terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

“CREIO EM DEUS, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA...” (PARTE I)




No embrenhar-se do Ano da Fé, ainda tratando sobre o primeiro artigo do Credo, queremos tratar brevemente sobre as criaturas de Deus, detendo-nos, nesta ocasião, nos anjos, que juntamente com os homens, são expressão magna da obra da criação. Estas nossas palavras não atingirá um estudo aprofundado (tal como fazemos no curso de Teologia, principalmente nas disciplinas de Antropologia Teológica e Angelologia), porém se primará pela compreensão catequética do assunto abordado.
Proveniente da língua helênica, a palavra anjo (αγγηλος) não se trata do nome das criaturas celestiais, inteligentes e puramente espirituais, ou seja, sem corpo, mas da sua função: anjo, como vulgarmente chamamos a essas pessoas, inteligentes, celestiais, invisíveis, e por isso incorpóreos, imortais, em grego denota a sua atividade de mensageiro. Desta forma, o Catecismo da Igreja Católica, promulgado pelo Bem-Aventurado Papa João Paulo II, na tentativa de denominar os anjos, recorre a um conceito de anjos utilizado por Santo Agostinho. Para o Santo Bispo de Hipona: “Anjo é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz” (Santo Agostinho, En. In Psal. 103,1,15, in: Catecismo da Igreja Católica, 329). Os anjos são as criaturas mais nobres da criação, pois contemplam Deus em sua glória, tal como Ele é.  
Deus, em sua sabedoria e em seu poder indescritíveis, cria as pessoas angelicais com a finalidade de ser servido e honrado por eles. É neste serviço que eles encontram o seu prazer e a sua felicidade. Embora sejam cônscios deste dado, alguns anjos, movidos pela soberba, não foram fiéis a Deus e tiveram a presunção de querer ser iguais a Ele, prescindindo-se do seu poder. Por tamanha discrepância que resultou em pecado, as criaturas angelicais rebeldes foram excluídas do Paraíso e condenadas eternamente ao Inferno. Aqui, acha-se a origem do que sabemos por demônios, cujo chefe denomina-se Lúcifer ou Satanás.
Os demônios podem fazer-nos mal à alma e ao corpo, incitando-nos a pecar. Fazem isto pela inveja que sentem de nós ao querer a nossa eterna condenação, e por ódio a Deus, de quem somos imagem e semelhança. Deus permite aos demônios que nos tentem. A tentação não foi indiferente também a Jesus, Verbo de Deus Encarnado, verdadeiramente homem e Deus (cf. Mt 4,1-11; Mc 1,13; Lc 4,1-13; Mt 26,42; Mc 14,36; Lc 22,42). Mas, por que Deus permite sermos tentados? Deus assim o permite para que nós possamos vencer as tentações com a sua Graça, praticando as virtudes, e, no término da nossa existência nesta terra, alcançarmos o céu. A maneira mais certa de vencermos as tentações é com o auxílio da vigilância, da oração e da mortificação cristã. Por isso, alenta-nos São Paulo: “Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (1Cor 10,13).
Em contraposição aos demônios, temos os anjos que são fiéis a Deus. Além da designação corriqueira, chamamos-lhes também de anjos bons, espíritos celestes. A estes, Deus os confirma na graça, dando-lhes a Sua visão, concedendo-lhes a honra de amá-Lo, bendizê-Lo e louvá-Lo eternamente.
Quando tecíamos acerca da natureza angelical, afirmávamos que os anjos são seres puramente espirituais, insensíveis, amorfos, criados por Deus para subsistirem, sem terem de estar unidos a corpo algum. No entanto, estética e artisticamente, representamos os Anjos com formas sensíveis e até antropomorfizada para auxiliar a nossa imaginação e compreensão. Esta prática não o fazemos aleatoriamente, mas baseados nas Escrituras, quando, por exemplo, o Senhor manda que Moisés esculpa dois querubins na arca da aliança (cf. Ex 25,18-20) e os borde nas cortinas do tabernáculo (cf. Ex 36,8).
As Sagradas Escrituras também atestam o papel dos anjos como ministros de Deus.  Neste intuito, reza o Catecismo da Igreja Católica: “Ei-los, desde a criação (cf. Jó 38,7, onde os anjos são chamados ‘filhos de Deus’) e ao longo de toda a história da salvação, anunciando de longe ou de perto esta mesma salvação, e postos ao serviço do plano divino da sua realização: eles fecham o paraíso terrestre (cf. Gn 3,24); protegem Ló (cf. Gn 19), salvam Agar e seu filho (cf. Gn 21,17), detêm a mão de Abraão (cf. Gn 22,11), pelo seu ministério é comunicada a Lei (cf. At 7,53), são eles que conduzem o povo de Deus (cf. Ex 23,20-23), anunciam nascimentos (cf. Jz 13) e vocações (cf. Jz 6,11-24; Is 6,6) assistem os profetas (cf. 1Rs 19,5) – para não citar senão alguns exemplos. Finalmente, é o anjo Gabriel que anuncia o nascimento do Precursor e o do próprio Jesus (cf. Lc 1,11.26)” (Catecismo da Igreja Católica, 332). E no parágrafo seguinte, o Catecismo continuará atestando acerca da relação entre Jesus e os anjos: “Da Encarnação à Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é rodeada da adoração e serviço dos anjos. Quando Deus ‘introduziu no mundo o seu Primogênito, disse: Adorem-n'O todos os anjos de Deus’ (Hb 1, 6). O seu cântico de louvor, na altura do nascimento de Cristo, nunca deixou de se ouvir no louvor da Igreja: ‘Glória a Deus [...]” (Lc 2, 14). Eles protegem a infância de Jesus (cf. Mt 1,20; 2,13.19), servem-n'O no deserto (Mc 1,13; Mt 4,11) e confortam-n'O na agonia (cf. Lc 22,43) no momento em que por eles poderia ter sido salvo das mãos dos inimigos (cf. Mt 26,53) como outrora Israel (cf. 2Mc 10,29-30;11,8). São ainda os anjos que ‘evangelizam’ (cf. Lc 2,10), anunciando a Boa-Nova da Encarnação (cf. Lc 2,8-14) e da Ressurreição (cf. Mc 16,5-7) de Cristo. E estarão presentes no retorno da segunda vinda de Cristo, que anunciam (cf. At 1,10-11), ao serviço do seu juízo (cf. Mt 13,41;25,31; Lc 12,8-9). E não somente isto, Deus, especialmente, confia a muitos dentre eles o ofício de nossos guardas, protetores e intercessores: “Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida” (São Basílio, Ad. Eunomium 3,1). Por tal motivo, devermos sempre rezar ao nosso anjo da guarda, honrando-o, implorando o seu auxílio, seguindo as suas inspirações razões, reconhecendo a assistência contínua que nos dá.
            Queridos irmãos, aqui discorremos um pouco sobre mais um componente da nossa Profissio Fidei, do nosso Credo. Em outro momento, ainda no bojo do primeiro artigo “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”, trataremos sobre a segunda parte da criação: a humanidade. Desde já, rogo aos Santos Anjos de Deus que rejam, guardem, governem e iluminem a todos nós.

Até breve!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

"CREIO EM DEUS PAI..."



Queridos irmãos,


Ao iniciarmos a nossa reflexão sobre a Profissão de Fé da Igreja de Cristo, o nosso Credo, dizemos por primeiro, convictamente, “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”. Esta parte é considerada o primeiro dos doze artigos componentes do Símbolo de Fé que pia e fielmente professamos com a Santa Mãe e Mestra Igreja. Antes, porém, de discorrermos sobre a Pessoa Divina do Pai, faz-se interessante meditarmos sobre a essência de Deus.


Quem, por natureza, é Deus? Tratamos Deus com os mais diversos atributos: o Glorioso, o Altíssimo, o Senhor... Existe uma definição que por nós é muita querida: Deus é o Santo. A santidade de Deus por nós enlevada soa em hebraico como kadosh, traduzido para o grego Águios, que em português denota ‘o Separado’, ou seja, Aquele que não está submetido às leis do século, do mundo. Por isso, é Onipotente, Onipresente, Onisciente (tudo pode, não se limita a espaços, tudo sabe, respectivamente). Deus é totalmente o Outro, o que não implica dizer que esteja alheio à humanidade e ao mundo, já que muito se interessa por suas criaturas, por Lhe serem muito caras.


Entretanto, a essência de Deus é ‘traduzida’ por São João, o Teólogo, como “Amor”: Deus Caritas est. Qui non diligit non cognovit Deum – Deus é Amor. Aquele que não ama não conhece a Deus (cf. 1Jo 4,8). O amor, que é Deus, não apenas permanece no seio da Santíssima Trindade, no relacionamento entre as Pessoas Divinas (Pai, Filho e Espírito Santo), mas é a comunicação de Deus à criação. Logo, Deus cria, salva e santifica, comunica-se conosco, revelando-se, nos dá a felicidade porque é amor. Já sabendo a substância de Deus, passemos ao primeiro artigo do Credo: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”.


De imediato, já vislumbrando esta afirmativa, a nossa fé, unida à justa razão, trata da paternidade de Deus. Antes de ser um adjetivo humano, a priori ser Pai é a designação da primeira Pessoa da Santíssima Trindade: Deus Pai. Teologicamente, é a partir desta qualificação divina que os homens dotados de prole, de filhos, recebem igual chamamento. Sabemos que Deus possui a eminência em tudo o que é: Suma Bondade, Verdade, Sabedoria, Beleza, Justiça, Santidade, etc., por ser o autor de tudo, não prescindindo de nada para realizá-lo. Os pais humanos possuem a paternidade por alusão e não pelo estrito sentido da palavra, tal como Deus é; são cópias da paternidade divina. Mas, por que falamos de Deus como Pai quando referimos-nos a primeira Pessoa da Trindade? A Sã Doutrina da Igreja afirmará como causa primeira que isto acontece porque é Pai, por natureza, da segunda Pessoa da Santíssima Trindade, isto é, do Filho por Ele gerado antes de todos os séculos. Desde toda a eternidade, Deus Pai gera seu Filho, que é Deus como Ele, da mesma substância que Ele. Desde toda a eternidade, o Filho, que é chamado Verbo, está no Pai. Desde toda a eternidade, o Pai e o Filho amam-se e o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade, procede dessa relação que une o Pai e o Filho. Depois, o Pai é assim chamado porque Ele cria, conserva e governa toda a humanidade. Igualmente, é Pai, pela graça, de todos os cristãos, os quais por isso se chamam filhos adotivos de Deus. Relacionado a esta nossa última afirmativa, o Catecismo da Igreja Católica afirma: “Pela graça do Batismo ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’, somos chamados a compartilhar da vida da Santíssima Trindade, aqui na terra, na obscuridade da fé, e para além da morte, na luz eterna” (n. 265). O Pai nos faz seus filhos pelo Filho que nos redime e o Espírito Santo que nos unge. Acerca da Santíssima Trindade, o Pai não é tido primeira Pessoa por convenção, e sim porque não procede de outrem (princípio fontal), sendo o princípio das outras duas Pessoas (Principaliter), isto é, do Filho e do Espírito Santo.


Há pouco, dizíamos que Deus é Onipotente, Onipresente e Onisciente. A onipresença e a onisciência provêm da onipotência de Deus: Ele pode fazer tudo o que quer. Daí, com propriedade, chamarmos Deus de Todo-Poderoso. Perfeitíssimo em Si mesmo, o Pai pode fazer tudo, tudo mesmo. Este tudo poder fazer de Deus é-Lhe unicamente peculiar: somente Ele tem tal competência. Sendo Perfeito, não existe em Seu Ser fraqueza ou derrota. Assim sendo, não peca nem morre; o pecado e a morte são-Lhe estranhos. 


“In principio, creavit Deus caelum et terram” – No princípio, Deus criou o céu e a terra (Gn 1,1). Com esta declaração, inicia-se a Bíblia e toda a nossa história. In principio, ou seja, quando nada havia. A este nada damos o nome ex nihilo: Deus creavit omnium ex nihilo – Deus criou tudo do nada. Isto é dogma de fé! Portanto, o universo e tudo nele contêm não surgiram do acaso ou por si mesmos, mas unicamente de Deus. Agora, cabe-nos a consciência de que não sabemos como isto se deu. Aqui, abre-se um espaço para as mais diversas teorias acerca do surgimento do universo. Mas, em todas elas há um espaço para a capacidade criadora e ordenadora de Deus, uma vez que, de per si, essas teorias chegam a um ponto onde as palavras são insuficientes para explicar o óbvio: como tudo começou. Deus a origem: isto é inegável, mesmo que a ciência desdiga! Deus cria tudo do nada diferindo de um artífice humano, já que o Ser divino não precisa que algo preexista, tampouco necessite de auxílios para criar.


A Sagrada Escritura atesta o traço de Deus nas criaturas, que são rastros que provam a existência e a grandeza de Deus: “É a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sb 13,5). Santo Tomás de Aquino também utiliza o argumento da beleza e grandeza das criaturas como uma das cinco provas da existência de Deus.


Atribuímos a criação de tudo o que existe ao Pai. E isto não está errado. Porém, faz-se salutar termos em mente que tudo foi criado por Deus, que é Uno e Trino. O Pai cria por Sua Palavra, pelo Seu Verbo, que, humanado, recebe o nome de Jesus, no Espírito Santo. A Igreja ensina que a obra de uma Pessoa divina é relativa a toda a Trindade, já que as outras Pessoas, na imanência, assim a quiseram e a fizeram como um só e mesmo ato. O Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, promulgado pelo Papa São Pio X, reza: “Atribui-se a criação particularmente ao Pai, porque a criação é efeito da onipotência divina a qual se atribui particularmente ao Pai, como se atribui a sabedoria ao Filho e a bondade ao Espírito Santo, embora todas as três Pessoas tenham a mesma onipotência, sabedoria e bondade” (n. 30).


Onipresente e Onisciente, Deus não se ausenta da Sua criação, conservando-a e governando-a, com a sua infinita bondade e sabedoria, e nada sucede no mundo, sem que Ele o queira, ou o permita. Sim, aqui é preciso que estabeleçamos uma distinção importante: o querer e a permissão de Deus. O querer de Deus estabelece-se no bem de Suas criaturas: Ele as criou por amor e não quer que elas sejam relegadas ao mal, à infelicidade, à distância Dele. No entanto, o Criador deu aos seres inteligentes (anjos e homens) a liberdade, o livre-arbítrio, a capacidade de escolha. Destarte, quando não escolhemos o bem, quando ingressamos e primamos pelo mal, pelo pecado, o que não é vontade de Deus, Ele não o impede, porque, em Seu poder e sabedoria, respeita o querido por suas criaturas e consegue, até mesmo do abuso que o homem faz da liberdade, tirar um bem, e fazer resplandecer ainda mais a sua misericórdia ou a sua justiça.


Amados irmãos, aqui iniciamos uma brevíssima catequese acerca de Deus Pai. Esta é apenas a primeira parte. Em nosso próximo encontro, iremos tratar sobre a criação dos anjos e dos homens, assunto também compreendido no primeiro artigo do Credo Católico.
            
Até lá!

EU CREIO; NÓS CREMOS; CREMOS NA FÉ DA IGREJA

Queridos irmãos,


A partir de hoje, dentro do clima do Ano da Fé, iniciado em 11 de outubro de 2012 pelo Papa Bento XVI e estendido até a Solenidade de Cristo Rei do Universo (em 24 de novembro deste ano), tendo em vista o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II e o vigésimo ano da promulgação do Catecismo da Igreja Católica pelo Beato João Paulo II, propomo-nos a refletir com os nossos estimados leitores acerca da Profissão de Fé, vulgarmente conhecido como ‘Credo’. Para tanto, durante algumas semanas estaremos tratando sobre a atitude de crer e, a partir desta, discorreremos, catequeticamente, acerca de cada um dos artigos da Profissão de Fé Católica, recebida diretamente do Cristo, transmitida a nós pelos Apóstolos e seus sucessores, mas que por nós foi recepcionada no dia do nosso Batismo, através de uma adesão de nossa parte.


No despontar do Ano da Fé, Sua Santidade, o Papa Bento XVI, preparando este momento comemorativo e derivante da “primavera da Igreja”, o Vaticano II, escreve, em 11 de outubro de 2011, em forma de Motu Próprio, um documento denominado “Porta Fidei” (Porta da Fé), afirmando: “Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é ‘a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força’ (Sacrosanctum Concilium 10). Simultaneamente, esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade”. (Porta Fidei 9). Porém, não obstante os votos do Romano Pontífice, temos o delineamento das expectativas para este Ano da Fé: “Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano” (Porta Fidei 9).


Na dinâmica divina, Deus se revela ao homem a fim de que este possa acolhê-lo e corresponder-lhe através da fé. Todos os homens, por conta de sua razão, são capazes de crer, por serem aptos ao transcendental. É conatural ao homem esta sede do infinito, e, portanto, de Deus. Dizemos ‘Creio’, na primeira pessoa do singular (Eu Creio), porque esta resposta ao amor de Deus pela fé é pessoal, individual, com uma subjetividade coadunada àquilo que a Igreja fielmente professa. Cada um de nós é chamado a fazer esta experiência pessoal com Deus que acontece na Igreja. A ação de crer, mesmo sendo uma resposta a Deus pela fé, é também um dom que Dele emana, pois o Espírito Santo nos concede tal dádiva: “Por isso, eu vos declaro: ninguém, falando sob a ação divina, pode dizer: Jesus seja maldito e ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo” (1Cor 12,3). Logo, antes de se imbricarem, a dupla dimensão da atitude de crer se dá, concomitantemente, como um ato livre de cada um em resposta à graça divina que lhe é concedida.


Jesus, antes de sua Ascensão, ordena aos seus discípulos, e, portanto à sua Igreja: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15); ou como destrincha São Mateus: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20). Anunciar os conteúdos do Evangelho e, contida neste, da fé Católica e Apostólica é uma obrigação de todo cristão, que deve ser extremado pelo testemunho de vida. Viver e crer para o cristão é um imperativo, já que demos a nossa palavra pelas promessas batismais que nos fazem comprometidos com Deus. Por tal motivo, é importantíssimo que o cristão conheça e compreenda, para uma melhor vivência, a sua fé, a fé que antes é da Igreja.


Eu creio, nós cremos: eis a Fé da Igreja. Neste intuito, trilhemos pelas sendas deste bendito Ano que é para nós motivo de graça do Senhor, rumo à consumação da nossa fé, que é a realização da nossa esperança, Jesus Cristo nosso Salvador.

sábado, 19 de janeiro de 2013

II DOMINGO DO TEMPO COMUM


(Ano C – 20 de janeiro de 2013)


I Leitura: Is 62,1-5
Salmo Responsorial: 95(96),1-2a.2b-3.7-8a. 9-10a e c (R/.8a.9a)
II Leitura: 1Cor 12,4-11
Evangelho: Jo 2,1-11

Queridos irmãos,


Após as festividades do Tempo do Natal, a Igreja inicia o Tempo Comum ou o também chamado Ordinário. Para tanto, já na sua estreia, notamos a apresentação de Jesus sempre feita pelo Evangelho de São João. Assim, no Ano A, temos a narração joanina do depoimento do Batista acerca de Jesus: “Este é o Filho de Deus” (Jo 1,34). No Ano B, temos o testemunho do mesmo Precursor que O aponta “Eis o Cordeiro de Deus”, bem como dos discípulos de João que O denominam Mestre e Messias. Já no ciclo do Ano C, a apresentação de Jesus se dá nas bodas de Caná e quer manifestar Jesus como Alegria dos homens, já que o sentido cultural e teológico do vinho se situa aí.


Interessante averiguarmos que, se fizermos uma contagem de dias desde o fim do prólogo de São João (ou seja, a partir do 1,19) até a passagem do Evangelho de hoje (2,12), temos o total de sete dias, uma semana. O casamento ocorre três dias após o encontro de Jesus com os primeiros discípulos. Estes três dias fazem referência ao tríduo do Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus), e, neles, é aberta ao homem a oportunidade da intimidade plena com Deus, graças à redenção oferecida pelo Senhor. No tocante aos sete dias, temos a alusão feita por João à criação, já que conforme o protolivro do Gênesis (1,1ss), o mundo e tudo o que nele existe foi criado em um setenário. Em Jesus, somos recriados. O seu Sangue é ingresso e garantia na ordem da Nova Criação, pois é também Sangue da Nova Aliança. Desta forma, São João parece querer designar que a felicidade do homem, como nova criatura, está na sua íntima relação com Deus que se dá em Cristo Jesus, por isso, este dado bíblico-teológico encerrar-se com a narrativa de uma festa de casamento. Se dissemos anteriormente que Jesus é o vinho novo, a alegria inédita, a felicidade original da humanidade que O encontra, Ele também pode ser visto, graças à passagem de hoje, como o Noivo tão esperado para desposar a humanidade. Jesus coaduna em si esta união matrimonial, desde a Sua Encarnação, ao se fazer verdadeiramente homem sem deixar de ser divino, até o extremar-se da Cruz e da Ressurreição. Ao assumir-nos, estabelece esta troca de dons e relações, figurada em uma relação marital, onde ‘os dois são uma só carne’ (cf. Mt 19,5).


Mas, quando, de fato, ocorreu esta união entre Deus e o homem? Toda a vida de Jesus é unânime, visando à salvação da humanidade. É com o Mistério Pascal, que em cujo interior também se situa a Sua morte na cruz, que esta redenção é consumada. É no exaspero da vida do Senhor que a criatura humana se entrega, pelo Cristo, a Deus de maneira nunca antes vista, unindo-se perfeitamente a Ele. É desta Vida ceifada que nasce a autêntica felicidade do homem; é do sangue do Cristo derramado. Por isso, lemos: “Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm mais vinho’. Jesus respondeu-lhe: ‘Mulher, por que dizes isto a mim? A minha hora ainda não chegou’” (Jo 2,3-4). Maria aparece e sua fala é profética, pois alude toda a humanidade cabisbaixa porque não tem o pleno sentido de sua vida, a salvação, mesmo sendo ela a primeira na ordem da redenção pelos méritos de seu Filho. Nesta relação entre sangue e vida, é-nos dada a lembrança do mesmo João sobre o discurso do pão da vida: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,53-56); ou então o brado odioso, mas cheio de um rico significado teológico, da humanidade sedenta de salvação, quando da condenação de Jesus à cruz: “Que o sangue dele caia sobre nós e nossos filhos!” (Mt 27,25).


Pela resposta de Jesus à Sua Mãe, entrevemos uma preocupação de São João, que sempre a nomina pelo vocativo ‘Mulher’. No Evangelho de João, Maria é sempre contraposta a Eva graças ao seu gênero feminino. Se Eva deixa-se iludir com perspectivas de uma vida que prescinde de Deus, Maria é diferente. Chamada ‘Mulher’, Maria é posta ao lado daquelas que a figuram no Antigo Testamento, de uma maneira mais direta a rainha Ester, quando ambas preocupam-se pela vida dos seus: “Se achei graça a teus olhos, ó rei, e se ao rei lhe parecer bem, concede-me a vida, eis o meu pedido; salva meu povo, eis o meu desejo” (Est 7,3). Ao que o Senhor responde, parece-nos ressoar que a glorificação total não se dará em Caná, nestas bodas figurativas, mas no alto do suplício da Cruz e no júbilo da ressurreição: eis a Nova e Eterna Aliança. Por isso, mais adiante, no desfecho desta passagem, lermos: “Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou a Sua glória e Seus discípulos creram nele” (v. 11). E ainda em São João, quando da Oração Sacerdotal de Jesus: “Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho glorifique a ti” (Jo 17,1). São João Crisóstomo, comentando esta expressão de Jesus, questiona-se: “Ainda que havia dito ‘não é chegada a minha hora’, ao fim fez o que a sua Mãe Lhe havia pedido. E assim prova suficientemente que não estava sujeito a horas. Pois, se O tivesse estado, como fez isto quando não havia chegado a hora devida?” (In Ioannem, hom. 21).


À ordem de Maria aos serventes “Fazei tudo o que Ele vos disser”, temos os dados das talhas: a sua quantidade era seis, no seu interior cabiam aproximadamente cem litros de água, que era usada para a purificação exigida pelo judaísmo. Estas informações nos remetem a ver teologia também aí. Seis é tido na numerologia judaica como designação de imperfeição, assim como imperfeito era o judaísmo e seus rituais; cem, o número completo, expressa que a totalidade dos antigos ritos judeus não é capaz de levar o homem às alegrias e felicidades, à comunhão íntima com Deus, à Nova e Eterna Aliança. Jesus é a sétima talha que aperfeiçoa, de sobremaneira, as outras seis, não mais em um sentido meramente ritual, mas deste ao que significam e transmitem: a vida da Graça. Logo, se completa todo o quadro-mosaico de Jesus para este Evangelho: vinho, água, noivo, talha. Água que é transformada em vinho para alegria dos participantes das Bodas em uma talha especial. Vinho até então não degustado, mas cujo paladar é surpreendente, pois pelo Sangue de Cristo não fomos igualados à condição humana anterior ao pecado, mas fomos dignificados ainda mais, a um ponto nunca antes vivenciado pela criatura humana, condição superior aos anjos. Ensejo pelo qual o mestre-sala exclama ao noivo: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (v. 10).


Cônscios de que somos escolhidos pelo Senhor, porque assim Ele o quis para nos desposar, trilhemos, caríssimos irmãos, neste mundo, rumo às nossas bodas definitivas, ou melhor, ao festim real em que seremos abraçados e deleitados com a presença deste Noivo. É no Céu que sentiremos a plenitude do amor e da nossa feliz realização, mas que, desta terra de peregrinos, já o pré-degustemos, na certeza de nossa Salvação, iniciada pela Páscoa de Cristo Noivo, completada pela nossa Páscoa de Esposa, de membros da Igreja, Única e Verdadeira Esposa de Cristo, de cujo matrimônio participamos pela nossa pertença batismal ao Corpo Místico do Senhor. Quando isso acontecer, quando nos ‘perdermos’ totalmente em Deus, acontecerá o que foi profetizado no Cântico dos Cânticos, posto na boca da Igreja-Esposa: “Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!” (Ct 1,4).  

domingo, 30 de dezembro de 2012

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA


(Ano C – 01 de janeiro de 2013)



I Leitura: Nm 6,22-27
Salmo Responsorial: Sl 66(67),2-3.5.6 e 8 (R/.2a)
II Leitura: Gl 4,4-7
Evangelho: Lc 2,16-21

Queridos irmãos,


Estamos no Ano da Fé, iniciado em outubro próximo passado. E pensamos que esta data de hoje seja um bom momento para tratarmos da fé de Maria em relação à sua maternidade de Deus e não somente desta, como igualmente de sua maternidade na fé em relação à humanidade.


A fé de Maria é exaltada de maneira peculiar nos evangelhos. Iniciamos esta recordação evangélica quando da anunciação do Arcanjo que lhe levava o recado da sua predestinação e eleição para Mãe do Salvador, do Verbo Divino. Esta narrativa, iniciada pela localização do fato no tempo e no espaço, é sequenciado pela saudação angélica: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo! […] Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,28.30). Mesmo sendo segregada por Deus Pai para gerar, imaculadamente segundo a carne, o Filho pelo Espírito Santo, podemos entrever no vocativo dirigido à Virgem – “Ave, cheia de graça” – que este agraciamento de Maria não era nutrido apenas pelos ornamentos dirigidos por Deus a Maria, mas igualmente com a sua correspondência pela fé. Maria não é passiva, muito pelo contrário. O intercâmbio na relação entre Maria e seu Deus era feito de maneira oculta àquela bendita mulher, porém, desde a eternidade, querido pela divindade. Maria respondia ao amor único de Deus pela fé, mesmo sem saber da sua escolha para missão tão nobre e singular: ser a Mãe do Redentor do gênero humano.


“O Senhor é contigo, Maria!” Deus quis para si esta mulher, ao tempo em que Maria, discretamente, queria estar sempre ao dispor de Deus, em comunhão com Ele. E este desejo da Virgem Senhora era tão profundo que o susto, quando da saudação de Gabriel, invade-lhe. Deus se faz próximo daqueles que O desejam. E ninguém mais do que Maria teve este contato tão próximo, tão íntimo com Deus: ser escolhida para gerar em seu seio o seu Deus, sendo escolhida por Ele, gerando-O por meio Sua força. “O Senhor é contigo, Maria!” A fé de Maria aproxima-lhe ainda mais de seu Deus. “O Senhor é contigo, Maria!” A esta comunicação uma surpresa, uma perturbação. É a força da fé; é a resposta à fé. Santo Agostinho, já no quarto século, comenta: “Mais que contigo, Ele está em teu coração, se forma em teu seio, enche teu espírito, enche teu ventre” (In: sermo de Nativitate Domini 4). E, em outro escrito seu, o mesmo Bispo de Hipona dirá que Maria, antes mesmo de conceber o Filho de Deus em seu ventre, já O havia concebido no coração. Desta forma, se a Virgem concebe e dá à luz sem sêmen de homem, mas pelo poder de Deus, esta pré-concepção do Verbo no seu coração se lhe dá pela fé, tal como num óvulo, ela que esperava a redenção de Israel.


“Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...” Esta oração imortalizada no coração dos cristãos, sendo um louvor à Virgem por ela mesma, é um louvor à sua fé inédita. Repetimos o elogio de Deus à sua criatura mais perfeita e predileta. Deus orna Maria de todos os benefícios celestes em previsão de seu Filho, e, indo mais além, enaltece-a. Na recorrência ao patrocínio da intercessão de Maria, utilizando as palavras de Gabriel, cujo nome significa ‘homem de Deus’, fazemo-lo repetindo o que dissera o próprio Deus. O anjo, como mensageiro não fala por si, não esbanja um conceito originariamente seu, mas repete o que o recebeu do Altíssimo; é Deus quem fala. Em cada Ave-Maria pronunciada em oração, falamos as palavras de Deus de engrandecimento a Maria, repetimo-las. Agora, em vez do ‘homem de Deus’ pronunciar a ditosa saudação, os homens e mulheres de Deus, em todo o mundo e de todas as épocas desde a Encarnação do Verbo, assim a homenageiam com as palavras saídas da boca do Altíssimo. “Em contraposição da voz dirigida à primeira mulher, agora se dirige a palavra à Virgem. Naquela se castiga com as dores do parto a causa do pecado, nesta se expulsa a tristeza por meio do gozo. Assim, o Anjo anuncia com razão a alegria à Virgem: ‘Deus te salve’. Segundo outros comentaristas, o anjo testemunha que é digna de ser desposada quando diz: ‘Cheia de graça’. Esta abundância de graças se mostra ao esposo como um dote, penhor ou arras, das quais de diz: Estas são da esposa, aquelas do esposo” (São Gregório de Nissa. In: Oratio in Christi Nativitate). 


Ainda no Evangelho de São Lucas, temos outra célebre referência à fé de Maria, desta vez emanada dos lábios da velha Isabel, que, inspirada pelo Espírito Santo, afirma: “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!”, ao que Maria gratifica aquela amabilidade de sua prima rendendo uma louvação a Deus, o Magnificat. Esta é uma prerrogativa de quem se caracteriza pela fé: é cônscio de que é Deus quem age por meio si, ao tempo em que possui a certeza de que, tudo o que é, só se dá porque Ele assim o quis. Maria sabe que o artífice de todas aquelas maravilhas que lhe aconteciam não era ela mesma, que só era um instrumento, mas era o seu Criador que realizava tudo. Ele é o autor também de sua fé. A fé dada por Deus a Maria é retribuída de modo enormemente satisfatório. Por isso, remete os elogios que recebe a Deus porque tem consciência de que ela não é o fim dos louvores: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo” (Lc 1,46-49).


E por que não rememorarmos a ação silenciosa de Maria, a de ‘guardar os fatos no coração’ e refletir sobre eles como um demonstrativo de sua fé? Mais tarde, o seu próprio rebento, o seu amado Jesus a engrandecerá quando da exclamação de uma mulher anônima em meio à multidão: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!” (Lc 11,27); ao que Jesus completa: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11,28). Ou mesma aquela passagem tão controvertida pelos não-católicos, mas tão esclarecida para nós da única Igreja de Cristo: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).   


Esta atitude de confiar na Palavra de seu Deus, de confiar na Palavra eterna a quem humanamente ela gerou, terá repercussões imensas. Podemos citar dois trechos da mesma Escritura Sagrada. Ambos, inclusive, encontram-se no Evangelho de João. Primeiramente, vislumbramo-la no episódio das Bodas de Caná. Aí, a Virgem Mãe de Jesus aparenta querer antecipar a ação do Senhor: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,1-5). Mesmo sem ter experimentado outrora algum milagre realizado pelo seu bendito Filho, ela testemunha a sua fé na pessoa do Cristo, tal como se quisesse dizer: ‘Ele é Deus. Quem fez o mundo, quem fez em mim maravilhas, capaz de fazer-me gerar sem participação de homem, a fim de que a humanidade toda pudesse ser redimida pela chegada Daquele que eu trouxe, dei à luz, nutri, eduquei, pode fazer coisas inimagináveis’. E, na confiança de Maria, Jesus realiza o seu primeiro sinal, fazendo-se manifesto ao mundo. Não é à toa que João, o Teólogo, realça: “Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2,11). Olhemos Maria sendo instrumento para o despertar da fé dos discípulos no seu Filho e Senhor. E João traz mais: “Depois disso, desceu para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ali só demoraram poucos dias” (Jo 2,12), fazendo subentender que após este protomilagre, a quem João nomina sinal, os discípulos se deixam conquistar por Jesus e o acompanham, e, Maria vai com eles, acompanhando-o, desde como fizera na anunciação até o extremar da vida do Cristo na Páscoa, perpassando toda a Sua vida aqui na terra.


O segundo trecho do Evangelho de João que gostaria de evocar é o da crucificação. E João descreve: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena” (Jo 19,25). A atitude de permanecer de pé, impávida diante de um momento de tamanha dor, parece querer retratar que Maria sabia em quem havia depositado a sua fé (cf. 2Tm 1,12), que a sua fé pura e íntegra não iria cair por terra no escândalo da cruz. E, percebendo que o sustentáculo da fé de Maria seria um exemplo e um auxílio para os seus, Jesus, extenuado de dores, num ultimar de suspiros, intermedeia uma troca: de Si pela humanidade (que permuta mais descompensada!): “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Jo 19,26-27). Mas, a troca de favores perdura até hoje: ela é nossa intercessora; por causa de sua fé, é a ‘onipotência suplicante’. Bendita barganha que nos alcança! Ou melhor, sequer ousaria chamar tal relação entre nós e a nossa Advogada de ‘troca de favores’, já que o que lhe é tributado por nós soa mais como atitude gratificante de um dom recebido, pois é o mínimo que podemos e devemos fazer em retribuição: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a Vós, Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho e,  gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos Vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo”, tal como reza São Bernardo em sua memorável oração a Virgem.


A fé de Maria das Dores é a constante da Mãe do Ressuscitado, da Mãe da Igreja nascente, da Mãe de Pentecostes, pois é, desde a juventude, a mulher resoluta do ‘FIAT’, do faça-se em mim segundo a vontade do Senhor (cf. Lc 1,38). Prova-nos esta constante fidúcia de Maria Santíssima o texto dos Atos dos Apóstolos: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At 1,14). Por tal motivo, ela é modelo de fé para todos os tempos, ao tempo em que a recompensa por sua confiança é gozo na eternidade, prestando-nos um auxílio peculiar com a sua intercessão, missão que possui no céu, inerente à mediação de seu Filho. A Virgem cumpre a sua missão de Mãe dos homens, tal como fomos entregues por Cristo a Maria no Calvário. Com o seu amor maternal, encarrega-se de alcançar-nos graças ordinárias e extraordinárias para os que, também com fé, se lhe confiam. Ela, que no dizer de São Bernardo, “consola o nosso temor, aviva a nossa fé, fortalece a nossa esperança, dissipa os nossos temores e anima a nossa pusilanimidade” (In: Homilia na Natividade da Bv. Virgem Maria, 7).


Por fim, voltando os nossos olhos para a imagem da Virgem Maria, filialmente, recordemos de um antiquíssimo hino: Ave, do mar Estrela. Ao contemplarmos a fé de Maria, no ardente desejo de imitá-la, peçamos o seu auxílio intercessor, ela a quem novamente denominamos como ‘Onipotência Suplicante’. Nesta recordação do hino, detenho-me no verso “Mostrai ser nossa Mãe”. Assim, dirigimo-nos a Senhora Mãe da fé: “Mostrai ser nossa Mãe pela fé, ó Virgem Maria. Vós que sois a Mãe de Deus segundo a carne, sois a nossa segundo a fé. Amparai-nos, socorrei-nos nesta ou naquela necessidade. Mas auxiliai-nos com o vosso exemplo de confiança, pois o que crê nunca cansa. Amém.”

sábado, 22 de dezembro de 2012

ENTÃO, É NATAL...








Este bordão, nestes últimos dias, está sendo repetido em músicas, em mensagens de bons votos natalinos à beça. Luzes, árvores, enfeites, a troca de presentes, a figura de um ‘bom velhinho’ eternizado pelo comércio como Papai Noel, querem anunciar a chegada do Natal. São os efeitos exteriores desta época do ano, e isto sentimos, ao tempo em que nos mexe grandemente, fazendo climatizar uma espécie de harmonia peculiar entre as pessoas pela temporada. Longe da pretensão, pensamos que estas considerações a seguir sejam um instrumento iminente de preparação para uma data tão magnânima: o Natal de Jesus Cristo, tal como nos propõe o tempo do Advento.


Natal. Este termo aparenta estar esvaziado do seu sentido genuíno. O que festejamos? Para o comércio, esta é a estação mais próspera para os seus negócios; é uma fase de muitas vendas e lucros. Os centros comerciais efervescem. Em muitos setores, o superávit do Natal extrapola o do montante do resto do ano. Vive-se a data única e exclusivamente pela data, pela estação. O presépio? A atenção das crianças e as ornamentações dos lares são desviadas dele e dirigidas a um ser de cuja fundamentação é inexistente na vivência originariamente natalina: o Papai Noel. Para a decoração de nossas cidades, a representação mais autêntica do Natal, o presépio, passou a ser relegado a um plano inferior; em nossos lares, até a árvore de natal, com as suas bolas e luzes coloridas, rouba-lhe a cena, o lugar. Será o que presépio tornou-se ‘cafona’? Ele deixou de passar a sua mensagem, como pensara São Francisco, o pobrezinho de Assis, grande apaixonado pelo mistério da Encarnação? Questionamo-nos seriamente pelos dados fatídicos que nos são oferecidos pelas atitudes das pessoas. O presépio quer nos levar “a entender as lições que Jesus nos dá desde Menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens” (São Josemaría Escrivá de Balaguer. In: É Cristo que passa, n. 14)


Mas, até agora, nos detivemos nos aspectos exteriores do Natal. Até mesmo se todos montassem o presépio em detrimento da supervalorização dos outros símbolos natalinos, se este não transmitir nada ao coração das pessoas, de nada servirá. O sentimento que brota no Natal pode até ser despertado pelos enfeites, pelo clima que se impõe nesta festa (para muitos tão aguardada), ou mesmo, pode ser algo que nasce do interior e se externa como consequência: a ordem em que o ‘sentir natalino’ surgirá pouco importará. O que realmente vale é que ele surja.


O Natal, como festejos do nascimento de Jesus Cristo, é, desde a Sua vinda redentora aos homens, ocasião eminente de sentimentos. Os Evangelhos, ao narrarem o acontecimento do Natal do Filho de Deus, irão nos mostrar as emoções no coração de algumas pessoas: de Maria, de João Batista, de Zacarias e Isabel, dos Magos, de Herodes, da cidade de Belém. Sentimentos que vão desde uma expectativa serena e terna como a de Maria, que ‘tudo guardava no coração’ (cf. Lc 2,19.51), até mesmo ao pavor e ódio de Herodes que manda matar todas as crianças de seu reinado, da região de Belém. Porém, hoje, nestas vésperas do Natal, faz-se interessante ter diante dos olhos os anseios de glorificação e gratidão a Deus e de paz no coração dos homens: “Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens de boa-vontade” (Lc 2,14). Se isto nos for possível, muita coisa será diferenciada e a harmonia, de que falávamos a pouco, não será uma quimera ou mesmo pré-datada pela ocasião das festividades deste período do ano, mas, deste momento, irradiará toda a existência da pessoa e buscará enredar toda a humanidade. Aqui, rememoramos a antífona da Missa da Noite do Natal, a vulgarmente conhecida Missa do Galo, quando afirma, coadunando os sentimentos de alegria e paz: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo; hoje nasceu a nossa paz”. 


Sabemos que o Cristo nasceu, historicamente, apenas uma vez. Quanto à datação ‘exatíssima’ e cientificamente provada deste fato, esta não enriquecerá bastante o nosso coração. A celebração do Natal do Cristo, proposta todos os anos pela Igreja, não é aniversário de Jesus. Mas a Liturgia assim o faz para que, misticamente, os cristãos tenham, pelo menos uma vez ao ano, a bendita oportunidade de gerar a Paz, que é o próprio Senhor, em seu coração. Jesus nasceu na história, no século, e, agora, quer nascer em nós espiritualmente. Seria de bom alvitre que isto se desse cotidianamente, instantaneamente. Mas, se isto não acontece, será um bom começo se o concebermos por ocasião desta celebração do mistério do nascer do Cristo, pois este é o grande convite deste dia do calendário litúrgico sugerido a nós pela Igreja, pedagoga dos homens que anseiam o Reino de Deus. Se isto acontecer de verdade, poderemos cantar com entusiasmo e propriedade o refrão: “Então, é Natal!”
       

sábado, 1 de dezembro de 2012

I DOMINGO DO ADVENTO


(Ano C – 02 de dezembro de 2012)




I Leitura: Jr 33,14-16
Salmo Responsorial: Sl 24(25),4bc-5ab.8-9.10.14 (R/.1b)
II Leitura: 1Ts 3,12-4,2
Evangelho: Lc 21,25-28.34-36 (Fim do mundo)



Queridos irmãos,



Com a celebração de hoje, iniciamos o Tempo do Advento e, com ele, o terceiro ciclo de Ano Litúrgico (o chamado Ano C). A palavra que designa este tempo forte na Igreja, Advento, provém da adição dos termos latinos ad venire, aquele que está para chegar, preparando-nos não somente para a liturgia do Natal do Senhor, mas para a sua Segunda Vinda. Por isso, este tempo é marcado pela dupla expectativa do Senhor: a primeira, uma recordação litúrgica, uma vivência mística do seu nascimento em nossa pobre carne e natureza humanas; a segunda, uma vivência temporal de espera Daquele que virá para ‘julgar os vivos e os mortos’, tal como professa a Igreja. Esperamos o Cristo, e com ele toda a plenitude de graça. Algo que somente ele pode nos conceder. A primeira e segunda vindas, antes de se imbricarem, se inserem em um mesmo mistério: o da redenção do gênero humano pelo próprio Deus que, tomando a condição de homem, quis salvar-nos, e salvando-nos, nos levará para a sua morada eterna no fim dos tempos, fazendo-nos reinar com Ele, mas que antes disso, virá a nós mais uma vez.


Interessante percebermos que a Liturgia da Palavra deste Domingo, insere-nos nesta dinâmica da dúplice vinda do Senhor. Assim, já na Primeira Leitura de hoje, o próprio Deus, pelo profeta Jeremias, no Exílio da Babilônia do povo de Israel, recorda o cumprimento de suas promessas: a salvação, que se dará pela justiça. Poderíamos questionar-nos: ‘- Como pela justiça, se nós nada merecemos?’ Esta justiça não se dará conforme a nossa medida ou balança, mas segundo a misericórdia do Senhor: é aí que a justiça se embute. Com esta visão oferecida por Jeremias, percebemos uma faceta do Messias, o Prometido por Deus e o Esperado pelos homens: o Justo. Daqui para o término do Tempo do Advento, mais especificamente no dia 21 de dezembro, na última semana antes do Natal, nas antífonas do Ó, a Igreja exclamará: “Ó Sol nascente justiceiro, resplendor da Luz eterna. Oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas e, na sombra do pecado e da morte, estão sentados!”. E a profecia vai além, falando também do novo povo de Jerusalém, ou seja, tece a nosso respeito, os remidos: “Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa justiça’” (Jr 33,16). Portanto, aos libertos da escravidão do mal pelo Cristo, pelo Senhor, ser-nos-á atribuída a designação memorável da Sua justiça, pois “o Senhor fez conhecer a salvação e às nações revelou a sua justiça” (Sl 97,2), ou como o próprio Salmo Responsorial de hoje: “Ele dirige os humildes na justiça, e aos pobres ele ensina o seu caminho” (Sl 24,2), querendo-nos encetar acerca da necessidade de permanecermos com o coração em Deus, na humildade, para alcançarmos-lhe pelo caminho da justiça de seus mandamentos.


No Evangelho, temos, dentro da apocalíptica lucana, a descrição da parusia, da vinda gloriosa de Cristo. Aqui, se faz notória a eclosão de fenômenos cósmicos, até então inéditos, que testemunharão a proximidade do retorno do Filho do Homem e da libertação dos homens. Estes eventos por parte da natureza querem realçar a onipotência do que virá. Comparando as duas do Senhor, São Cirilo de Jerusalém, em suas catequeses, afirmará: “Tudo o que concerne a nosso Senhor Jesus Cristo tem quase sempre dupla dimensão. […] Dupla descida: uma, discreta como a chuva sobre a relva; outra, no esplendor, que se realizará no futuro”. Inclusive, este trecho das catequeses de São Cirilo é-nos apresentada hoje na Segunda Leitura do Ofício das Leituras. Acompanhada a esta descrição de eventualidades cósmicas, temos, ainda no Evangelho, uma dupla reação por parte dos homens: os pecadores se horrorizarão e temerão, ao tempo em que, os fiéis ao Senhor levantar-se-ão e erguerão a cabeça, fazendo valer a sua dignidade de seguidores de Jesus. Erguer a cabeça é posição de que é vencedor. E, neste caso, estes não o são de per si, mas pelo Cristo; pela força de Seu Divino Nome, enfrentaram as perseguições deste mundo (cf. Ap 7,14). Mas como os fiéis ao Senhor? Estes são os que seguiram à risca as orientações do Cristo, em contrapartida ao que é ensinado pelo mundo e seus prazeres: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. Portanto, ficai atentos e vigiai, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem”. Este retorno do Senhor será a base de certeza, a partir de agora, para a vida do homem.
A insistência por parte da Segunda Leitura da vivência no Cristo, far-nos-á preparados para o ‘dia do Senhor’. Esta é, pois, a vivência da santidade: o agradar a Deus em um processo contínuo. A sede em possuir o Reino celeste, plenamente manifestada em obras, testemunhará o nosso rumar ao Senhor, testemunhar-nos-á para a tomada de nosso lugar à direita do Cristo, na comunidade dos justos (cf. Oração de Coleta do I Domingo do Advento).



Como afirmávamos outrora, o Advento é uma ocasião de dupla espera: uma místico-litúrgica, outra cronológica e escatológica. E, nesta intermitência entre ambas, resta-nos preparar, não somente a vinda do Senhor, mas preparar-nos, rumo a Ele que vem, aprontar-nos para este bendito e definitivo encontro. E o Tempo do Advento inspira-nos a isso de maneira mais enérgica: “Por isso, a Igreja, como mãe amantíssima e cheia de zelo pela nossa salvação, nos ensina durante este tempo, com diversas celebrações, com hinos, cânticos e outras palavras do Espírito Santo, como receber convenientemente e de coração agradecido este imenso benefício e a enriquecer-nos com seus frutos, de modo que nos preparemos para a chegada de Cristo nosso Senhor com tanta solicitude como se ele estivesse para vir novamente ao mundo” (Das Cartas Pastorais de São Carlos Borromeu). Que aproveitemos o Espírito de Deus, que quer agir em nós, para preparar-nos, a fim de sermos menos indignos de acolhermos o Senhor em nosso coração. Para tanto, admirando o exemplo dos patriarcas, dos profetas, de tantas homens e mulheres que esperaram o Senhor ao longo da história da Salvação, peçamos a intercessão da Virgem Maria. Ela que, de maneira singular, esperou, concebeu e gerou o Filho de Deus na carne, ajudar-nos-á em nossos esforços para acolhermo-lo também.