quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA



Liturgia do dia 24:

I Leitura: Is 49, 1-6
Salmo Responsorial: Sl 138 (139) 1-3. 13-14ab. 14c-15 (R/. 14 a)
II Leitura: At 13, 22-26
Evangelho: Lc 1, 57-66.80



Queridos irmãos,


A Igreja reveste-se de júbilo celebrando o natal daquele a quem o próprio Cristo designa como “o maior dentre os nascidos de mulher” (cf. Lc 7, 28), João, o Batista. Pois bem, ao celebrá-la, a Mãe Igreja o faz tendo em vista o Natal do Salvador. Percebamos que a data desta solenidade de hoje antecede em exatos três meses a do Nascimento do Redentor da humanidade, ressaltando que a gestação de Isabel era três meses mais adiantada do que a da Virgem Maria.
A Liturgia da Palavra possui uma órbita em torno da relação do nascimento de João e o de Jesus. Na Primeira Leitura, o profeta Isaías nos apresenta o segundo cântico do Servo Sofredor. Como todos sabemos, quando Isaías utiliza tal recurso literário, diacronicamente, a Igreja o associa à pessoa do Messias, Jesus Cristo. Ele é o Verdadeiro Profeta do Altíssimo; os outros são prefigurativos Daquele cuja Palavra é eterna. Todo cabedal profético só tem sentido se for observado pelo viés do Cristo. Todos os eventos da Escritura convergem para o evento máximo chamado Verbo Encarnado. O caso de João Batista não difere dos outros. Ele é quem aponta o Servo do Senhor, Lumen Gentium (Is 49, 6), prova disso, temos o que João, o Evangelista, afirma acerca do Batista, logo no Prólogo de seu Evangelho: “Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz” (Jo 1, 7-8); e ainda: “João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim” (Jo 1, 15). Portanto, desde o seu nascimento, João já sabia da sua missão de ser o precursor da Luz,d o Sol Nascente, porque já a tinha escutado da boca de seu pai, Zacarias:

“E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 76-79).


            Se a palavra do profeta João incomodava, quanto mais incômoda era a fala da Palavra eterna cujos vocábulos eram comparados à espada afiada, à flecha aguçada escondida na aljava de Deus (cf. Is 49, 2), Daquele a quem João teve a honra de preceder. Sim, escondida porque eterno com o Pai e o Espírito, em sua economia, manifestou-se a nós pela sua Encarnação. Ele a quem desconhecíamos, porém já o esperávamos ansiosamente para, por meio Dele, restabelecermos a nossa amizade com Deus, alcançando a salvação que Ele mesmo nos traz (cf. Is 49, 6).
            A Igreja sempre viu na pessoa de João este “coadjuvante” do Cristo, porque ele adiantou-se a fim de preparar um povo que fosse digno Dele, ou seja, nós. Provamos tal pensamento pela Oração do Dia: “Ó Deus, que suscitaste São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito...”. João se esmerou. Nenhum de nós teríamos igual ou maior capacidade de “endireitar os caminhos do Senhor” (Is 40, 3) como o Precursor. Nenhum de nós!
            Na Segunda Leitura, vemos o reconhecimento de João Batista feito por Paulo. Em outras palavras, o Apóstolo dos Gentios vê no Precursor do Messias aquele que, de maneira justíssima, cumpre a sua missão desde o batismo de conversão no Jordão até a declaração do término de sua missão, quando diz: “Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13, 25). Logo, dele podemos extrair para nós o exemplo da humildade: perceber que quem deve resplandecer no anúncio não é o que anuncia, mas Aquele que é anunciado. Lembremo-nos que, todos nós, pelo Santo Batismo, somos profetas: Que Cristo resplandeça em nós! Ele é a Salvação do mundo.
            O Evangelho, de maneira velada, apresenta a circuncisão do menino nascido da estéril e anciã Isabel. Cumprindo um mandamento do judaísmo, Zacarias, mudo desde a visão do anjo e a sua conseqüente dúvida acerca daquilo que o mensageiro divino havia lhe anunciado, e Isabel, aquela ditosa em quem a misericórdia divina abundou (cf. Lc 1, 58), se dirigem com o recém-nascido para o Templo. Ora, João, tal como Jesus posteriormente, era primogênito. E também com esta nuance percebemos a relação entre o menino de Isabel e o Filho de Deus, nascido de Maria. Ambos primogênitos. Era no ritual de circuncisão que o menino recebia um nome. Neste caso João (do hebraico יהוחנן, o Senhor mostrou privilégio) alcunha até então inédita na família de Zacarias. Mesmo com peleja, Isabel afirma a identidade do Precursor, que, posteriormente é confirmada pelo silêncio e escrita de seu pai Zacarias.
            João, cuja função é singular na Sagrada Escritura: “Foi o único dos profetas que mostrou o Cordeiro redentor. Batizou o próprio autor do Batismo, nas águas assim santificadas e, derramando seu sangue, mereceu dar o perfeito louvor de Cristo” (Prefácio da natividade de São João Batista). João, asceta em prol de sua vida e missão: “João usava uma vestimenta de pêlos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3, 4). Suas vestes testemunhavam-no no sentido de que por suas atitudes firmes de penitência (inclusive conclamando outros para o mesmo), estava vigilante esperando o seu Senhor; sua alimentação refletia a sua inconformidade com os deleites e prazeres que o mundo oferecia: estava à espera Daquele que viria trazer à humanidade, com a sua presença divinal de Emanuel, o verdadeiro deleite: a Salvação!
            O Bispo de Hipona, Santo Agostinho é feliz ao comparar os diversos aspectos relevantes entre o nascimento do Batista e o Natal do Salvador em um de seus sermões (Sermo 293, 1-3), o qual nós refletimos hoje no Ofício das Leituras. No seu escrito, Agostinho alude o costume da Igreja em celebrar o nascimento de João, como esta também faz para festejar o Nascimento de Jesus. Também contrasta a maneira do nascimento: João de anciã estéril, Jesus de uma virgem; ambos contrários e impossíveis à fisiologia humana, porém, totalmente possíveis ao poder de Deus. O Santo Bispo de Hipona contraria a figura de Zacarias e Maria. O primeiro duvida e emudece. A segunda acredita e concebe. Ousaríamos dizer mais: Maria acredita, concebe e canta as maravilhas do Senhor (cf. Lc 1, 46-55). O filho de Santa Mônica ainda enaltece João como vértice da Escritura (logicamente, não podemos tê-lo na conta de ápice da Escritura), como veremos adiante: “João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o antigo e o novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: ‘A lei e os profetas até João Batista’ (Lc 16, 16)”. Sim, ele é limite porque é o último, pois: “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo(Jo 1, 17). E continua o Bispo: “Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe”. Em palavras similares as de Agostinho, afirmamos que João, desde o ventre materno, era um ser sensível a ponto de reconhecer a presença de Deus. Vejamos quando da visita de Maria a Isabel, o quanto João estremeceu no ventre, reconhecendo a presença do Sol Nascente ali, em sua casa. Neste momento, nos vêem à mente aquela famosa pintura de Da Vince que retrata um encontro entre Maria, sua mãe Ana, o menino Jesus e João, ainda criança, a adorar o Salvador que está sentado no colo de Maria.
            Ainda no texto de Santo Agostinho, ele, por meio de indagações nos leva à reflexão acerca da mudez de Zacarias, cessada com o nascimento de seu filho. Comenta: “Por fim, nasce. Recebe o nome e solta-se a língua do pai. [...] Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto, fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce aquele que é a voz. [...] João é a voz; o Senhor, porém, ‘no princípio era a Palavra’ (Jo 1, 1). João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna”.
            Por tudo isso, ó ditoso São João Batista, que dissemos de ti, é que a Igreja, militante, unida à triunfante, te aclama e pede:

Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum,
Solve polluti
Labii reatum,
Sancte Ioannes

Para que os servos possam, com suas vozes soltas, ressoar as maravilhas de vossos atos, limpa a culpa do lábio manchado, ó São João!

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