quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Nativitate Domini-Natal do Senhor- na Noite Santa

Caros irmãos,

      
       
                                                                          *Meditação: André Fernandes Oliveira
            Celebrados os exatos quatro domingos do Tempo do Advento chegamos com todo o universo e com toda a Igreja, gaudiosos, “às festas da salvação”. Com certeza o “hoje” que a Liturgia incansavelmente faz notar, suplanta a um simples advérbio temporal, mas é, sobretudo, um evento teologal, que se justapõe com as primeiras palavras do Salmo II que é o intróito da Missa na Noite do Santo Natal:”Dóminus dixit ad me: Fílius meus es tu, ego hodie génui te ( Sl 2, 7).” Sim! Hoje, maravilhosamente, completaram-se a lei e os profetas. Deus que outrora revelara-se por meio, hoje, no seu Unigênito, mostrou-Se. A imagem do “Senhor dos exércitos” que aclamamos no Sanctus da Missa é encontrada à débil e cândida fragilidade de um recém-nascido.
          Como há lógica neste inaudito e solene evento? Como a nossa humanidade que é sempre levada para sentenciar com larga comprobação e exatidão, pode unir-se aos coros dos anjos e cantar o Glória?  Como nos agremiamos aos pastores de Belém, ignóbeis, que apascentavam as ovelhas para suster a si mesmos e às suas famílias? Ainda: A espantosa presença dos sábios vindos do Oriente que oferecem na pobreza daquele recinto, ouro, incenso e mirra? Eis aí, então, como exclama Santo Agostinho, admirado, a precisa e mistérica resposta: “Ó admirável comércio! O Criador do gênero humano , tomando um corpo e uma alma, dignou-se nascer da Virgem e, tornando-se homem sem a participação do homem, torna-nos participantes da sua  divindade.”
          Defronte às palavras do  Santo Bispo de Hipona, poderíamos, ousar com umas perguntas: Se a natureza humana estava decaída, como, então, pode ser a encarnação do Verbo um “admirável consórcio”? Se é uma troca, quando, a Palavra no-lo toca e, uma troca, deve ser ao menos numa “ligeira concepção”, algo de salutar, o que demos a  Deus? Nossa humanidade? Nossa aventura de viver? Nossos níveis e desníveis? Sim. O Natal ora iniciado e celebrado em sua Oitava e nos dias que seguirão com as demais festas, desponta para o misto desta verdade: Como podeis Vós, Senhor, a quem Moisés havia perguntado o nome para anunciá-Lo aos filhos de Israel e dissestes: “Eu sou”, vos condicionastes à mendicância dum estábulo, fostes reclinado, numa manjedoura, o cocho, onde os animais que se abrigavam no curral comiam? Deus! Somente porque Sóis, vos comiserastes, como assentimos no Credo: “Qui propter nos homines et propter nostram salútem descéndit caelis.” É aqui que podemos desenvolver uma diligente meditação ao insodabilíssimo mistério do presépio.
          No conjunto das leituras proclamadas pela Igreja na Liturgia na Noite de Natal ouvimos a grandeza que a sacrossanta natividade deste Menino trouxe. À primeira leitura que pertence ao chamado Livro do Emanuel mostra a esperança que chegará para o povo que se encontrava oprimido ao cativeiro de Babilônia. Esta lamentável situação para Israel que era como se Deus estivesse ausente e abandonado o seu povo, é vislumbrada pela presença da luz. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria.” Neste versículo, vê-se, com clarividência, uma das muitas profecias messiânicas, o que se sublinha, nos versículos finais da leitura: “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-para-sempre, Príncipe-da-paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, firmando-o, consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça (Is 9, 5 sg.) .
      Com razão os estudos exegéticos observam que as evocações destes nomes que são títulos  apontam para o perene reinado do descendente davídico. A promessa de que a lâmpada da casa de Davi não se apagaria não se cumpre, também, à sabedoria de Salomão. São apenas figuras. “E reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó”, como revelou o anjo Gabriel à Virgem Maria quando anunciada, cumpre-se, hoje, agora, à Noite de Betthelem que sendo a “casa do pão”, é, lá, que se diga, onde já o Verbo de Deus, nascido de Maria Virgem, mostrou-Se carne para a vida do mundo, como posteriormente, proclamar-Se-á.   Mas que aparente paradoxo entre os títulos que se evocam para o Ungido em relação ao ambiente que o presépio nos evidencia. Aquele Menino nascido em Belém é, de fato, o Deus-forte? Não é, por acaso, a fúria de Herodes que deveria ser prevalecida, quando ordena que todas as crianças recém-nascidas sejam cruelmente assassinadas? Qual é a fortaleza que marca o Deus-Menino? É, com justeza, o silêncio e a verdade que se contempla: “Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2, 6-7).
         Neste ponto há duas realidades do presépio que merecem ser notadas. A tradução da Bíblia de Jerusalém não diz hospedaria, de modo que se pode pensar um lugar com muitos cômodos e, que, poderia está preparada para receber os peregrinos que chegassem em Belém em virtude do recenseamento, mas traduz ao invés de “hospedaria” para “sala”. “(...) porque não havia um lugar para eles na sala.” O que pensar e concluir, então? Que ali era a casa dos parentes de José, segundo encontramos à nota de rodapé: “Em vez de um albergue (pandocheion...), a palavra grega Katalyma pode ser designada uma sala, onde morava a família de José. Se este possuía seu domicílio em Belém, explica-se melhor que ali tenha voltado para o recenseamento, levando também a jovem esposa, que estava grávida. O presépio, manjedoura de animais, estava colocado certamente numa parede do pobre alojamento, tão superlotado, que não pôde encontrar um lugar melhor que este para deitar a criança.”
      Ora, irmãos, a realidade do presépio não apenas nos diz de que Deus em seu Filho fez-se pobre para nos enriquecer, mas também, é um caro dado da negação que é dada a Deus o que foi fatídico desde ao dia em que o homem ficou obscurecido pelo Pecado Original. Um fechamento encontrado na narração do Evangelho desta noite em que a família de Nazaré não acha o lugar propício para o advento do Redentor que seria, possivelmente, o da família de José, pode ser aludido a tantos corações nesta Noite do Santo Natal: Qual o intento generoso que deve ser agradável ao Menino Deus? A alegria e a pobreza inenarrável dos pastores, a humildade copiosa dos magos! Hoje, também, quão difícil é encontrar o “lugar” que pode haver correspondência para o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda há quem não encontrou na bússola da vida, a rota para Belém. Ainda há quem não se curve e adore o Divino Infante porque lho prefere dizer que não  há lugar à estalagem! E como fica Jesus, que disse: ”Buscai o Reino de Deus e tudo mais vos será dado por acréscimo?
          Resta para Maria e José o cocho dos animais. Neste sentido é pertinente o que também destaca o Profeta Isaías: “O boi conhece o seu dono e o jumento, a manjedoura do seu Senhor, mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de entender” (Is 1, 3). Paralelo entre a falta de lugar à casa dos parentes de José e o que ouviremos com solenidade na Missa do Dia do Natal: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (cf. Jo 1, 11) É verdade que nos causa impacto a duas dimensões do Presépio: sinete da prepotência humana que não precisa de um Salvador e a insistência de Deus que faz sua kènosis para nos “divinizar” com sua piíssima vinda, conforme cantou-se ao Precônio de Natal; entretanto nos consola a palavra do apóstolo São João, à sua primeira epístola, que se proclamará no Tempo de Natal: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados (cf. I Jo 4, 10).
      Esta, realmente, é a noite da Luz que já, como que num prelúdio pascal, já anuncia que vence todas as trevas que maculam as relações do Homem com Deus. A visita de Deus que permanece conosco para todo o sempre que São Paulo, na segunda leitura desta Missa, faz-nos ouvir- “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” ( Tt 2, 11)- prova-se o teor estritamente presente que a Igreja celebra e que se desdobrará. Deus é conosco e, simultaneamente, é Além de nós, porque é o Filho sempiterno. Nesta noite augustíssima, irmãos, só podemos exultar, com a terna composição de Santo Afonso Maria de Ligório:
“O Bambino mio Divino,io ti vedo qui a tremar,
  O Dio Beato Ahi, quanto ti costò
   l'avermi amato!”

   Santo Natal do  Eterno Deus!

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Ó Emanuel

 "Ó Emanuel (Deus conosco), nosso Rei e Legislador, 
 esperança das nações e dos povos Salvador:
 vinde para salvar-nos, ó Senhor nosso Deus! (Is. 7, 14; 33, 22)"


                                                                                                              
                                                                                                                                                                                                                                                                                              * Por  Lucas Lagasse 

                Irmãos,
       Continuando as meditações sobre as antiquíssimas antífonas maiores, ou antífonas do "Ó", recordaremos, hoje, da última: Ó Emanuel.
Antes, cumpre dizer que são sete as antífonas, pois recordam "os sete dons do Espírito Santo de que o messias está repleto"[1]. Isso o vemos na descrição do Messias, encontrado em Isaías (11, 1-2): "Naquele dia, sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor do Senhor"; bem como na própria afirmação do Cristo (Lc 4, 18-19): "O Espírito do Senhor Deus está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu. Enviou-Me a anunciar a Boa-Nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros, para proclamar o ano da graça do Senhor".
                                       


    Emanuel, Deus conosco. Mas... para que o Verbo de Deus vem a nós? Por quais motivos Jesus Nosso Senhor está conosco? Quais as razões da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se fazer um de nós, e habitar em nosso meio (Jo 1, 14)?
Responde-nos o Catecismo da Igreja Católica (nos parágrafos 457 a 460):
1º) Para nos salvar, reconciliando-nos com Deus (1 Jo 4, 10; 4, 14; 3, 5);
2º) Para que assim conhecêssemos o amor de Deus (1 Jo 4, 9; Jo 3, 16);
3º) Para ser o nosso modelo de santidade (Mt 11, 29; Jo 14, 6; Mc 9, 7; Jo 15, 12);
4º) Para nos tornar "participantes da natureza divina" (2 Pe 1, 4).
         Todos esse motivos dariam tratados teológicos infindáveis. Atentemo-nos para o último, já que o termo Emanuel significa "Deus conosco", e assim somos lembrados da doutrina católica de que Cristo é uma única pessoa com duas naturezas distintas – verdadeiro Deus e verdadeiro homem – além de podermos meditar nessa relação entre Deus e o homem do ponto de vista escatológico (qual seja, o fim, a orientação, de nossa vida na fé).
       O mesmo Catecismo cita Santo Atanásio: "Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses", e Santo Tomás: "O Filho Unigênito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses", para esclarecer o 4º motivo, embasado no magistério de S. Pedro.
Esta troca (a Divindade tornando-se humana, e a humanidade divinizando-se) se nos parece estranha a primeira vista. Contudo, é doutrina, portanto, objeto material de nossa Fé, que essa troca de dons se deu na Encarnação, e se dá na nossa Redenção. Teólogos renomados esclarecem esse mistério, sem contudo exauri-lo, visto que nossa capacidade intelectual não abarcaria tamanha Graça, cabendo-nos aguardar a Visão Beatífica para cessar os mistérios, e vivermos tão somente a Caridade ( 1 Cor 13, 12-13). É o maior presente que podemos receber, é o Natal do Senhor, é também o nosso Natal, o nosso nascimento para a vida da Graça, para a vida divina. Corações ao alto!
       Reza a Santa Madre Igreja, em sua Liturgia, no tempo do Natal: "O admirabile commercium! Creator generis humani, animatum corpus sumens de Virgine nasci dignatus est; et, procedens homo sine semine, largitus est nobis suam deitatem". – "Oh admirável permuta! O Criador do gênero humano, tomando corpo e alma, dignou-Se nascer duma Virgem; e, feito homem sem progenitor humano, tornou-nos participantes da sua divindade!". Admirável "comércio", troca misericordiosa. Ele nos amou primeiro (1 Jo 4, 19).
Como lembrado acima, Nosso Senhor proclamou um ano da graça, como que eterno, sem fim, é o seu reinado - e por essa mesma misericórdia, vivemos um Ano Jubilar Extraordinário, conclamado pelo Santo Padre o Papa Francisco. Aproveitemos esse ano jubilar para aprofundar-nos na Misericórdia de Deus, que está conosco! Vivamos os tesouros, os presentes que Deus nos dá, ofereçamos a Ele nosso coração contrito e humilhado (Sl 50, 19) para que possa nele habitar e reinar!
      O Emanuel estando em nosso meio é aclamado como "Rei e Legislador, esperança das nações e dos povos Salvador".
Reza o Credo Niceno-constantinopolitano: "cuius regni non erit finis" - e o Seu reino não terá fim. Essa repetição da fala do Arcanjo S. Gabiel à Virgem Maria (Lc 1, 36) pelo Credo foi assumida, como nos diz o Santo Padre Emérito, Bento XVI, no século IV, quando todo Mediterrâneo abraçava  o Reinado de Nosso Senhor: "O reino do Filho de Davi, Jesus, se estende 'de mar a mar', de continente a continente, de um século ao outro".[2] Mas, lembremo-nos que Nosso Senhor mesmo nos disse "O meu reino não é daqui (deste mundo) (Jo 18, 36). O reinado sem fim de Jesus Cristo funda-se na fé e no amor, como lembra-nos Ratzinger. E não tem fim, pois o Rei mesmo é eterno, é Deus, Deus conosco, que nos faz participar de seu Reino, de Sua Glória. Glória essa que invade nosso mundo, na humildade virtuosa do Pequeno de Belém, num estábulo, e enche de paz a todos os homens de boa vontade (Lc 2, 12-14).
O Desejado dos povos veio a nós, e suplicamos a Ele: Salva-nos! Salva-nos dos nossos erros, vícios, e paixões. Salva-nos, Emanuel, do egoísmo, da falta de caridade, da tristeza, e do orgulho. Salva nossas nações, imersas no indiferentismo, no paganismo, e nas trevas. Dá-nos esperança, Emanuel, de um mundo novo; "renova a faça da terra" com o Seu Santo Natal!
Aqui encerramos as meditações, com a última antífona antecedente e subsequente ao Magnificat, na Liturgia das Vésperas desses dias precedentes ao Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Invocamos, pois, a bênção, a proteção, o auxílio e intercessão de Nossa Senhora do Ó, cujo ventre imaculado recebeu a visita d'Aquele que os céus não puderam conter, e afirmamos com o grande taumaturgo, Pe. Antônio Vieira:
"E se Jacó e Davi de tão longe reconheciam esta eternidade, como a não compreenderia o coração da Senhora dentro nos OO dos seus desejos, tanto mais intensos quantos mais vizinhos, e tanto mais dilatados quanto mais intensos? Um patriarca dizia: O Sapientia! Outro suspirava: O Adonay! Outro clamava: O Radix Jesse! Os demais: O Clavis David! O Oriens! O Rex Gentium! O Emmanuel! Mas nenhum disse, nem podia dizer: Ó Filho! E se os OO daqueles desejos faziam uns círculos tão dilatados, que eram eternos: — Desiderium collium aeternorum, et annos aeternos in mente habui[3] — que seriam os OO daquele coração e daquela Mãe, que o tinha concebido em suas entranhas e o havia de ver nascido em seus braços: Ecce concipies in utero, et panes Filium[4]."[5]
Ó Maria, Mãe do Amor, preparai meu coração para receber Nosso Senhor!
Feliz e Santo Natal!



[1] Cf. Novena do Santo Natal, da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney, Ed. Dom Licínio, 2013, p. 16.
[2] RATZINGER, Joseph A. A infância de Jesus. São Paulo: Planeta, 2012,, p. 34.
[3] Desejo dos outeiros eternos (Gên. 49,26). — Tive na mente os anos eternos (Sl. 76, 6).
[4] Eis conceberás no teu ventre, e parirás um filho (Lc. 1,31).
[5] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões - Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640). Erechim: Edelbra, 1998. Disponível em: <<http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=37356>>.

Ó Rei das Nações



"Ó Rei das nações
e objeto de seus desejos,
Pedra angular
que reunis em Vós judeus e gentios:
vinde e salvai o homem que do limo formastes!" 


                                                                                         Por Dom Henrique Soares 

        Rei das Nações, Rei das Gentes – assim a Antífona deste dia 22 aclama o Messias que virá. Várias vezes os profetas anunciaram que o Messias seria rei descendente de Davi. Mas, sobretudo com o Profeta Isaías (cf. 11,10) e com os Salmos (cf. 71/72) firmou-se profundamente a convicção de que o Seu reinado não se limitaria somente a Israel: Ele reinaria sobre todas as nações e Nele toda a humanidade seria salva; Ele seria luz para iluminar as nações e glória do povo de Deus, Israel (cf. Lc 2,29-32)!
    Assim, Aquele que o ventre da Virgem gerou não somente realiza as profecias de Israel, mas é também o Desejado dos povos, Aquele que satisfaz os melhores desejos e sonhos da humanidade toda. A Ele todos os povos virão! São Mateus diz isso com a narrativa dos Magos, que vêm de longe seguindo a estrela do Rei dos judeus (cf. Mt 2,1-12); São João exprime essa mesma idéia com os gregos que pedem para ver Jesus (cf. Jo 12,20ss); e São Paulo fala do mistério escondido nos séculos e agora revelado (cf. Ef 3,1ss): em Cristo, os pagãos também são chamados à salvação. Por isso mesmo, o Apóstolo chama Jesus de pedra angular – a pedra que une as duas colunas do arco e as sustenta. Cristo é pedra angular porque une judeus e gentios num só novo povo, a Igreja, Israel da nova e eterna Aliança, cumprimento das profecias de Israel e dos desejos dos pagãos (cf. Ef 2,11ss).
Finalmente, ante tão grande Messias, a Antífona termina com uma súplica surpreendente, bela e profunda: “Vinde e salvai o homem que do limo formastes”. Que significa isso? Que esse Rei dos povos é também o criador e o modelo de todo homem: Ele nos formou do pó da terra, de modo que trazemos em nós a Sua imagem e quanto mais parecermos com Ele, mais seremos nós mesmos! Sim: "Através Dele e para Ele tudo foi criado no céu e na terra; Nele tudo subsiste; Ele é o Princípio, o Primogênito de toda criatura; Ele é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim!"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Ó Oriente

  Ó Oriente
       
      ''Ó Sol nascente justiceiro,
          resplendor da Luz eterna:
          Oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas
           e, na sombra do pecado e da morte estão sentados!''
                                                                                                                                     
                                                                                                                         Por João Marcos
       
           Jesus o Oriente para o qual nos dirigimos, nossos olhos se dirigem a Ele no aguardo de sua vinda. Já nos fala do Oriente a Santa Mãe Igreja em sua liturgia secular celebrando o Santo Sacrifício da Missa na posição física do ''Ad Orientem'', tradição comprovada nas antigas catedrais da Europa que erguia seus altares em direção deste ponto leste. 
     Esta invocação nos recorda que Jesus em sua volta nos trará o dia novo, o dia de Cristo, o dia sem fim. Afinal o Sol nasce do Oriente e é desta nova aurora que devemos esperar o Messias. Cristo veio em condição humana na total misericórdia do Pai e de novo virá em total misericórdia para purificar o mundo, a nova Jerusalém. 
O Dia de Cristo é o nosso dia! Irmãos eu os exorto para olhar o Oriente, não o geográfico, mas sim o Oriente da vinda de Cristo e esperem Cristo tal qual a noiva espera o seu amado. Purifiquem-se , jejuem, confessem e comunguem. Jesus virá para purificar e trazer para junto de si os fieis. Confiemos na misericórdia de Deus e vigiemos pois já nos dizia São Pedro, o demônio anda solto e ruge como um leão em loucura para devorar as almas.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Ó Chave de Davi




     

   
                                                                            Por Jonatan Rocha do Nascimento


''Ó Chave de Davi e cetro da Casa de Israel, 
que abris e ninguém fecha; fechais e ninguém abre: 
vinde e libertai da prisão o cativo assentado nas trevas 
e à sombra da morte.''

      Neste solene domingo em que celebramos o IV Domingo do Advento, a Igreja em entoa um sublime canto Àquele que espera, aclamando-O de “Chave de Davi e Cetro da Casa de Israel”. Eis que Ele está às portas. Eis que a humanidade está prestar a receber sobre si o orvalho da misericórdia.

       A “Chave de Davi” virá para nos reconciliar e nos dar acesso à morada celeste. Ele virá não só com a chave sobre os ombros, como nos atesta o livro do Apocalipse, mas ele mesmo será a chave que abrirá por toda a eternidade as Portas da Jerusalém Celeste, trazendo em seu encalço aqueles que o reconhecem como Filho de Davi, a realização encarnada da promessa de Deus Pai. Ele, como Pastor e Sacerdote Eterno trará em suas mãos o Cetro que liderará o Novo Israel, a Igreja, sua Esposa, na qual somos integrados pelas águas do santo batismo.

     Cristo Jesus é, portanto, aquele a quem foi dado o poder de reunir todas as coisas Nele, em virtude de sua Paixão (cf. Ef 1, 3-10), a fim de que fossemos readmitidos no sagrado convívio de Deus. Desde já, portanto, aquele que se assenta à sombra deste amorosíssimo Senhor é retirado das trevas do erro e do pecado que, de fato, são verdadeiras prisões de morte e desolação. A chave para nos abrir os olhos e esclarecer a visão, o cetro para guiar-nos no caminho da paz.


Que esse Rebento da descendência de Davi socorra-nos diuturnamente, de modo que corramos ao seu encontro e Ele mesmo nos introduza em seus aposentos (cf. Ct. 1, 4). Vinde Soberano e Justo, Santo e Verdadeiro, Jesus Cristo, vinde abrir-nos as excelsas realidades, vosso Céu.

Ó Raiz de Jessé










"Ó Raiz de Jessé,
erguida como estandarte dos povos,
em cuja presença os reis se calarão
e a quem as nações invocarão;
vinde libertar-nos, não tardeis mais!" 

                                                                            Por Dom Henrique Soares da Costa

Hoje, Aquele que vem é saudado e invocado como Raiz de Jessé, aquela mesma de que fala Is 11,1, o Descendente prometido a Davi, o Rei eterno de Israel de Quem tanto falaram os salmos e os profetas.
“Naquele dia, a raiz de Jessé, que se ergue como um sinal para os povos, será procurada pelas nações, e a sua morada se cobrirá de glória. Ele erguerá um sinal para as nações” (Is 11,10.12a).
Mas, misteriosamente, de modo profundo e cheio de sentido das coisas de Deus, a antífona mistura esse Messias Rei glorioso com o Servo Sofredor, humilhado e morto por nós pela salvação do mundo:
“Eis que o Meu Servo há de prosperar, ele se elevará, será exaltado, será posto nas alturas. Exatamente como multidões ficaram pasmadas à vista Dele – tão desfigurado estava o Seu aspecto – e a Sua forma não parecei a de um homem – assim agora nações numerosas ficarão estupefatas a Seu respeito, reis permanecerão silenciosos, ao verem coisas que não lhes haviam sido contadas e ao tomarem consciência de coisas que não tinham ouvido” (Is 52,13-15).
Eis o misterioso plano de Deus, a misteriosa lógica do Evangelho: o esperado Descendente de Davi não viria coberto de glória, mas pobre e humilde Servo sofredor, que reinaria pela cruz e, por um ato de amor total e puro, até o fim, libertaria toda a humanidade que o acolhesse e triunfaria na glória por toda a eternidade.
Este era o sonho de Deus, isto foi o que o nosso Salvador, Rei-Messias realizou, esta é a realidade da nossa fé e a causa da nossa esperança.
Bendita seja a Raiz de Jessé, o Cristo nosso Deus!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Ó ADONAI

II Antífona- Ó ADONAI, guia da casa de Israel que aparecestes a Moisés na sarça ardente e lhe destes a vossa lei sobre o Sinai, vinde salvar-nos com o braço poderoso
Meditação
     O nome de Deus, de reverente, o é impronunciável. O judeu, jamais, di-Lo, pois O é sacratíssimo. Daí, também, a referência do quarto mandamento do Decálogo: "Não pronunciarás o nome do Senhor, vosso Deus, em vão (cf. Êx 20, 7). Nome, nas sagradas escrituras, é sinal de conhecimento, de sê-lo íntimo. Só Deus pode nominar e chamar pelo nome, o homem, em relação a Ele, não! Logo, agora, qual é o nome de Deus? 
Tanto para os judeus, quanto para nós, da descendência de Abraão, seguimos a mesmíssima certeza. Vosso Nome é por demais Santo para que o balbuciemos, ao menos! Vosso Nome, ó Deus, é "terrível", no sentido de que sois o Onipotente, o Valoroso, o Poderoso nas batalhas, o Valente Guerreiro. Vê, Senhor! Quem pode dizê-Lo?
   A propósito desta Santidade, hoje, a segunda Antífona traz como uma evocação a teofania no Sinai: "que aparecestes a Moisés na sarça ardente". Vê-se as labaredas e a sarça não se consumia e, neste momento, a voz de Deus é ouvida. Para recordar: Moisés era gago. Treme e teme quando Deus o chama para enviá-lo a Israel. E, então, no meio da revelação, da aliança que fará com Moisés, este o pergunta:"Quando eu for aos israelitas e disser: 'O Deus de vossos pais me enviou a vós; e me perguntarem:'Qual é o seu nome?', que direi?" Disse Deus a Moisés: "Eu sou aquele que é." Disse mais: Assim dirás aos israelitas:EU SOU me enviou a vós." Disse Deus ainda a Moisés: "Assim dirás aos israelitas:"Adonai, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, é assim que me invocarão de geração em geração ( cf. Êx 3, 13 sg.).
      "Adonai" significa:" Meu Senhor". Naquela teofania, mostra, para o libertador, quem É. E, a identidade, está às palavras iniciais da Antífona:"guia da casa de Israel." Que pode significar? Que é, somente, pelo Nome de Deus- o Senhor-Adonai- que o seu servo poderá anunciar para o Povo o novo tempo que se iniciaria com a libertação -porque é Ele quem "afogará o exército de Faraó." É pelo Seu Poder que virá a passagem, Ele, o "Eu Sou!" 
A antífona hodierna lembra-nos, ainda, que Moisés recebe a Lei, as duas tábuas, no Monte Sinai. São elas, como canta o salmista, "mais doces que o mel que sai dos favos". Esta Lei que é obediência e deleite à vontade de Deus. 
E para nós, cristãos?
    Qual o porquê de, nesses dias, recordar o Adonai? Quem é agora, o nosso Adonai? Quem é o "Meu Senhor".? Este "Kyrie", "Domine", "El -Shaddai"- é Jesus de Nazaré. Ele, o Novo Moisés, que nos arrancará das cativas correntes do Pecado, nascendo Homem verdadeiramente, o é Senhor de tudo e de todos. É o Cristo, "quem recebe o nome de IESHUÁ", que nos salvará dos nossos pecados, pois comiserou-se conosco. É Ele quem, com a luz da sua santíssima natividade, congregou a todos que deixam-se guiar. Se para o primeiro Israel, o nome de Deus era intocável, nós, pela vinda do Seu Messias- "quem me vê, vê o Pai", diz a Filipe, podemos concluir: O Meu Deus tem uma face! O Meu Deus quis afeiçoar-se a mim, nascendo em humilde condição, o "meu Adonai'', é o Adorado e Salvador Jesus Cristo.

Ó Sabedoria

Meditando a I das antífonas do "Ó"
     Hoje, a Liturgia, canta com todo o seu Coração, a primeira das chamadas "antífonas do Ó", introduzidas pelo Papa São Gregório .Quão comovente, irmãos, é, nestes vídeos que há no Youtube e, sobretudo, ouvi-las cantadas pelo coro monacal, sustentada pelo toque do Órgão. Aí, de per si, a Liturgia vai chamando a atenção nossa, de todos os cristãos e homens de bem, à preparação imediata para a augusta natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Impressiona-nos, hoje, evocar o Deus Emanuel de "Sabedoria do Altíssimo.'' 
Neste evocar parece haver um contraste que, na verdade, é um paradoxo. Chamamos a Jesus de Sabedoria e, de repente, vê-nos as cenas: O Menino Jesus reclinado no presépio, ladeado pelo burrinho, pelo boi. Grita, a Igreja, "O Sapientia" e, ei-la acolhida pelos ignóbeis pastores de ovelhas, pela gente rude de Israel. Aclama-se "O Sapientia" e, ei-la, sem lugar para nascer no meio dos homens, "porque não havia lugar na hospedaria". 
     
      Se a Sabedoria que é uma prefigura do Verbo do Pai, o "princípio ordenador" que dá a coerência para todo o homem, se a Sabedoria, é o Onipotente que nos dará o discernimento necessário para que o reto caminho seja conhecido e trilhado, porque se mostrou tão débil? Por que se mostrou tão necessitada da aquiescência do homem? Por que a Sabedoria se rebaixou? 
Essa Sabedoria é o Logos Divino, que, preexistente, no seio da Trindade Eterna, encarnou-se para que vivendo a aventura de adão, exceto o Pecado, pudesse nos reconduzir para o que havíamos perdido. Com razão, após dizer, a Igreja, que esta "Sabedoria" é a palavra que "faz", com o (saístes da boca do Altíssimo), na expectação do nascimento do Filho da Virgem, faz a devida petição:" oh vinde ensinar-nos o caminho da prudência". Que ousada súplica, esta! 
     
     A natureza nossa, concupiscente, inclinada ao gosto pessoal, ao aprazer-se, à desordem, pede aos céus que dê aquele que é um dos dons do Espírito Santo, recebidos na Crisma. A vinda do Deus-Messias que, segundo São Paulo, fez-se "fraco com os fracos", traz o que se chama a vida do Espírito que se opõe à vida da carne. Ali, no Infante, adorado e amado- 'consubstancia Triuna" esta, de fato, a sabedoria que nos ajuizará para não andar pelos caminhos de outrora, que, de certa maneira, nos cenários da recusa da Família de Nazaré à hospedaria, a própria realidade do Presépio, a fragilidade do Menino e da sua Mãe, os pastores... tudo, absolutamente, indica o Novo rumo que Ele, o Sapiente Deus, traz-nos, a partir do que é considerado esterco. A Sabedoria enaltecida neste dia pela primeira Antífona do "Ó" não é, senão, o rompimento com a ignorância que se chama Pecado. Vinde, ó Sabedoria, nos ensinais o caminho da prudência!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria

     


  Caríssimos irmãos,

           À esteira do Santo tempo do Advento a Igreja, hoje, pausa o seu roxo que lembra a vigilância e a expectativa para a vinda do Senhor e, então, orna-se com o branco, próprio das festas e solenidades da Virgem Maria, pois celebra neste hoje a solenidade da sua imaculada concepção. Esta verdade de fé é contemplada em todos os textos ora proclamados na Santa Missa, quanto, também, aos que compõem as horas canônicas do Ofício Divino. De modo singular, impulsiona-nos, destacar, a terceira estrofe do Hino de Laudes que define o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora: Nascemos todos manchados pela culpa original: somente tu e teu Filho sois livre de todo mal. Aqui, eis, o motivo basilar pelo qual a Igreja prorrompida de júbilo saúda a Mãe de Deus com as mesmíssimas palavras que vieram dos céus à terra e que são proclamadas no texto hodierno do evangelho segundo São Lucas: Ave, grátia plena; Dóminus tecum: benedícta tu in muliéribus (cf. Lc I, 28)
         O que é celebrar a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria? Significa que Maria a quem veneramos “aurora da salvação” foi concebida no ventre de Santana sem a nódoa primeira do Pecado Original, conforme podemos constatar em uníssono pela cantata ou récita do Ofício: Sempre preservada, Virgem do pecado. Antes que nascida fostes Virgem santa no ventre ditoso de Ana concebida. Com esta certeza que não se trata, duma devoção popular, apenas, todavia, faz parte do cabedal do autêntico magistério da Igreja, cremos e professamos que a Mãe de Deus foi gerada às entranhas de sua mãe sem nalguma marca do pecado porque foi Maria, deveras, a Arca que não mais traria o decálogo pelo qual Israel obedeceria aos preceitos de Deus, senão em toda a sua vida, que, sendo a “primeira” de entre os redimidos, engendrou e concebeu o Deus de Israel, fecundada pela sombra do Divino Espírito Santo.
           Na oração, dita Coleta, a primeira presidencial, a Igreja expressa com exultação o mistério que carrega a perfeição cândida da Virgem nascida sem pecado: Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem, preparastes ao vosso Filho digna morada, nós Vos suplicamos que, assim como pela previsão da morte desse mesmo Filho a preservastes de toda mancha, façais, por sua intercessão, que também nós cheguemos à vossa presença, purificados de toda culpa. Nesta eucologia, irmãos, entendemos a participação direta de Maria na economia da salvação. Imune de toda mancha, a Imaculada, se encontra presente, fio a fio, ao que Deus preparava para a descendência dos nossos primeiros pais. E é aqui que Maria nos antecederá. Da descendência de Eva, ou seja, humana, o anjo Gabriel a saúda na anunciação por Ave e, pasmemos sempre, uma saudação que muda em plenitude toda a nossa sorte.
       Um outro aspecto que podemos sublinhar à oração litúrgica é que não se pode compreender Maria sem o objetivo primordial da sua missão: Gerar Deus para o mundo que estava desgraçado. Maria Santíssima, jamais, existiu para ela, foi, sim, uma diuturna entrega  Àquele que aniquilar-se-ia para tirar o fardo do pecado. Naquele seu, Fazei o que ele vos disser, em Caná da Galileia, a Virgem de Sião, que a princípio não entende o que o anjo diz-lha, se compendia o que ela sempre guardou: foi feita serva do Senhor.
          Observemos que intrínseco à Conceição da Mãe de Deus- fato que é ab eternum- o Senhor, não obstante, pede permissão para a jovenzinha de Nazaré. Neste sentido, portanto, imaginamos como Deus chegou à história de Adan, que, sendo argila, estava aos cacos. Deus nos salvou a partir do preclaro silêncio de Maria que se verifica por sua total abertura ao Outro, consoante ao seu faça-se. Com a liberalidade que a Senhora mereceu, podemos também, perceber, o início da kènosis, do rebaixamento de Deus. E isto pode ser entendido pelas dulcíssimas palavras de São Bernardo de Claraval,  duma homilia para o Advento, condensada pelo Papa Bento XVI em A Infância de Jesus: Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar no novo mundo; bate à porta de Maria. Tem necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um “sim” livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo, Deus se tornou dependente do homem; o seu poder está ligado ao “sim” não forçado de uma pessoa humana (cf. A Infância de Jesus, p. 37).
          A colossal abordagem do Doutor Melífero nos conduz aos primeiros capítulos do Livro do Gênesis. Toda obra do Criador recebe uma exclamação e Deus viu que era bom. Fá-los, homem e mulher, à integridade, perfeitos. Não lhes pede permissão para insuflar às narinas o Espírito que dá a ânima. Proibi-lhes que não comam do fruto da árvore, o quê, seduzidos, desobedecem e comem. Isto porque a liberdade, a inteligência e a vontade que estavam para os critérios fundamentais para o que não era pecar, são enganados pela astúcia do Diabo e, agora, absolutamente, todos, estavam entregues à mercê da eterna condenação. A liberdade, vontade e inteligência únicas, inferidas, incólumes pertencem   à Maria e é, aqui, pela decisão desta   Nova Mulher, que estava prometida em casamento a José, Deus poderia operar os devidos prodígios, dá para a humanidade envelhecida, o Novo Adão.
     De certa maneira, a misteriosa liberdade de Maria Virgem, é antevista no Protoevangelho: Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar ( cf. Gn III, 15). O que se pode pensar, responderá, de forma inédita, quase que a servir-se da ironia, enquanto figura de linguagem, o santo monge de Claraval, citado por Bento XVI: Ora, Bernardo afirma, que, no momento do pedido de Maria, o céu e a terra como que suspendem a respiração. Dirá “sim”?! Ela demora... Porventura lhe será obstáculo a sua humildade? Só por esta vez- diz-lhe Bernardo- não sejas humilde, mas magnânima! Dá-nos o teu “sim”! E, agora, corresponde com maestria, Ratzinger: Esse é o momento decisivo, em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão sublime da liberdade humana (ibidem). Se o nome de Nossa Senhora tem por significado “a escolhida”, no ínterim da sua conceição, a liberdade que haure Deus para o homem, outrossim, é concedida a ela sem reservas e, ainda que ficasse perturbada pela saudação celestial que se curva à sua humildade, não haveria vez para outra desobediência porque encontrou graça diante de Deus. Quão inaudito é tamanha contemplação: Ao passo que o Senhor se inclina para Maria, esta, faz-se serva e por sua vez, dá seu consentimento a Deus e é entre o Alegra-te, Cheia de Graça e o faça-se em mim conforme a sua palavra que Deus é o Emanuel; para que ouvíssemos hoje a salvação entrou em tua casa.
      Maria Santíssima possibilitou ali, conforme reza-se na tradição dos Santos Padres entre o poço e a sua casa dá início à nova história antes prenunciada: Uma virgem conceberá e dará a luz (cf. Is, VII, 1) a nova história, pois, que não se limita à anunciação e aos demais eventos, todavia, celebrando nos augustos mistérios pelos méritos de Cristo, a sua imaculada conceição, fica clarividente o que a Igreja, pela pena de São Paulo, na epístola, faz-nos escutar: Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob seu olhar, no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de sua vontade(...) (cf. Ef I, 5-6).
          A solenidade da Imaculada vista pela proclamação paulina desse hino cristológico, concentra a principal razão de o porquê venerá-la, reconhecê-la e proclamá-la a todas as gerações, Santíssima: porque foi, Maria, o ponto inicial para que o Onipotente se comiserasse e, a preservando, “recapitulasse” a  nova e mais perfeita estirpe, selada pelo Seu Filho, na aliança do seu sangue, cujo testamento, pode ser aplicado ao que diz São João no evangelho: Pois amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único (...) pois Deus não enviou o Filho ao mundo para julgar, mas para que o mundo seja salvo por ele( cf. Jo III, 16-17).
     Essa missão de Jesus para nos salvar que é livre e obediência ao Pai-Deus, no-lo chegou pela Mater Misericordiae que sendo consagrada desde antes de todas as coisas permitiu que fazendo Nela grandes coisas, também, nós, por sua maternal intercessão cheguemos à estatura de Cristo, sejamos imaculados. A Vós, Senhora Santíssima, recorremos, não nos abandoneis, mas nos segure em vossas mãos maternais para gozarmos daquela glória para a qual fostes predestinada imaculada e concebesse o Verbo de Deus.


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1-Bíblia de Jerusalém;
2- Missal Quotidano; D. Beda Keckeisen O.S.B, 1958- Oração de Coleta na forma extraordinária do Rito Romano
3- Missa Quotidiano; Paulus, 1995- Extratos da segunda leitura
4- Liturgia das Horas; Paulus, 1994- vol. I- Tempo do Advento
5- A Infância de Jesus; Planeta; Editora Planeta- Joseph Ratzinger (Bento XVI)


sábado, 5 de dezembro de 2015

II Domingo do Advento-''Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas" (cf. Lc III, 4)

   
                                                                                     Por  André Alves, Noviço Estigmatino



Irmãos,

  Celebramos hoje o II Domingo do Advento e somos convidados por João Batista à uma mudança radical de vida, à conversão para o perdão dos pecados. João anuncia que o próprio Deus, em Pessoa, faz-se presente, que chegou o tempo de salvação. Jesus, o Messias esperado pelo povo, a esperança e salvação de Deus, está próximo. Deus vem salvar as nações e sua voz ressoa em nossos corações.
Na Primeira Leitura, Baruc, o profeta do exílio, o mesmo que denunciou os pecados do povo, que fez uma súplica pela libertação, que exortou a necessidade da prática da lei para não haver castigo, agora anuncia o retorno a Jerusalém com o fim do exílio de Babilônia. Mudar a veste, tirar a roupa de luto e vestir-se de glória simboliza a libertação que se aproxima, pois Deus comunica a sua justiça, defende e restabelece o direito de Jerusalém. O novo nome da cidade: “Paz-da-justiça e glória-da-piedade” significa que o povo respeitará a Deus e dala brotará a paz. O povo que antes estava estendido, prostrado na dor, agora se levantará para sair do fechamento e olhar para o alto, arrumando os caminhos para a chegada de um novo tempo.
O Salmista expressa sua ação de graças pelo retorno do cativeiro. A alegria de voltar para sua terra é tanta que parece um sonho, algo irreal. As obras do Senhor são tão magnificas que até os pecadores reconhecem suas maravilhas. De fato a realidade foi transformada: de lágrimas para alegria, de choro para cânticos de louvor.
Na Segunda Leitura o Apóstolo Paulo dá graças a Deus pela colaboração da comunidade dos filipenses na difusão do Evangelho. Ele ainda pede que Deus aperfeiçoe a sua obra, que sejamos santos e sem defeitos e que, os dons da caridade que procedem do justo conhecimento de Deus, ajudem no discernimento, para que a maturidade cristã dê frutos de justiça conforme a vontade de Deus. Pois assim procedendo o Senhor nos encontrará preparados.
No Santo Evangelho, inserido num contexto histórico, João Batista, a voz que clama do deserto, apresentado como profeta, oferece uma proposta nova para o povo que esperava pelo Messias: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Aterrar os vales rebaixar as colinas era um costume dos romanos na construção das estradas para a passagem do imperador, um tornar o caminho mais suave. É isto que deve ser feito no caminho de conversão: tornar a vida acessível para o projeto de Deus, modelar-se segundo os seus preceitos.
Assim como Isaías indicava a transformação do coração para acolher o Deus Salvador e pregava a restauração de Israel, com o regresso dos exilados da Babilônia, João Batista prega um batismo de conversão para o perdão dos pecados. O seu batismo é um rito que chama à mudança radical de vida. Ele também proclama que todos os povos verão a salvação de Deus que se dará em Jesus Cristo, que pela sua Páscoa garante vida nova.
Preparar os caminhos do Senhor, endireitar as veredas é moldar a vida segundo os divinos ensinamentos, deixando de lado o que impede de nascer para uma vida nova, para assim trilhar os caminhos da justiça, dom oferecido a todos.

   
    Aproximando-se do Natal se faz necessário olhar para o Oriente, isto é, para o nascer do sol, para Cristo que vem e se encher de seu brilho, pois assim como João que clama no deserto de nossas vidas e chama à conversão, à mudança de vida, Cristo por sua Páscoa nos oferece a salvação de Deus e quer nos enriquecer com os dons.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

As borboletas não me dizem em nada sobre o que é o Matrimônio

                                                                            Por: André Fernandes Oliveira

          Uma agência de cerimonialistas reuniu-se para trazer mais uma “novidade” para o casamento: congelar borboletas e soltá-las quando, por exemplo, os nubentes deixarem o altar. É um incremento para ornar o “felizes para sempre” ou quiçá a frívola consciência do “que sejam felizes enquanto dure”. Além de atitude patife ser considerada um crime, também o é, para ser pensado a necessidade se aquele casal é sabido da deliberação que deram à priori para si mesmos, depois para a Igreja, à presença do Ministro Ordenado e para a assembleia ali reunida. Sabem, eles, de fato o compromisso que assumem a cada dia e que somente a morte pode separá-los? São cientes, ao menos, do que pode significar a palavra Matrimônio e onde a Igreja se apoia para dá a garantia que se trata dum dos sete sacramentos instituídos?

      Não é alguma novidade para nós que há uma exacerbação quando diz respeito aos preparativos para receber o Sacramento do Matrimônio. Preocupam-se, atenção, não com um conjunto que deve denotar para a essência, todavia marginaliza-se o sacrum e supervaloriza-se o profano. Além deste dado há de se notar aqueles noivos que se esperneiam quando vão ao sacerdote e, talvez sem o mínimo de noção do que é o Matrimônio, relativizado como um “casório-social” onde há os convivas, comidas, bebidas, o rito de jogar o buquê, as danças etc e aquele lhes mostram que o repertório escolhido não é compatível com a liturgia sagrada que acontecerá.

                

          O caso das borboletas congeladas e soltas para voar sobre a cabeça dos recém-casados só vem confirmar que nem todos são chamados para o Matrimônio e é preciso uma maturação entre os noivos para recebê-lo. Neste sentido, portanto, vale trazer a lembrança a observação do Papa Francisco quando, voltando para Roma, do Encontro das Famílias em Filadélfia, disse no voo aos jornalistas: Para ser um sacerdote é uma preparação de oito anos, mas para se casar, quatro cursos são feitos. Há algo de errado. A observação do Santo Padre visa em se notar: Como os noivos são preparados? Qual a história, que, não obstante suas diferenças, levou-os à liberdade em receber um ao outro através dos vínculos do Matrimônio? Há também de se reiterar a reflexão de Sua Santidade, consoante ao crescente número de divorcia



     Contrariando a deturpação de que os noivos casam-se para serem felizes, ao ponto que Deus torna-se um “elemento’’ estranho ou secundário, o Catecismo Maior de São Pio X, no número 836, nos responde o que é “conditio sine qua non” para o que os nubentes farão. Assim, então, aponta a sã doutrina da Igreja: Quem contrai Matrimônio deve ter intenção:1- de fazer a vontade de Deus, que o chama a tal estado; 2- de percorrer nele a salvação da própria alma; 3- de educar cristãmente os filhos, se Deus lhos der. Estas são as prerrogativas essenciais para receber o Matrimônio que é um sacramento de missão.


          É necessário, neste ínterim, determo-nos na segunda intenção querida pela Igreja à consciência dos contraentes. Já que os sacramentos é a perpetuação da obra salvífica de Jesus operada na Cruz que continua com o Espírito Santo em cada um que tem a chamada graça própria, quando o casal se recebe como esposos- marido e mulher- eis, aí, que Deus os uniu fazendo-os “uma só carne” o que pode ser aludido ao que diz São Paulo na epístola aos Efésios: Assim como a Igreja está sujeita a Cristo, de igual modo as esposas estejam, em tudo, sujeitas aos seus maridos. Maridos, cada um de vós amai a vossa esposa, assim como Cristo amou a sua Igreja e sacrificou-se por ela (cf. Ef V, 24 sg.)    Ainda que esta não seja a fundamentação basilar para o Matrimônio, ela se torna de capital importância para averiguarmos que Jesus elevou a união esponsal ao seu amor pela Igreja, ou seja, foi até a Cruz, ao aniquilamento da vontade humana para que na obediência ao seu Pai-Deus a salvação chegasse até ao homem. E é, irmãos, com os olhos fixos no Cristo que um casal poderá, com certeza, compreender de todo o coração o que os levou a unirem-se. Disto, pois, pontua o Catecismo da Igreja Católica, acerca do que há de mistério pela união entre os esposos: Deus, que criou o homem por amor, também, o chamou ao amor, vocação fundamental e inata de todo o ser humano. Porque o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus que é Amor, tendo-os Deus criado homem e mulher, o amor mútuo dos dois torna-se imagem do amor absoluto e indefectível com que Deus ama o homem.( CIC n. 1603-1065) O que refere o Catecismo corrobora a definição de Matrimônio

 Um casal que é abençoado e bendiz a Deus, colocando-o em primígena ordem em suas vidas, sempre reportará ao amor Divino. E amor no ato que o significa: entregando-se um ao outro, consoante receberam-se diante do Altar de Cristo. O Matrimônio não é uma espécie dos contos maravilhosos e tampouco haverá fórmulas para se fazer a felicidade. Um casal que se honre não deve iniciar uma vida e história ,“numa só carne”, com tais fantasias, sê-lo-ia debalde! Seria, como disse Jesus, “atirar pérolas aos porcos” ou, em questão, guardar as borboletas para a decoração e que, sem finalidade, mas com um final infeliz, estaria agindo conforme o insensato que construiu a casa sobre a areia. A finalidade do Matrimônio que já é expressa pelas próprias intenções dos nubentes é a santificação que passará pela “porta estreita”.  Que as tendências do mundo não maculem a ordem do Senhor: O que Deus uniu, o homem não separe!

           

                      

           

sábado, 28 de novembro de 2015

I Domingo do Advento- Vigilância, Conversão e Contrição: Vinde, Senhor Jesus!

Caros irmãos,
     

       
        Em comunhão com a Santa Igreja Romana iniciamos novo Ano Litúrgico com o Domingo, no I do Advento. Todo o marco do Mistério e da vida cristã é uma circunferência que gravita num único centro: Jesus Cristo. O Rei que o Apocalipse de São João no-lo disse que é a " Testemunha fiel" , mas não apenas, é o Alpha e o Ômega. Ao pôr do sol deste Sábado, que já é o Dia do Senhor, vamos com toda a Igreja, "esperar" o que já chegou e que sempre vem chegando em cada circunstância que atravessamos. A vivência do Advento em seu ângulo escatológico atingirá o seu clímax, bem lá, à Manjedoura, para nos recordar que o Eterno chegou ao Kronos para trazer o Kairós e que aí, nesta percepção de que a conversão é contínua, O aguardamos, como Justo Juiz, Pastor-Rei, Esposo, Prêmio de quem O colocou, Deus, Senhor e Companheiro.


          O vocábulo Advento designa em si mesmo o que continuamente celebramos na Sagrada Liturgia :Alegre espera. A mística que proporciona  a Igreja neste início de Ano Litúrgico e, concomitantemente, novo tempo litúrgico, sinaliza o termo de sua consumação final quando vier O Dia do Senhor. A propósito desta verdade de fé que professamos no Credo, assinala, a primeira antífona das I Vésperas: Anunciai entre todos os povos: Eis que vem nosso Deus: Eis que vem nosso Deus, Salvador. A Liturgia que é um penhor do louvor celestial, nos põe, no Advento, no tom da serena e operante "vigilância". Espera-se a chegada de Deus que vem e traz a salvação, mas, é bem verdade, que o " vigiar" , muitas vezes, não é acompanhado do autêntico espírito de conversão e contrição. Neste sentido, pois, a pregação de João Batista é uma antecipação do convite radical e inédito de Jesus, porque chegou o Reino dos Céus. 
        
      Os textos que hoje são proclamados pela Igreja podem ser contemplados à lume do tripé que referimos: vigilância, conversão e contrição. O profeta Jeremias nos situa no fato histórico do cativeiro de Babilônia. A infidelidade de Israel, à Aliança, repudiando o Deus verdadeiro, conduziu a um próprio abandono. A sorte do Povo de Deus era justamente a "esperança" do que poderia vir. Exilado, o quê, a descendência ,que oferecia as primícias e os sacrifícios outros, entregaria a Deus? E eis, é aí, numa situação de crua desolação que a promessa pela boca do profeta trará ânimo e vigor para Israel: Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra (cf. Jr XXXIII, 15). Ora, caríssimos irmãos, o que Jeremias profetiza não é um acontecimento pormenorizado e obsoleto no Velho Testamento, mas é, um evento presente que viveremos e celebraremos. Este germe que vêm de Davi é o Messias. É Deus que " visitou" o exílio do pecado e a iniquidade para trazer a justiça que é salvação. 

        O paralelo do cativeiro de Babilônia com o Tempo do Advento, faz-nos trazer à mente o que dizia o apóstolo São Paulo :outrora éreis sem Messias. Deus chegou, continua chegando e nos convida à metanoia, para que o seu glorioso retorno que é comparado nos Evangelhos como o Ladrão que não esperamos, como o luzeiro de um relâmpago que alumiará toda a nossa consciência, não seja " surpreendido" de maneira trágica, mas sim, pelo que semeamos pelas sendas da caridade e da verdade, seja possível àquela espera das virgens com suas lâmpadas pelo Noivo, de maneira tal, que seja a nossa alegria o que ouvimos no Evangelho: ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem      ( cf. Lc XXI, 36). É neste intento que aprofundamos a passagem do Evangelho de Lucas que nos abre o Ano Litúrgico e sê-lo-á narrado em seu decurso. 
       
      O tom apocalíptico da teologia lucana deve ser entendida em dois contextos para termos a precisa resposta de qual o porquê iniciarmos o Advento com essa linguagem. A princípio é preciso guardar que no Antigo Testamento este tipo de gênero já é desenvolvido no Livro de Daniel que podemos ouvir a Igreja proclamar como primeira leitura à Solenidade de Cristo Rei. Daniel é o primeiro a utilizar a expressão Filho do Homem. Segundo o dicionário bíblico esse termo designa o Rei que há de vir. Faz o profeta com referência ao sonho à cova dos leões, e, que Aquele ( filho do homem) ultrapassa as realidades imanentes, é o que é o mediador entre os homens e o Ancião, figura que evoca Deus, a Sabedoria. A situação que insere Lucas ao seu escrito, seguindo os sinóticos outros, é a destruição completa do Templo de Jerusalém pelo Império Romano no ano 70 d. C. Este fato que é um marco para os primeiros cristãos era um sinal e uma catequese de que agora se aproxima com mais brevidade o Dia do Senhor. Aquele que nasceu da Virgem Maria, que anunciou o Reino de Deus, agora, voltará e julgará os vivos e os mortos. Com a destruição completa do Templo, história, a Igreja, apoiada nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição, usou para apregoar a promessa do próprio Jesus que voltará. Desta maneira, portanto, não podemos lê tais linhas do Evangelho aquém da única certeza: Ele virá. Naquele Dia assim como outrora o Templo fora destruído, que, para Israel, era o centro do culto, só permanecerá, agora o filho do homem e, defronte a Ele, é que toda a Humanidade será julgada, responderá e receberá se edificou sua casa sobre a rocha. 

       Iniciarmos com a Igreja  o tempo em preparação para a Solenidade do Santo Natal, é recobrar o temor que a Liturgia expressa numa das estrofes do Hino de Vésperas : Um dia voltareis, Juiz e Rei de tudo. Oh dai-nos hoje a graça, na tentação escudo. É com os intentos de que um dia "compareceremos às claras no tribunal de Cristo" que vigiamos com as nossas obras para que o homem velho seja sepultado é assim, por conseguinte, sigamos a exortação do apóstolo São Paulo, ouvida na epístola dessa Missa que abre o Advento: (...) meus irmãos, eis o que vos pedimos (...) no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus (...) Fazei progressos ainda maiores! Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus (cf. I Ts III, 12). 
   Que o Tempo do Advento, caros em Cristo, não passe com o natal  fugaz, mas seja, a certeira petição que a Igreja faz à eucologia inicial da Sagrada Liturgia: o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que os mesmos olhos que o verão no presépio possam contemplá-lo na " visão da sua glória"!