristo derramado sobre a terra? O que haviam de fazer os homem adiante, para serem dignos de que Jesus padecesse por eles toda classe de tormentos? Acaso, vendo os pecados dos homens por quem sofria, disse: Por que me tens abandonado? Para que parecesse àquele que colhe restolhos na ceifa ou cachos na vindima? Não creias que o Salvador disse essas coisas  como costumam dizê-las os homem quando experimentam sofrimentos como Ele padecia na cruz. Porque se o crês neste sentido, não ouvirás a sua grande voz, a que manifesta que algo grande se encerra nela” (In Matthaeum, 35).
O “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” é oração, não de desespero, mas de certeza jubilosa do triunfo final, como alude mais adiante o mesmo Salmo 21, 20: “Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai” (Sl 21,20). Diante da extremada situação vivenciada no Calvário, sentindo-se abandonado por Deus e por seus amigos, sentindo o peso dos nossos pecados sobre si, o Filho não perde a confiança em seu Pai.
“Tenho sede!” (Jo 19, 28), eis a quinta fala do Cordeiro Imaculado. Obedecendo as Escrituras, Jesus sente sede. O suor, o sangue perdido, a poeira, a dor… tudo leva a “Fonte de Água Viva” (cf. Jo 4, 10) a reclamar estar sedento. Que espécie de sede é esta que Jesus sentira? Seria sede física apenas? Ou sede de Deus; ou por almas; ou mesma causada pela humilhação, pelos incontáveis opróbrios que sofreu?
No versículo 34 deste mesmo Evangelho, vemos o soldado romano traspassar-lhe o lado. E, do peito aberto de Jesus, sai sangue e água. A água que purifica é a mesma água do batismo; é a mesma água que sai do seu lado, símbolo dos sacramentos.
Eis que lhe oferecem por bebida o vinagre, o fel. Neste sentido, afirma-nos Santo Agostinho: “Padecia tudo isso o que aparecia homem, e o dispunha tudo o que se ocultava Deus. Por isso diz: ‘Depois, sabendo que tudo se havia consumado, a fim de que se cumprissem as Escrituras’, isto é, o que havia predito a Escritura: ‘E, em minha sede, ofereceram-me vinagre’ (Sl 68, 22), disse: ‘Tenho sede’, como se dissesse: Isto falta fazer, dai o que sois. Como que os judeus eram o vinagre, degenerado do vinho dos patriarcas e profetas. Havia, pois, ali, um vaso cheio de vinagre, como um coração cheio de iniquidade deste mundo, a maneira de esponja, cheia de cavernosas e enganosas tortuosidades. E segue: ‘E eles, colocando uma esponja empapada em vinagre sustentado por um hissopo, aplicaram em sua boca’” (In Ioannem, tract., 119).
Na sexta declaração do Crucificado, temos o imperativo “Tudo está consumado!” (Jo 19, 30). Assim com autoridade de um Verdadeiro Rei, Jesus declara acabada a sua missão de Redentor, obra que o Pai lhe confiara e que Ele prontamente abraça: “Tunc dixi ecce venio in capite libri scriptum est de me ut facerem voluntatem tuam Deus meus volui et legem tuam in medio cordis mei” -  Então eu disse: Eis que eu venho. No rolo do livro está escrito de mim: fazer vossa vontade, meu Deus, é o que me agrada, porque vossa lei está no íntimo de meu coração (Salmos 139, 8-9); ou ainda, como alude São João no seu Evangelho: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou” (Jo 13,1). O Cristo morre amando. A Palavra do Pai que tudo criou por meio dela ao dizer “Fiat – Faça-se”, melhor do que ninguém cumpre a sua missão, e, por isso, morre amando; ama até a consumação da sua vida. Por isso, diz: “Tudo está consumado”, pois, além do amor perfeitamente cumprido, o Cordeiro de Deus leva a feito tudo o que as Escrituras afirmam acerca de si. Ele, no escândalo da cruz, como ovelha diante do tosquiador não abriu a boca, mas o pouco que falou foi para que toda a Escritura se cumprisse. Por este motivo serem sete as exclamações do Senhor na cruz. Sete na Bíblia é a conta da perfeição: Jesus, até a consumação, foi perfeito, inclusive nas suas ditosas palavras dirigidas ao Pai, dirigidas aos que estavam presentes, dirigidas a nós.
Por fim, caríssimos irmãos, chegamos a sétima e última das benditas palavras pronunciadas pelo Cristo em sua cruz: “Pai, em tuas mãos, eu entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). O Senhor reza, pronunciando, em agonia de morte, o salmo 30, 6. Interessante notarmos que o Filho de Deus encerra o setenário de suas palavras da mesma forma que iniciou: clamando pelo Pai, dirigindo-se a Ele. Se no primeiro brado de Jesus tivemos: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem” (Lc 23, 34), agora temos o grande grito “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito” (v. 46), tal como, costumeiramente, fazia em suas orações, chamando Deus de Pai, fazendo jus à sua filiação.
Aquele que veio do Pai para Ele retorna. Nesta Hora, a missão de Jesus se encerra definitivamente. Jesus morre, é certo, mas não é o fim. A morte de Cristo é a sua libertação nas mãos de Deus, por quem foi enviado, da parte de quem veio. É também a nossa libertação, pois com a sua obediência “até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8), rompe os grilhões da nossa escravidão com o poder do pecado e da morte. Jesus desce à mansão dos mortos, tal com o afirmamos no Credo; lá há de libertar os justos que também precisavam de salvação: Moisés, Abraão, os patriarcas e profetas. Entregando-se ao Pai, o Cristo declara a sua confiança em Deus, seu Pai.
O Senhor Jesus Cristo é rei, seu trono é a cruz: é rei pela Santa Cruz. Assim como, prefigurativamente, Moisés levantou a serpente de bronze no deserto, curando os que eram feridos pelas serpentes, quando estes olhavam para a estátua erguida em uma vara, o Cristo, estendido na haste cruz e desfalecido, é remédio de vida para a humanidade morta pelo pecado. Por isto, dizemos: ‘Bendita e louvada seja a Paixão e Morte de Jesus Cristo, nosso Senhor. Que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor!’   

QUINTA-FEIRA SANTA


(Missa Vespertina da Ceia do Senhor)
(Ano C – 28 de março de 2013)



Por Dom Javier Echevarría
Bispo Prelado do Opus Dei

I Leitura: Ex 12,1-8.11-14
Salmo Responsorial: Sl 115(116B),12-13.15-16bc.17-18 (R/.cf. 1Cor 10,16)
II Leitura: 1Cor 11,23-26
Evangelho: Jo 13,1-15

Queridos irmãos,


A liturgia de Quinta-feira Santa é riquíssima de conteúdo. É o dia grande da instituição da Sagrada Eucaristia, dom do Céu para os homens; o dia da instituição do sacerdócio, nova prenda divina que assegura a presença real e atual do Sacrifício do Calvário em todos os tempos e lugares, tornando possível que nos apropriemos dos seus frutos.
Aproximava-se o momento em que Jesus ia oferecer a Sua vida pelos homens. Era tão grande o Seu amor, que na Sua Sabedoria infinita encontrou modo de ir e de ficar, ao mesmo tempo. São Josemaria Escrivá, ao considerar o comportamento dos que se vêm obrigados a deixar a família e a casa, para ganhar o sustento noutras paragens, comenta que o amor do homem recorre a um símbolo: os que se despedem trocam uma recordação, talvez uma fotografia... Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas a realidade: fica Ele próprio. Irá para o Pai, mas permanecerá com os homens. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente: com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a Sua Divindade.
Como corresponderemos a esse amor imenso? Assistindo com fé e devoção à Santa Missa, memorial vivo e atual do Sacrifício do Calvário. Preparando-nos muito bem para comungar, com a alma bem limpa. Visitando com frequência Jesus oculto no Sacrário.
Na primeira leitura da Missa, recordamo-nos o que Deus estabeleceu no Velho Testamento, para que o povo israelita não esquecesse os benefícios recebidos. Descendo a muitos detalhes: desde como devia ser o cordeiro pascal, até aos pormenores que tinham que cuidar para recordar o trânsito do Senhor. Se isso se prescrevia para comemorar uns fatos, que eram apenas uma imagem da libertação do pecado operada por Jesus Cristo, como deveríamos comportar-nos agora, quando fomos verdadeiramente resgatados da escravidão do pecado e feitos filhos de Deus!
É esta a razão pela qual a Igreja nos inculca um grande esmero em tudo o que se refere à Eucaristia. Assistimos ao Santo Sacrifício todos os Domingos e festas de guarda, sabendo que estamos a participar numa ação divina?
São João relata que Jesus lavou os pés aos discípulos, antes da Última Ceia. Temos que estar limpos, na alma e no corpo, para nos aproximamos a recebê-Lo com dignidade. Para isso deixou-nos o sacramento da Penitência.
           Comemoramos também a instituição do sacerdócio. É um bom momento para rezar pelo Papa, pelos Bispos, pelos sacerdotes e para pedir que haja muitas vocações no mundo inteiro. Pedi-lo-emos melhor na medida em que tenhamos mais convívio com esse nosso Jesus, que instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio. Vamos dizer com total sinceridade, o que repetia São Josemaria Escrivá: Senhor, põe no meu coração o amor com que queres que Te ame.
        Na cena de hoje não aparece fisicamente a Virgem Maria, embora se encontrasse em Jerusalém naqueles dias; encontramo-la de manhã ao pé da Cruz. Mas já hoje, com a Sua presença discreta e silenciosa, acompanha muito de perto o Seu Filho, em profunda união de oração, de sacrifício e de entrega. João Paulo II assinala que, depois da Ascensão do Senhor ao Céu, participaria assiduamente nas celebrações eucarísticas dos primeiros cristãos. E acrescenta o Papa: aquele corpo entregue como sacrifício e presente nos sinais sacramentais, era o mesmo corpo concebido no Seu seio! Receber a Eucaristia devia significar, para Maria, como se acolhesse de novo no Seu seio o coração que tinha batido em uníssono com o Seu (Ecclesia de Eucharistia, 56).
          Também agora a Virgem Maria acompanha Cristo em todos os sacrários da terra. Pedimos-Lhe que nos ensine a ser almas de Eucaristia, homens e mulheres de fé segura e de piedade rija, que se esforçam por não deixar Jesus sozinho. Que saibamos adorá-Lo, pedir-Lhe perdão, agradecer os Seus benefícios, fazer-Lhe companhia.  

sábado, 23 de março de 2013

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR


(Ano C – 24 de março de 2013)



Na Bênção dos Ramos: Lc 19,28-40

Na Missa:
I Leitura: Is 50,4-7
Salmo Responsorial: Sl 21 (22),8-9.17-18a. 19-20. 23-24 (+2a)
II Leitura: Fl 2,6-11
Evangelho: Lc 22,14 – 23,56

Pelo Seminarista André Fernandes


“Hosánna filio David: benedíctus, qui venít, in nómine Dómini. O Rex Israel: Hosánna in excélsis” (cf. Matth. 21,9)
    
Caros irmãos,

Com antífona da entrada do Missal Romano, principiamos a Semana Santa. Esta é, por excelência, a semana da peregrinação da Igreja de Cristo neste ‘lacrimárum valle’ até que venha a Páscoa perenal. Nela, somos conduzidos através da vivência Litúrgica, através dos ritos e da piedade,  para prepararmo-nos com mais proximidade à iminência do Tríduo Sacro do Crucificado-Ressuscitado. Aqui, o Corpo Místico de Cristo, encontra a sua seiva vital que é o Mistério Pascal, em três solenes dias, como num único, atualizamos, fazemos memória, no hoje, do evento da nossa salvação em Jesus, o Messias e o Novo Adão.


As primas palavras do Missal Romano nos inserem no que celebramos no domingo hodierno. Trata-se de dois grandes momentos atualizados na Liturgia. Se formos bons observadores, abriremos a nossa consciência, porque a Liturgia é totalmente pedagógica.  No Domingo precedente à Ressurreição de Nosso Senhor, celebramos a sua entrada triunfante como Rei e Messias de Israel. Jesus adentra, trepado no potro de jumenta, à Santa Cidade de Jerusalém, lembrando a profecia de Zacarias: “Exulta mui, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco da guerra será eliminado. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar e do Rio às extremidades da terra” (Zc 9).


       Os evangelhos sinóticos, na narração do ministério messiânico de Jesus, sempre nos apontam esta subida de Nosso Senhor. Esta ida de Jesus para Jerusalém é constituída pela hora que chegara, como, de maneira singular é notada por São João no Livro dos Sinais. A hora da glorificação do Filho de Deus é aproximada quando, por libérrima e arcana vontade, decide montar num jumentinho para ser pregado na árvore da obediência. Detenhamo-nos ao primeiro momento desta Sagrada Liturgia: a solene procissão com os ramos de palmeira. Desde o século V, a Igreja faz esta procissão. Ela não é uma prática devocional como as vias-sacras e as procissões penitencias, mas é, deveras, parte da Celebração da Sagrada Eucaristia do Domingo de Palmas e da Paixão do Senhor.


Anterior à Reforma Litúrgica elaborada pelo Sagrado Concílio Vaticano II, o sacerdote, cingia-se de roxo, para celebrar a Eucaristia, para significar a paixão e morte de Nosso Senhor, o ‘homem das dores’, já narrado em prefiguração pelo Deutero-Isaías com o cântico do Servo Obediente,  no dito Livro da Consolação. Aí, faz-se o uso do pluvial vermelho.


Por que usarmos palmas? Por que adentra Jesus, o Filho de Deus, o sempiterno, à Cidade Santa de Jerusalém sobre um jumentinho? Lembremo-nos que os grandes reis entravam às suas cidades no lombo de cavalos o que era símbolo da supremacia, do domínio e da tirania.  Jesus mostra que veio trazer a paz para Jerusalém, o seu reinado; dissocia-se do esquema de Herodes e de Pôncio Pilatos. Cristo é Rei e Salvador. Toda a sua vida terrena estava voltada para o Pai desde o limiar do seu ministério apostólico, cuja culminância dar-se-á no madeiro da cruz. Os ramos que empunhamos durante a procissão são sinais de que cremos no reinado de Nosso Senhor; Ele é, digamos assim, ‘o novo Davi’, Aquele, do qual, a lâmpada da realeza davídica não se apagará.
A primeira leitura ouvida nessa sagrada Liturgia é extraída do segundo Livro do profeta Isaías. Trata-se duma longa poesia, na qual, misteriosamente, é-nos exposta a figura do Servo Sofredor. Apraz-nos recordar que nos dias feriais da Semana Santa, a Liturgia vai nos formando com a leitura dos primeiros poemas, para que na Sexta-Feira da Paixão ouçamos o terceiro cântico pondo todo o acento no infortúnio do servo “levado  como um inocentíssimo cordeiro ao matadouro”  Com a tônica das leituras propostas pelo Lecionário, vamos percebendo a mudança  vislumbrada na Liturgia. Na primeira parte levantamos os ramos, aclamamos com triunfais Hosanas ao Filho de Deus e de Davi e eis que agora adentramos ao mistério da Paixão do Senhor, eis o porquê deste Domingo ser o de Palmas e o da Paixão. Aquele Jesus de Nazaré que entra em Jerusalém não mais sairá! Eis o Servo Obediente! Sobe à Cidade de Davi, dos profetas, dos justos, dos que esperavam o Messias davídico, para, como ‘primícias’, abrir as portas da Jerusalém do alto, “a Cidade de Deus, a morada do Altíssimo”, conforme salmodia a Igreja.


Ainda nos versos do cântico, podemos averiguar a total obediência do servo: “O Senhor deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida (...) ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é o meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado”.  Aqui, encontra-se toda a ação apostólica de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida do Filho de Deus foi uma constante oblação em obediência ao Pai para a salvação do gênero humano. Tal cântico nos recorda que desde o momento da encarnação do Verbo faz-se, de maneira mistérica, presente o Mistério Pascal. Basta recordarmos a fuga do Menino para o Egito quando o tirano Herodes o procurava para matar. Jesus vai a Jerusalém para que toda a Escritura, a Lei e os profetas se cumpram.


Com o salmista, a Esposa Católica canta com Nosso Senhor: “Eloi, Eloi lamá sabactâni!” – Deus meu! Deus meu! Por que me abandonastes?! A priori podemos aferir deste brado que Deus foi injusto. Não! Não! Aqui quem grita é a nossa humanidade no Adão-Cristo! Eis porque ela grita: a desobediência provinda do pecado original. Jesus, como diz o Apóstolo, “feito pecado por nós”, diz: “Meu Deus, por que me abandonastes?” Por quê? Por que deixastes zombar e escarnecerem de mim? Por que permitistes bofetões e cusparadas? Por que despiram as minhas vestes e tiraram sorte com a minha túnica? Porque em meio aos ultrajes vemos o Filho de Deus; o Divino Redentor cuja vida imolada, debulhada como que “trigo que cai na terra para conceder frutos”. De Santo Agostinho, aprendemos: “A cruz não só foi o patíbulo da morte, mas, também, a cátedra do Mestre”.


Na segunda leitura, o apóstolo São Paulo discorre singularmente acerca da teologia da ‘Kénosis’ de Nosso Senhor, ou seja, a sua descida ao encontro da nossa humanidade. “Jesus Cristo existindo em condição Divina não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz”. Este é o tratado da encarnação, paixão, morte e ressurreição do Senhor! Fez-se escravo para que fossemos libertos do Egito e do Faraó, da mazela do pecado. O gesto servil de Jesus acontece cruentamente naquela sexta-feira, mas, na instituição do Sacramento do seu Corpo, ele, debaixo dos pés do doze, mostra assim, ser o servo! Obediente até o Gólgota! Obediente para que muitos recobrassem a salvação, por isso é-lhe sentenciada a pena mais terrível: a crucifixão! Mas, não podemos deixar de merecer: a oferta de Cristo é livre e total! “Dou a minha vida livremente!”


No Evangelho da Missa, ouvimos a caudalosa narração dos passos últimos de Jesus até à sua beatíssima paixão e crua morte. Dentre os pormenores indicados pelo evangelista São Lucas, é importante destacarmos a profissão de fé do oficial: “De fato! Este homem era justo!”. Jesus, o Inocente pregado na cruz, é a vítima de reparação por nossas ofensas. Somente nele é que fomos justificados. O Homem Cristo recapitulou toda a criação. Na sua oferta de cruz, cujo sinônimo é de abandono, solidão, desprezo, aniquilamento, nos aponta a condição injusta da nossa humanidade. O Justo, feito injusto por nossas limitações, levou-nos à plenitude. Conduziu-nos na estrada da cruz para o horizonte da imortalidade. A Jesus, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro a glória e a imortalidade pelos séculos infindos. Amém!

quinta-feira, 21 de março de 2013

A HERMENÊUTICA DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA APARECIDA E A SUA RELAÇÃO COM O QUE DISSE BENTO XVI




Por Dom Rafael Maria, osb*

A história que exige uma resposta divina


Tomamos como ponto de partida os fatos históricos, eclesiais e políticos do séc. XVIII e finalmente chegamos a conclusão de que o encontro da imagem pelos pescadores no Porto de Itaguaçu não é uma mensagem para os pobres, nem para os negros como o foi até hoje. É uma mensagem para a Igreja e para o mundo de ontem e de hoje. Fizemos uma análise dos aspectos simbólicos da imagem quebrada procurando luzes e sentido nas Escrituras, na Patrística, no Magistério e na Liturgia, elementos basilares para um verdadeiro estudo mariológico. Observamos que a imagem quebrada em duas partes de Aparecida estava relacionada a falta de unidade na Igreja interna e na sua missão no séc. XVIII, atacada por forças hostis à sua vocação de mensageira do Evangelho, da Revelação Divina emanada por Jesus Cristo e a sua vocação no mundo. O Iluminismo que deu asas a tantas ideologias, se prestou a um mau serviço à sociedade produzindo o Absolutismo, o Josefismo, o Jansenismo, o Galicanismo, o Deísmo, a Maçonaria, etc., onde atacaram com veemência a Igreja, sua mensagem doutrinal e a prática religiosa ontem com resquícios hoje. Papas do séc. XVIII (cerca de 8 ou 9) não foram suficientemente hábeis, salvo exceções, na gestão política internacional, assim como nas intrigas eclesiásticas internas e que deixaram a Igreja no séc. XVIII em situações desagradáveis.


Aspectos simbólicos de eclesiologia e mariologia


A “cabeça da imagem”, originalmente encontrada “separada do corpo” estava com os cabelos curtos (cortados) e, que nos recorda a Sansão que perde suas forças quando fraquejou humanamente, isto é, não foi fiel ao Senhor. A imagem/Igreja tirada das águas nos recorda a força de Deus que salva Pedro das ondas revoltas, mas também Moisés que, salvo da perseguição faraônica recebe uma oportunidade na mediação com o Povo de Israel. O aspecto mariológico nos faz lembrar a Imaculada Conceição de Maria (a imagem é da Imaculada); Maria salva por obra e graça de Deus pelos méritos de Cristo para o serviço do Senhor e dos irmãos. Em Aparecida toda sua mensagem é eclesiológica e mariológica. Nela encontramos sinais do chamamento do Senhor, por meio de Maria, imagem da Igreja, santa e imaculada à unidade, isto é, o que interpretamos das duas partes da imagem (A cabeça = Cristo/o Papa e o Corpo = o Povo de Deus). O encontro através de pescadores no rio, com barcas, redes e os peixes nos levam ao Evangelho sobre a escolha do Senhor Jesus e deste símbolo da Igreja. Mas é o povo que começa a cultuar Maria e não a Igreja oficial que só depois de décadas que se veem na obrigação de oficializar o culto mariano de Aparecida (1745). Não houve uma «aparição» da Virgem, mas uma modalidade de mariofania dentro de um contexto litúrgico e devocional. A liturgia da época com seus textos eucológicos e bíblicos do Missal Tridentino utilizado na época apresentam as advertências do Senhor com os falsos profetas e suas doutrinas (onde podemos aplicar ao Iluminismo), chama-nos a atenção à fidelidade a mensagem do Senhor (fidelidade na unidade comunitária, entre irmãos).


Um outro fator é uma nova hermenêutica sobre a cor da Imagem. Nossa interpretação é vinculada a dois aspectos: o primeiro, o Mariológico, através do Ct 1,5, onde os Padres da Igreja aplicam a Maria, a imagem da Esposa do Ct, a beleza da esposa; o segundo, o Eclesiológico, a Igreja esposa, mas sua cor escura pode refletir seus pecados, sua situação no mundo e a violência em que esta sujeita pelas forças contrárias. Ora, o Papa Bento XVI nos faz refletir em seus discursos sobre a falta de unidade na Igreja e os interesses pessoais, contrários a mensagem do Evangelho. Tais discursos são ecos de um mau, que parece ser incurável na Igreja. Permanece em alguns que relutam na obstinação de rever e de se converter promovendo assim danos pessoais e comunitários. Os escândalos morais e materiais da Igreja, isto é, dos batizados (leigos e consagrados) de hoje, não são diferentes dos de ontem, pois parecem ser fruto desta relutância dos membros e em que o Santo Padre na qualidade de pastor e pai espiritual nos adverte. Nossa Senhora da Conceição Aparecida deixou aqui no Brasil sua mensagem pouco refletida e aprofundada para o mundo.


Aparecida é um convite de retorno às origens na Imaculada Conceição da Virgem Maria. Maria, é o início para a Igreja, para todos os batizados em Cristo. Olhando e imitando a Virgem Maria, a Igreja (leigos e consagrados) podem se converter no seguimento fiel a Jesus, Pastor eterno e Salvador de todos. Rezemos uns pelos outros, pois, assim será sinal de começo de unidade e conversão.



*Pe. Rafael Maria é formado em "Postulação para beatificação e canonização para Causa dos Santos" e é doutor em Mariologia pela Pontifícia Faculdade Teológica «MARIANUM» - Roma.  Leciona um «Curso de Mariologia» via internet (cf. www.cursoscatolicos.com.br). Para maiores informações: d.rafaelmariaosb@hotmail.com

CREDO IN UNUM DOMINUM IESUM CHRISTUM... (PARTE I)






Queridos irmãos,


No palmilhar do Ano da Fé, nos debruçamos: “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria e se fez homem” (Símbolo Niceno-Constantinopolitano); “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo” (Símbolo dos Apóstolos). Com estas afirmações do Credo que recebemos da Igreja, referimo-nos ao segundo e terceiro artigos de doze existentes nesta arraigada Profissão de Fé, transformada pela “Mãe Católica” em oração que, por sua vez, foi muito bem aceita pela piedade do Povo de Deus.


            O Credo, neste trecho, ensina-nos que o Filho de Deus é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade; que Ele é Deus eterno, todo-poderoso, Criador e Senhor, como o Pai; que se fez homem para nos salvar; e que o Filho de Deus feito homem se chama Jesus Cristo. A segunda Pessoa chama-se Filho porque é gerada pelo Pai por via de inteligência, desde toda a eternidade, mesmo antes de aparecer, desveladamente, neste mundo; e por este motivo se chama também Verbo eterno do Pai. Logo, sendo eterno, estava presente na criação do mundo. E é chamado Verbo porque é a voz do Pai. Por isso, dizermos: “Por Ele todas as coisas foram feitas”; ou como ainda refere-se São Paulo: “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1,16).


Jesus Cristo chama-se Filho único de Deus porque só Ele é por natureza seu Filho, e nós, seus filhos, por criação e por adoção, graças ao sangue de Jesus derramado na cruz que nos conquistou e pelo Batismo somos integrados nesta filiação adotiva.


Igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, denominamos Jesus como Senhor, não porque, enquanto Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, nos tenha criado, mas também por ter remido a humanidade pelo seu Sangue, restabelecendo nossa amizade com Deus, recriando-nos em ‘novas criaturas’: “Por seu intermédio [de Cristo], reconciliou consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus”. (Cl 1,20).


“Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. (Lc 1,31). Foi este o nome que o Pai Eterno deu ao Seu Filho feito homem por meio do Arcanjo São Gabriel, quando este anunciou à Virgem Santíssima o mistério da Encarnação. O nome de Jesus significa Salvador (Deus Salva), porque nos salvou da morte eterna que merecíamos por nossos pecados. O nome e a sua significação estão presentes em Mateus (1,21), quando o anjo avisa a José em sonho a maternidade de Maria, enquanto este se inquietava com a gravidez da Virgem: “Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados” (Mt 1,21).


Denominamos o Filho de Deus como Cristo, referindo-nos à Sua missão. Cristo vem do grego Christós (Χριστός), que quer dizer ‘Ungido, consagrado’, em hebraico ‘Messiah’ (משיח = Messias), porque, em um antigo costume, ungiam-se os reis, os sacerdotes e os profetas e Jesus é Rei dos reis, Sumo Sacerdote e Sumo Profeta. A unção de Jesus Cristo não foi corporal, como a dos antigos reis, sacerdotes e profetas, mas toda espiritual e divina, porque a plenitude da divindade habita n’Ele substancialmente, por ser Ele um só Deus com o Pai e o Espírito Santo. Jesus foi ungido pelo Pai com o Espírito Santo: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade; proclamar um ano de graças da parte do Senhor, e um dia de vingança de nosso Deus; consolar todos os aflitos, dar-lhes um diadema em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de vestidos de luto, cânticos de glória em lugar de desespero” (Is 61,1-3a; Lc 4,18-19).


Jesus, tal como O conhecemos pela fé da Igreja testemunhada pela Palavra de Deus (Escrituras e Tradição, ensinadas pela autoridade que somente a Igreja Católica possui, o Magistério), não era totalmente conhecido pela humanidade. No entanto, o Filho de Deus não passou desapercebido antes mesmo da Sua vinda. Sim, os homens tiveram conhecimento de Jesus Cristo anteriormente à sua chegada, graças à promessa do Messias, que Deus fez aos nossos primeiros pais, Adão e Eva, a qual renovou aos santos Patriarcas, também pelas profecias e muitas figuras que O designavam.


Sabemos que Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias e o Redentor prometido, porque n’Ele se cumpriu: 1) Tudo o que anunciavam as profecias; 2) Tudo o que representavam as figuras do Antigo Testamento. Desta forma, as profecias prediziam acerca do Redentor: a tribo e a família da qual deveria Ele sair (de Judá, da família do Rei Davi); o lugar e o tempo do nascimento (Belém da Judeia, em um tempo de paz e na plenitude dos tempos); os seus milagres e as mais minuciosas circunstâncias da Sua Paixão e Morte; a sua Ressurreição e Ascensão ao Céu; o seu Reino espiritual, universal e perpétuo, que é a Santa Igreja Católica. Já as figuras de Jesus (logicamente do Antigo Testamento) são: o inocente Abel, o sumo sacerdote Melquisedec, o sacrifício de Isaac, José vendido pelos irmãos, o profeta Jonas, o cordeiro pascal dos judeus e a serpente de bronze, levantada por Moisés no deserto.


Sabemos que Jesus Cristo é verdadeiro Deus primeiramente pelo testemunho do Pai Eterno, quando disse: “Este é o meu Filho muito amado, no qual tenho posto todas as minhas complacências: ouvi-O” (Mt 17,4; Mc 9,7; Lc 9,35). Depois, pela afirmação do próprio Jesus Cristo, confirmada com os mais estupendos milagres, sequenciados pela doutrina dos Apóstolos e, através desta, pela Tradição constante da Igreja Católica. Acerca dos milagres de Jesus, resumimo-los pelos principais: além da Sua Ressurreição, a saúde restituída aos enfermos, a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a vida aos mortos.


Dizemos com nossa fé que Jesus, Filho de Deus, Verbo eterno do Pai, tomou um corpo semelhante ao nosso, com exceção do pecado, encarnando-se no seio puríssimo e benditíssimo da Virgem Maria. Portanto, já o terceiro artigo do Credo ensina-nos que o Filho de Deus tomou um corpo e uma alma, como nós os temos, no ventre de Maria Santíssima, pelo poder do Espírito Santo, e que nasceu desta mesma Virgem. Para este evento nunca antes visto, ou seja, para formar o corpo e para criar a alma de Jesus Cristo, concorreram todas as três Pessoas divinas: o Pai envia o Filho que se fecunda pelo Espírito Santo em Maria. Diz-se só: ‘foi concebido pelo poder do Espírito Santo’, porque a Encarnação do Filho de Deus é obra de bondade e de amor, e as obras de bondade e de amor atribuem-se ao Espírito Santo.


          Ao fazer-se homem, Jesus não deixou de ser Deus. Logo, o Filho de Deus encarnado, isto é, Jesus Cristo, é Deus e homem ao mesmo tempo, perfeito Deus e perfeito homem: verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, fazendo coisas peculiares a cada natureza. Jesus comia, cansava-se, chorava, tinha necessidades... porque em Jesus Cristo, que é Deus e homem, há duas naturezas, a divina e a humana, mas uma só Pessoa, a divina. Duas naturezas em uma só Pessoa, com duas vontades, uma divina, outra humana. O Filho de Deus e o Filho de Maria Santíssima são a mesma Pessoa. Jesus Cristo é Filho de Deus que foi enviado para uma missão especialíssima: a salvação da humanidade. Ele tinha vontade livre? Sim, Jesus Cristo tinha vontade livre, mas não podia fazer o mal, porque poder fazer o mal é defeito, e não perfeição da liberdade; Ele veio para fazer a vontade do Senhor, sendo Deus e homem. Por isso, nunca praticou o mal, nunca pecou. Assim sendo, entendemos que o pecado não é coisa de humano. Eu peco, não porque sou gente, humano, mas por um vício que adentrou na natureza da pessoa humana, estranhamente.


Se Jesus é Deus e homem, a Virgem Maria será Mãe de Deus porque é Mãe de Jesus, que O concebeu sem participação de homem, mas unicamente pela virtude do Espírito Santo. Duvidar disto é um pecado gravíssimo, não só contra a Igreja e Nossa Senhora, mas também contra Deus, diretamente, porque negamos que o Espírito Santo, que é Deus com o Pai e o Filho, fecundou o ventre de Maria Santíssima: é de fé que Maria Santíssima foi sempre Virgem (antes, durante e depois do parto), e é chamada a Virgem por excelência.


Assim, meus caros irmãos, pincelamos alguns nortes catequéticos acerca do segundo e terceiro artigos de nosso Credo. Em nosso próximo encontro, trataremos da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão de Jesus, ou seja, do Mistério Pascal.


Até a próxima!

terça-feira, 19 de março de 2013

ENSAIO ANTROPOLÓGICO A PARTIR DA MÚSICA CRISTÃ CONTEMPORÂNEA











Pelo Seminarista David Ângelo Oliveira Rocha*

Refletir sobre música cristã não é uma reflexão meramente abstrata, mas, concreta. Porque não é um problema baseado tão somente na arte (música), mas é uma reflexão antropológica. Se a música cristã anda mal é sinal que o homem, este ser pós-moderno está perdido em si mesmo, com o mundo e com Deus.

No decorrer da caminhada histórica da música cristã é possível perceber que há algum tempo (e mais agora) a música cristã está cada vez mais caindo em pé de igualdade à música profana. Um relativismo musical está cada vez mais forte na cabeça dos cristãos a tal ponto de introduzir músicas internacionais, MPB como fundo musical para matrimônios ou como músicas de entrada ou pós-comunhão.

Santo Agostinho já dizia que “a música, isto é, a doutrina e arte de bem modular, como anúncio de grandes coisas foi concedida pela divina liberalidade aos mortais dotados de alma racional” (Apud Papa Pio XII, Sacrae Disciplina). Aqui temos algo bastante interessante em relação aos termos utilizados pelo Santo Agostinho: doutrina e arte de bem modular. É assim que ele chama a música cristã, mas infelizmente é possível perceber na nossa pós-modernidade o esquecimento da própria doutrina católica dando lugar a letras puramente sentimentais feitas em primeira pessoa do singular: “Eu”. Uma música cristã sem doutrina cristã é uma música falseada, mascarada, ilusória. Sem doutrina nas letras, sem citar passagens bíblicas, mas ao contrário, narrando problemas pessoais o compositor cria suas obras buscando abranger a todos e ao mesmo tempo a ninguém.

Mas o que esperar de compositores que estão aderindo a cultura relativista e egoísta? Tanto faz utilizar o ritmo de forró em música endereçada ao momento de comunhão como criar músicas para adoração, mas, feitas com a intenção de narrar suas angústias ao invés de ser na primeira pessoa do plural ( Nós). Está cada vez mais urgente uma renovação na mentalidade dos músicos e dos ouvintes católicos, “o problema da renovação da música religiosa não é somente um problema artístico: implica o da renovação do homem, que é quem há de cantar” (BASURKO, 2005, p.17). Mas, como a música não surgiu primeiro e depois o homem, mas ao contrário, primeiro surgiu o homem e depois veio a música, é necessário uma renovação no homem (antropós), já que, a música é o exterior do que habita no interior do homem, é a manifestação daquilo que mexia com sua mente e coração. “O que sai do homem é o que contamina o homem” (Mc 7, 20), ou seja, o que sai do mais profundo do ser humano é o que destrói, atrapalha a si mesmo.

O motivo de estar utilizando aqui Música Cristã Contemporânea é proposital. Por conta dessa mistura (ou fusão) entre música sacra e música religiosa, seja ela música religiosa protestante ou não, com uma cadência melódica tendenciosa ao sentimentalismo, “sem querer”, acabamos colocando músicas dentro das nossas Igrejas Católicas mais direcionadas ao nosso eu (o eu do músico principal) do que ao tu (povo, assembleia) e o Tu (Deus). Logo, o egoísmo é externado pela música. É possível saber quando um músico é tocado pelo Evangelho ou é um profissional, porque este deve lembrar que a música é ali na Liturgia um meio que expressa e toca na mente e no coração do homem a nível totalitário e não apenas pessoal.

Sendo assim, percebemos aqui que a função da música cristã é tocar na consciência, no ser total do homem pós-moderno e fazer com que ele coloque a sua frente, sem máscaras, quem ele está sendo realmente. Como estou levando a minha vida? O que sou? Quem eu sou? É esta a vida que quero continuar até o meu último suspiro? Será que as nossas músicas católicas estão levando as pessoas à colocarem suas vidas em suas mãos e analisa-las a partir do Evangelho? Será que está tocando na consciência ao começar pelo próprio músico que executa? Ter a consciência do que está cantando, por que e para Quem está cantando? Se a música não levar a pessoa a refletir sobre sua vida, se não mexer na mente e no coração não acontecerá o mesmo que aconteceu com Santo Agostinho, foi a partir da música que o levou a chorar na entrada da Igreja e perceber que Deus existe. Só quando o homem for tocado pela música cristã madura ele sempre entoará “salmos, hinos e cantos inspirados, cantando e tocando de coração em honra do Senhor” (Efésios 5, 19). Deus manifesta-se também pelos acordes e pelas mãos dos homens: pelo simples músico.

* Seminarista da Arquidiocese de Aracaju. Aluno do IV Ano de Teologia do Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição.

REFERÊNCIAS

SCHOKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. 2ª edição. São Paulo: Paulus, 2006.

BASURKO, Xabier. O canto cristão na tradição primitiva. São Paulo: Paulus, 2005.

PIO XII, Papa. Carta Encíclica Musicae Sacrae Displina- Sobre a música sacra. 1955.
Acessar: Vaticano – Santa Sé Page: http://www.vatican.va