(Ano B – 21 de outubro de 2012)
I Leitura: Is 53,10-11
Salmo Responsorial: Sl 32(33),4-5.18-19.20.22
(R/.22)
II Leitura: Hb 4,14-16
Evangelho: Mc 10,35-45 (Os filhos de Zebedeu)
Queridos irmãos,
Em nossa jornada,
temos a tentação de esquecer qual o real peso que de nós é exigido por
carregarmos o nome de cristãos. Tal atributo a nós dado, imerecidamente, que é proveniente
da bendita missão de Nosso Senhor, faz-nos assemelhar a ele. Obviamente,
cristão significa seguidor do Cristo, que, longe de ser uma ideia, é uma Pessoa,
é o Filho de Deus que, tal como nos afirma o Evangelho deste domingo, veio a
este mundo para servir e não para ser servido (cf. Mc 10,45), dando a sua vida
como resgate para muitos.
A atitude de ser
cristão faz com que, sendo seguidor de Cristo, não nos esqueçamos das cruzes,
mesmo quando estas podem ser esquivadas em um caminho alheio ao de Deus. Sim,
diante de certos instantes de nossa existência, muitas são as cruzes que
enfrentamos, ou melhor, que carregamos. Em algumas outras ocasiões
parecer-nos-á mais fácil e cômodo a opção avessa a Deus, em um desejo de uma
vida mansa e sem sofrimentos, do que uma vida enraizada com Jesus na sua cruz.
Sofrer e servir. Aqui,
na Liturgia da Palavra, essas duas ações estão concatenadas, unidas. Para que
serve o sofrimento? Este pode ser muito útil para o serviço aos outros, por
exemplo, para a sua santificação. É o que a Igreja chama de mortificação, onde
o sofredor oferece as suas dores e angústias pelo bem espiritual de tantos.
Este é um serviço eminente, fruto de uma caridade amadurecida; é um doar-se
mesmo no absurdo. Vejamos o exemplo que temos na Primeira Leitura, o do Servo
Sofredor: “Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si
suas culpas” (Is 53,11). Quem é o Servo Sofredor senão Jesus, o justo, que,
compadecendo-se das nossas fraquezas, assumiu a condição de servo, fazendo-se
semelhante aos homens (cf. Fl 2,7)? Ou, como nos afirma a Carta aos Hebreus: “e
por isso convinha que ele se tornasse em tudo semelhante aos seus irmãos, para
ser um pontífice compassivo e fiel no serviço de Deus, capaz de expiar os
pecados do povo” (Hb 2,17). A salvação operada pelo Cristo é a máxima noção que
podemos ter de serviço. Por isso, ele é pontífice porque leva, integralmente,
os homens a Deus, pois, como nos diz a Segunda Leitura: “Temos um
sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas” (Hb 4,15).
A ação de servir,
também em nosso caso, deve ser uma constante. Assim, pelo serviço, tantas e
tantas vezes, seremos chamados a renunciar a nossa vontade própria para que
Deus opere em nós e demonstremos o suave odor do Cristo. Essa nossa renúncia o
que seria senão aniquilamentos, grandes ou pequenos, que fazemos em prol do
próximo e por amor a Deus nele?
Ser seguidor de Jesus
nunca se adéqua à glória que mundo oferece. No Evangelho de Marcos, os
ensinamentos de Jesus levam a crer qual deve ser o papel do discípulo: servo e
criança. Com o trecho proclamado há pouco, entrevemos que alguns daquele
círculo em que Jesus estava não entenderam a sua mensagem. Logo, Tiago e João,
ao pedirem a Jesus que lhes reserve dois lugares de maior honra, ilustram essa
não compreensão. Mais adiante, também a atitude indignada dos outros dez
discípulos, ao saberem do pedido dos irmãos zebedeus, confirmam que eles, até
então, tinham um entendimento diminuto do serviço ao Reino, pois o que nos
parece é que também eles desejavam a glória tal como o mundo concebe, tal como
Tiago e João imaginavam.
À exclamação
interrogativa de Jesus – “Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o
cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que eu vou ser
batizado?” (Mc 10, 38) – surge uma presunção: “Sim, podemos!”. Porém, o real
entendimento de beber o cálice e ser batizado eles não têm, pois esses dois
elementos traduzem o dar para ganhar a vida: são o cálice e o batismo do sangue
derramado: “Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder
a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8,35). De fato, São
Tiago e São João ofereceram ao Senhor as suas vidas: Tiago com o martírio de
sangue, cruento, e João que, não sendo assassinado pelo nome de Jesus, bebeu
igualmente o cálice do Cristo por meio de uma vida de perseguição e privação.
No entanto, justamente
naquele momento, Jesus queria mostrar aos discípulos que a lógica do Reino é
diferente; e ele mesmo já o tinha feito ver com a sua vida para o mundo. Toda a
vida de Jesus foi um serviço contínuo e a sua doutrina um apelo constante aos
homens para que se esqueçam de si próprios e se deem aos outros, gratuitamente.
Nós, os cristãos, que queremos imitar o Senhor, temos que nos dispor a fazer da
vida um serviço alegre a Deus e aos outros, sem esperar nada em troca;
dispor-nos a servir mesmo aos que não agradecerão o serviço que lhes prestamos.
Conta-se que uma jornalista norte-americana foi entrevistar Madre Teresa de
Calcutá. E, ao ver aquela frágil mulher cuidando de uma ferida fétida de um dos
pacientes, a jornalista exclamou: “Eu não faria isto nem por um milhão de
dólares!”. Ao que Madre Teresa retrucou: “Nem eu!” A disponibilidade em ver
Deus no outro é o elemento inicial da prática do serviço, e, por isso, é
grandeza do ser cristão. Por isso, Jesus dizer: “Vós sabeis que os chefes das
nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser
assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro,
seja o escravo de todos” (Mc 10,42).
Desta maneira, no
serviço alegre, disponível e sutil, viveram os santos. Vivamos, igualmente,
para servir e portaremos Jesus em nosso coração, manifestando, por nossas
singelas atitudes o seu amor contagiante e envolvente.
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