domingo, 7 de junho de 2015

SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

(Ano B – 12 de junho de 2015)

I Leitura: Os 11,11.3-4.8c-9
Salmo Responsorial: Is 12,2-3.4bcd.5-6 (R/.3)
II Leitura: Ef 3,8-12.14-19
Evangelho: Jo 19,31-37

*Por Marcus Tullius

Após as alegrias pascais, caminhando com o Ressuscitado e haurindo d’Ele as forças necessárias para continuar a Sua missão, a Igreja convida os cristãos a celebrarem uma sequência de três festas dentro das chamadas “Solenidades do Senhor no Tempo Comum”. Estas não possuem data fixa, mas, pela sua natureza, são celebradas no decurso do per annum. As que aqui nos referimos são a Santíssima Trindade, Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e Sagrado Coração de Jesus, pois acontecem num curto ínterim após a Solenidade de Pentecostes. Deter-nos-emos à última delas, ressaltando que este conjunto ainda se compõe da Transfiguração do Senhor e da Solenidade de Cristo Rei do Universo.
Situando-nos historicamente, o culto litúrgico ao Coração de Jesus se origina no século XVII com São João Eudes, no mesmo período em que Nosso Senhor Se revela à visitandina Santa Margarida Maria Alacoque, depositando-lhe as Doze Promessas, largamente difundidas posteriormente mesmo em meio às inúmeras resistências encontradas ad intra et ad extra ecclesiam. Contudo, parece-nos que isto tenha sido de grande importância para que a devoção encontrasse terreno fértil no coração dos fieis para arraigar as salutares sementes oriundas do próprio Coração de Jesus.
Falar do coração incita-nos a falar de amor. A falar do Amor, por excelência. O homem, no mais profundo do seu ser, anseia amar e ser amado, procura em toda a sua trajetória terrestre, multiformes manifestações do amor, encontrando – e nem sempre buscando – a sua forma plena no Coração do Verbo Encarnado. Os textos proclamados na liturgia do corrente ano convidam-nos a proclamar este Amor, o amor de Deus, cujo “coração comove-se no íntimo e arde de compaixão” (cf. Os 11, 8c) e a volver o olhar para o Cristo, transpassado na Cruz, verdadeiro Cordeiro Pascal, de cujo coração sai sangue e água, símbolo dos dons da salvação. (cf. Jo 19,34)
Amor, vivido em sua vertente agápica, exige uma profunda espiritualidade e uma relação de intimidade com Deus, o Amado, o eterno oferente. Mais do que um sentimento, o amor se configura como virtude, ou seja, algo bom que vai sendo repetido e praticado com mais perfeição em nossa vida. Assim, quanto mais nós amamos, melhor o amor vai tornando realidade em nossa vida. O amor, do latim caritas, impulsiona a nossa Fé, faz com que ela tenha razões para existir em nosso coração e corresponda ao plano de Deus. A propósito, para se falar do amor de Deus, é impossível não citar a primeira encíclica do Papa Bento XVI, Deus Caritas est, que já em suas primeiras linhas, norteia-nos na vivência deste amor e sua intrínseca relação com a fé. “Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: ‘Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n'Ele crer (...) tenha a vida eterna’ (3, 16). Com a centralidade do amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e, ao mesmo tempo, deu a este núcleo uma nova profundidade e amplitude.” (cf. Deus Caristas Est, 1).
O dom da fé e da graça eleva o homem ao estado sobrenatural, somos filhos de Deus (cf. 1Jo 3,1). Quando manifestamos o amor através dos nossos atos e da mais profunda oração, fazemos jus a este nome que recebemos: filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança. Neste estado podemos dizer com São Paulo “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (cf. Gl 2,20). Para ser todo de Jesus é preciso que o amor transborde profundamente.
Amor à Palavra: Verbo pronunciado pela boca de Deus, gerado em suas entranhas e soprado pelo Espírito aos corações dos que creem, “porque em dar-nos, como nos deu, seu filho, que é sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (...) pois o que antes falava por partes aos profetas, agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma.” (Cf. São João da Cruz, Subida del Monte Carmelo, 22,2).
Amor à Eucaristia: memorial sacrifical do Cordeiro, fonte de eterna Salvação. “Se o mundo antigo tinha sonhado que, no fundo, o verdadeiro alimento do homem — aquilo de que este vive enquanto homem — era o Logos, a sabedoria eterna, agora este Logos tornou-Se verdadeiramente alimento para nós — como amor. A Eucaristia arrasta-nos no ato oblativo de Jesus. Não é só de modo estático que recebemos o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na dinâmica da sua doação.” (cf. Deus Caritas est, 13).
Amor à Igreja: Mãe e Mestra, família de Deus, casa de irmãos, que possui um coração, como reconheceu Santa Teresinha do Menino Jesus, “e que este coração arde de amor. Compreendi que só o amor faz os membros da Igreja agirem, que se o Amor viesse a se apagar, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os Mártires se recusariam a derramar seu sangue... compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que ele abraça todos os tempos e todos os lugares... em uma palavra, o Amor é eterno!” (cf. Santa Teresinha do Menino Jesus, Ms. Autob. B 3v).
Amor aos irmãos: a síntese dos sete últimos mandamentos do Décalogo atualizados por Jesus na Ceia derradeira, seja pelo mandamento do Amor enunciado de seus lábios ou pelo exemplo dado aos seus, abaixando-se e lavando-lhes os pés. Ao amá-los ad finem, “Jesus fez da caridade o novo mandamento” (cf. Santa Teresa de Jesus, Excl., 15,3) O espelho desse amor aos irmãos é a comunidade perfeita, a Trindade Santa. Não só espelho, mas é o porto seguro no qual ancoramos nossas vidas, pois afirma o Catecismo da Igreja Católica que “o amor ao próximo é inseparável do amor a Deus.” (cf. 1878).
Falar do coração também incita-nos a falar de discipulado. Para os dias de hoje é oportuno retomarmos esta palavra e nos perguntarmos: “o que é ser discípulo?” A palavra latina discipulus diz-nos de aluno, aprendiz. De Quem aprende o discípulo? Do Mestre. Sim, o Mestre Jesus: Aquele que está sempre a ensinar. Esta relação de aprendizado gera intimidade para os discípulos-missionários do Coração de Jesus com o próprio Coração de Jesus e com os irmãos. Quando temos intimidade com uma pessoa, queremos que ela esteja sempre ao nosso lado, partilhe da nossa vida, vibre com as nossas alegrias e nos fortaleça nas tristezas. O apóstolo do Coração de Jesus tem que desvendar cada mistério do seu Mestre, não pode ter reservas com Ele e deve desejar ardentemente estar sentado à mesa com Ele. A pessoa que nos é íntima tem lugar à nossa mesa, caminha conosco e se configura como companheiro da caminhada, come do mesmo pão conosco. “Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração.” (cf. Mt 11, 29) A Escola do Coração de Jesus possui as portas abertas. Esta é a escola que não tem idade, em que todo dia é dia de aprender sempre mais. Jesus é o Mestre que nunca se cansa de ensinar e nós somos os discípulos/amigos que sempre temos a aprender. Assim conhecemos o amor apaixonado de Deus por nós e nos apaixonamos por Ele. “De seu Coração aberto jorrou para nós a água da vida e o sangue da Eucaristia, não para nossa tristeza, mas para alegria nossa.” É preciso ouvir a voz do Coração de Jesus para ser um bom discípulo dEle. A experiência com a sua Palavra, proclamada pela Igreja dia a dia, é o meio para a realização daquele que deseja segui-Lo incondicionalmente. É isso o que Paulo expressa na segunda leitura proposta pela Liturgia: “tereis assim a capacidade de compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, a fim de que sejais cumulados até receber toda a plenitude de Deus.” (cf. Ef 3,18-19).
Por fim, proclamemos com a Igreja o amor de Deus que se manifestou plenamente em Cristo e bendigamos, como no prefácio da solenidade: “Elevado na Cruz, entregou-se por nós com imenso amor. E de seu lado aberto pela lança fez jorrar, com a água e o sangue os sacramentos da Igreja para que todos, atraídos ao seu Coração, pudessem beber, com perene alegria, na fonte salvadora.” Acorramos ao Seu encontro! Afinemos o compasso de nosso coração no compasso do Coração de Jesus!

Coração de Jesus, fornalha ardente de Caridade, tende piedade de nós!


X DOMINGO DO TEMPO COMUM

(Ano B – 07 de junho de 2015)

Por Ian Farias de Carvalho


I Leitura: Gn 3,9-15
Salmo Responsorial: Sl 129(130),1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R/. 7)
II Leitura: 2Cor 4,3-18-51
Evangelho: Mc 3,20-35 (Jesus em casa ensinando)

Caros irmãos,

No X Domingo do Tempo Comum, a Liturgia chama-nos a uma profunda meditação sobre o sentido de unidade e obediência, aceitado, resignadamente, às provações e mantendo a confiança inabalável no Senhor.
Gostaria, particularmente, de deter-me em primeira instância no Evangelho, onde o Senhor apresentará a simbologia da divisão como proveniente do reino das trevas, da força de Satanás. Já isto é evidenciado no próprio nome diabolus significa divisor e dele Jesus evidencia o principal caráter na narrativa hodierna.
“Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela nos poderá manter-se. Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído” (Mc 3, 23-26).
Aqui não seria cabível indagar-nos sobre as questões atuais que laceram o corpo místico de Cristo também em nosso tempo? Quantas vezes temos instrumentalizado a Igreja e o irmão causando, assim, um conflito de ideias, opiniões e valores? Quantas vezes os que deveriam zelar pela Igreja a tornam alvo de apelos à desobediência ou mesmo parecem ensurdecidos diante dos apelos da mesma Igreja? Não exercem estes um papel de divisores, de diabolus no seio eclesial quando deturpam o rosto da Igreja?
Quem está dividido não está todo, e nisto parece-me que é a falha de tantos grupos que se denominam de fé autônoma, mas findam de imediato porque geram divisões. Estar por inteiro é estar em todas as partes, sem que nenhuma delas se perca ou se desvie, é estar todo e, mais que isto, é estar no Todo.
Por isso, somos chamados a não nos desesperarmos nas tribulações, mas mantermos a mesma confiança que dissera o salmista nesta liturgia dominical (Sl 129). Esperar no Senhor é, de fato, a virtude máxima daqueles que sofrem tribulações das mais diversas. O mal não cessa de investir contra a nossa fé, de nos estimular a consciência para o pecado e de extinguir a presença de Deus da vida humana. Desde a Primeira Leitura podemos constatá-lo na narrativa da criação, quando Adão e Eva já se encontravam gozando das maravilhas do paraíso, mas se deixam sucumbir pela voz da serpente.
Quando a serpente faz um estímulo à desobediência, a fraqueza humana e a sede de ser igual a Deus falam mais alto que a obediência e o amor aos ensinamentos divinos. Mesmo que Deus lhes tivesse proibido de comer da árvore, o fato dela aguçar os sentidos levou Adão e Eva a não resistirem ao convite tentador daquele que é o principiador da mentira. E vemo-lo ainda de forma vivaz os quantos não resistem ao grito do mal que brada pela desconstituição da dignidade humana e cedem às diversas formas de corrupção de si mesmos.

Peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Maria, a graça de conhecermos melhor os nossos limites e fraquezas, para que possamos amar e exercitar em nós o consentimento com a vontade divina.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

SOLENIDADE DOS SANTÍSSIMOS CORPO E SANGUE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO
(Igreja Matriz de N. Sra. da Conceição - Povoado Mosqueiro, Aracaju, Sergipe - 04 de junho de 2015)

"É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos seus amigos"  - Sl 115, 15


O Senhor sempre nos tem um amor imenso, não obstante chamando-nos 'amigos’, tal como na Última Ceia: a noite da instituição da Eucaristia: "Vós sereis os meus amigos se seguirdes meus preceitos".

Amigo, vocativo que aparenta estar desgastado pelo seu uso inadequado, baseado em sentimentos distantes ou pouco consistentes, frágeis. Bem diz o Eclesiástico: "O amigo fiel é um medicamento de vida e imortalidade" (Eclo 6,16). Logo, o que assistimos do mundo e que se nos apresenta como amizade, não o é de fato.

"É sentida por demais pelo Senhor a morte dos seus santos, seus amigos" (Sl 115,15). Com esta afirmação do Salmo Responsorial de hoje, nesta Solenidade de Corpus Christi, percebemos com grandeza quão tamanha é a importância que temos diante de Deus. Fomos elevados à condição de santos, porque pela participação no Sacramento do Altar, participamos já da Vida Divina, simultaneamente ao que deixamos transparecer a essência de Deus em nós: a Sua Santidade; tornamo-nos tão intimamente amigos que ganhamos as Suas feições.

O Senhor nos quer próximos a Si. Por isso que o Salmo afirmar o seu sentimento com a nossa distância, com a nossa ausência trazida pelo autor sagrado como 'morte'. Não é a morte enquanto fim da existência biológica, mas uma muito mais lamentável: a morte do interior humano; do seu senso de fé; o aferrecer no relacionamento com o Senhor. Sem Ele não existimos; sub-existimos com carências gravemente extremas.

Cremos que Deus, assim como está no céu, encontra-se na Eucaristia. Ele no-lo garantiu ao dizer: Isto é meu Corpo... Isto é meu Sangue... Devemos procurá-lo sempre onde própria e efusivamente Ele se dá. Não existe outra realidade no mundo que seja Deus essenciamente quanto na Eucaristia. Jesus no Santíssimo Sacramento é o melhor dos amigos.

Daí o motivo para Santo Afonso de Ligório, como contando um segredo, uma experiência de sua alma enamorada com Deus, afirmar:

"Bem suave é estar a gente na companhia de seu amigo querido; e não nos será suave neste vale de lágrimas, estarmos na companhia do melhor dos amigos, de um amigo que pode nos encher de todos os bens, nos ama apaixonadamente e por isso se deixa ficar continuamente conosco? Eis que no Santíssimo Sacramento nos podemos entreter com Jesus à nossa vontade, abrir-lhe o coração, expôr-lhe as nossas necessidades, pedir-lhe graças. Podemos, numa palavra, neste mistério tratar com o Rei do Céu com toda confiança e singeleza. [Muito] felizes somos nós por termos sempre conosco, nesta miserável terra, nosso Deus feito homem, que, com o coração cheio de amor e de misericórdia, nos honra com sua presença real a cada instante de nossa vida. [...] Eis que aqui está nosso bom amigo Jesus Cristo, que neste Sacramento nos anima com estas palavras: 'Convosco estou todos os dias'. Eis-me aqui todo para vós, vindo céu à vossa prisão de propósito para vos consolar, ajudar e pôr em liberdade. Acolhei-me, fiquemos sempre juntos, uni-vos a mim; que então não sentireis mais o peso das vossas misérias, e depois vireis comigo para o meu reino, onde vos farei plenamente felizes. A toda alma, que o visita no Santíssimo Sacramento [e principalmente o recebe na comunhão da Missa] Jesus diz como outrora o Esposo Cântico dos Cânticos: "Levanta-te, apressa-te, minha amada e vem" (Ct 2,10). Levanta-te de tua miséria, pois aqui estou para te enriquecer com minhas graças. Aproxima-te, não temas minha divina majestade, que se humilhou neste Sacramento para dissipar o teu temor e te inspirar. Tu não és mais minha inimiga, mas minha amiga, já que me amas e eu te amo. A minha graça te fez tão bela à minha vista. Vem, pois, a mim, vem lançar-te nos meus braços, e pede-me com toda confiança o que de mim queres. - Vamos, pois, a Jesus com muita confiança e amor, unamo-nos a ele e roguemos-lhe graças. Ó Verbo eterno, feito homem e sacramento por meu amor, quanta deve ser a minha alegria, quando penso que estou diante de vós, que sois o meu Deus, a Majestade suprema, a bondade infinita, diante de vós, que tão ternamente amais a minha alma. [...] Fazei com que eu ponha em vós todos os meus afetos. Tornai-vos dono de toda a minha vontade, possui-me por inteiro. Consagro-vos o meu espírito, para que se ocupe somente com vossa bondade; consagro-vos também o meu corpo, para que me auxilie a vos agradar; consagro-vos a minha alma, para que seja toda vossa. Quero no futuro fazer tudo que puder para vos ser agradável".

Que o amor que inflamou o coração dos santos, dos amigos de Deus, seja-nos um potente exemplo para que nos dilatemos na amizade com 'O Sacramentado', deleitando-nos sempre Nele, fomentando profundamente o nosso interior para, com a nossa vida intimamente unida a d'Ele, façamos a Sua vontade, expressando-Lhe o nosso imenso amor, ao repousarmos em Seu coração, deixemos que Ele se decline no nosso, tal como Ele quis: "Vós sereis os meus amigos se seguirdes meus preceitos" (Jo 15,15).

quarta-feira, 3 de junho de 2015

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO CORPO E SANGUE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

(Ano B - 04 de junho de 2015)

Por André Fernandes de Oliveira

Caríssimos irmãos,


Reunimo-nos nesta Quinta-Feira e, com a Santa Igreja Católica tributamos a perfeita doxologia ao Senhor que se encerra naqueles ínfimos acidentes do pão e do vinho consagrados. Pensamos, hoje, naquela antífona extraída do Livro da Sabedoria, dita de forma solene quando à Bênção do Santíssimo: Panem de caelo praestisti eis – Do céu lhes destes o Pão. De forma uníssona, respondemos: Omne delectamentum in se habentem, ou seja: “Que encerra em si toda doçura”. Palavras, de fato, capitais, tributadas ao Eterno que não mais bastasse tornar-se “condicionado” à nossa humanidade, rebaixou-se, outrossim, à forma de pão!
Na verdade, cristãos, numa só expressão sintetizar-se-ia a hodierna Solenidade: Mysterium fidei! Mistério da fé é o que adoramos e comungamos naqueles alimentos. Nosso assentimento credível à Sagrada Eucaristia a define: zikkàron. Anàmnnese. Memória, “presentificação” do Testamento da Caridade da Páscoa. Portanto, quando o sacerdote exclama, a Assembleia, professa: “Anunciamos Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Aqui, encontramos o ‘núcleo’ da Celebração da Santíssima Eucaristia! Impactamo-nos, por assim dizer, com ‘escandaloso’ fato. O quê ao altar ‘trouxemos’ como sinete da nossa oferta a Deus é aceito e o que Ele, através do Rito, ‘recebe’ e, neste, na sagrada ação litúrgica, devolve-nos singularmente: O Unigênito seu!
Questionemo-nos: Deus teria a real ‘necessidade’ de aceitar aos nossos dons?  Acerca, a própria Igreja, no Salmo de Resposta, pergunta-se: “Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor?” (cf. Sl CXV, 12). Acaso, não somos nós os míseros Dele? Prova-se ambas interrogações, quando, à Oração Dominical, o Pai Nosso, dirigimos a petição: “O pão nosso de cada nos dai hoje”.  Cravados os nossos olhares à Mesa do Sacrifício, o Altar, assim o rogamos. Que compreensão, irmãos, extrairmos daí?  O pão e o vinho dados a Deus, são, naquela potência do Espírito, agora, a vera oblatio. Nossa participação em ‘entregar’ é, na verdade, a razão e o sublime sentimento de que somente Aquele, cujo vértice, é a Eternidade, poderia ‘permanecer’ no ato do Sacrifício Seu, já, de forma incruenta, no contexto da páscoa judaica!     
Nosso Santíssimo Salvador naquela ‘forma’ de banquete que é associada ao modo de manducar, beber... tornar-se ‘cúmplice’. Observemos, à guisa de exemplo, as atitudes de Pedro, João e a vilipendiosa traição do Iscariotes. Desta maneira, ladeados, uma vez imersos à vida na graça pelo Sacramento do Batismo, recebemos não somente à participação na Eucaristia os benefícios que Ela nos concede, mas, também, a séria ‘consequência’ no desdobrar da nossa terrenal peregrinação.
Pensando assim, também nos reportamos à cena dramática aos pés do Calvário que, comovente, narra São João naquele capítulo XIX, 15 : De pé, aos pés da cruz de Jesus, estavam a Sua Mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e perto dela o discípulo que ele amava. São João Crisóstomo, sobre, descreve: Quem estivesse no Calvário veria dois altares, onde se consumavam dois grandes sacrifícios: um era o Corpo de Jesus, o outro o Coração de Maria! 
Maravilhados com tamanha exposição do Boca de Ouro, a nossa participação na Eucaristia,   o que ousamos falar ‘comunhão’, deve ser qual a atitude de Maria Santíssima. Nossa vida no Altar do Senhor também se esparrama como que oblação e tão somente quando nos ‘identificamos’ com o Filho de Deus que Se Dá, por inteiro, à ‘Fração do Pão’, podemos pedir como aquela turba, quando Jesus falara sobre o ‘Pão da Vida’: “Dá-nos, Senhor, sempre desse pão!” (Jo VI).  A Eucaristia que como bem se referiu o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, sobre o qual todos os outros sacramentos estão ordenados, deve ser para o cristão o que Ela é para a Igreja: cume! 
Dado às considerações, detenhamo-nos, agora ao lecionário que a Liturgia nos reserva.  De forma coerente, as três leituras da Missa insiste à palavra aliança. A mesma também recebe outro nome que muitas vezes a Escritura Sagrada menciona: pacto. Na paulatina economia da salvação, Deus, revela-se e através da aliança estabelecia a presença com o seu povo. Mostrava-Se e a partir daí Israel deveria escolher, como diz a Escritura, ‘a vida’.  Recordemos a partir dos acontecimentos do Antigo Testamento: A criação, com os nossos primeiros pais; quando da vinda do dilúvio, pela queda, o Senhor Mostra-Se através da figura de um arco-íris a Noé; depois com Abraão ao lhe ordenar em deixar a Caldeia e partir e daí formar uma descendência segundo a fé.
Clarifica-nos assim que, na Revelação, o Onipotente ‘faz’ aliança com os seus. E, é nesta linha, que na plenitude dos tempos a Aliança não é executada com meros símbolos, e, até mesmo, uma expiação com sangue alheio, como bem alude o autor sagrado da Carta aos Hebreus: […] não com sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue   (cf. Hb IX, 15). Sangue é ‘vida’. À Escritura, ‘sangue’, é como se dissesse: empenhei-me de modo total e até ao fim. Por isto, logo o Sangue de Jesus, ‘derramado’ é o ‘penhor da nossa salvação’- garantia de que no Sacrifício da Nova e Eterna Aliança, a culpa herdada foi ‘redimida’ em Cristo e por Cristo no mistério de sua encarnação, paixão, morte e gloriosa ressurreição.  Este dogma é encerrado no sacramento do Corpo de Cristo! E, com razão, podemos nos encostar ao Profeta Jeremias: “Farei com eles uma aliança eterna!”
Por fim, ainda retomamos ao termo ‘’aliança’’ para compreendermos as palavras proclamadas pela Liturgia, no Evangelho. Diferente de São Lucas e São Mateus, São Marcos relata a Instituição da Santíssima Eucaristia inserindo-a num acontecimento, que, de per si, não se localiza como figura cronológica (o dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal) apenas, mas sim é um modo de ser entendido: as sombras antigas foram cessadas. Temos, no ‘hoje’, que é elemento para a ‘teologia da memória’, o que as figuras antigas anunciavam, conforme proclama solenemente a Sequência Lauda Sion, escrita por Santo Tomás de Aquino: Em tipos prefigurado, foi em Isaac imolado; no Cordeiro aos pais foi dado.  E, no deserto, em maná.  Com esta que é uma das últimas estrofes podemos pensar nos gestos de Jesus. Seus discípulos perguntam-No: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?”. Vão, obedientes, ao mandato do Senhor!
Aqui aquela páscoa como memória do êxodo do Egito, agora, já é inválida. Agora, a Páscoa, é Cristo todo no Pão e no Vinho tornados Eucaristia- Ação de Graças. Prova-se quando diz o Evangelho: Enquanto comiam, ou seja, à lembrança dos seus pais, do sacrifício do cordeiro pascal, do maná caído do céu, dou, “Eu”, a “minha carne como verdadeira comida e meu sangue como verdadeira bebida”! A Missa, irmãos, não ‘nasce’ na derradeira ceia, mas das palavras do Senhor que constituem a ‘fórmula’ daquele propiciatório Sacrifício: Tomai, isto é o meu corpo. (...) tomou o cálice (...) Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. (cf. Mc XIV, 22 sg.) Na sublimidade do Augusto Sacramento, nossos intentos se convergem, como aos versos do literata São José de Anchieta, em sua poesia,  “O Santíssimo Sacramento”:

Oh que pão, oh que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.
Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.
E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.
Esta divina fogaça
É manjar de lutadores,
Galardão de vencedores
Esforçados.
Deleite de enamorados
Que com o gosto deste pão
Deixem a deleite
transitória.
Quem quiser haver vitória
Do falso contentamento,
Goste deste sacramento
Divinal.

“Ave Verum Corpus natum de Maria Virgine”. Ao Senhor do Tempo e da Eternidade, o louvor e a imortalidade, graças, nessa vida pelo Sacramento tão excelso e na outra a gaudiosa eternidade. Amém!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO

(Ano A – 23 de novembro de 2014)


I Leitura: Ez 34, 11-12. 15-17
Salmo Responsorial: Sl 22 (23), 1-2a. 2b-3. 5-6 (R/. 1)
II Leitura 1Cor 15, 20-26.28
Evangelho: Mt 25, 31-46 (O último julgamento)

Queridos irmãos,

Com este domingo que, desde 1925, é conhecido como Solenidade de Cristo Rei do Universo, estamos encerrando um terço do ciclo litúrgico trienal, o Ano A.  Com a solenidade de hoje, a Igreja quer ressaltar a soberana autoridade de Cristo sobre a humanidade e, com o contexto mais hodierno, sobre as instituições diante dos progressos do laicismo na sociedade. Prova disso, rezamos ao Pai na Oração de Coleta: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”. A Igreja entende que muitas das desordens provocadas pelo laicismo ateu são consequentes das agitações provocadas pela escravidão do pecado. O pecado afasta o homem de Deus, fazendo com que a criatura humana olvide dos valores evangélicos, bases fundamentais da cultura ocidental. 

O Apocalipse, por sua vez, nos apresenta o Cristo como “o Alfa e o Ômega”. Hoje é vislumbramos oportunamente este dizer da visão de São João. O próprio Jesus, Verbo eterno de Deus, por meio de quem todas as coisas foram feitas e fim para o qual tudo ruma, é o Senhor de toda história. Ele possui os tempos nas mãos (chronos e kairós); é o centro da história e da humanidade. A volta do Senhor Jesus é uma promessa bastante citada na Sagrada Escritura, Ele que diz à sua Igreja, alentando-a: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras” (Ap 22,12).

A liturgia de hoje, com seu teor escatológico, não pretende atemorizar o homem, antes disso, quer alargar em nosso coração a perspectiva do primado de Cristo, Ele, Senhor dos tempos e da eternidade. Neste domingo, a Mãe Católica, antes de apresentar o Senhor como Juiz, apresenta-o como Rei Supremo e Universal, apresenta-o com uma imagem terna de pastor. O julgamento do Senhor se embute na sua realeza, como também na sua mansidão, pois o Senhor assim nos garantiu: “O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo” (Lc 17,20).

Neste sentido, a Liturgia da Palavra de hoje nos traz Jesus revelando a sua Segunda Vinda (Parusia). Coadunando com a Primeira Leitura, o Evangelho nos apresenta o Senhor como rei-pastor. Percebamos, caros amigos, que Jesus não prima por uma imagem de um rei cujo resplendor ensoberbece um poder opressivo, mas na sua magnificência - “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso”(v. 31), manifesta delicadeza. Sim, delicadeza! Vejamos que ele não nos vai julgar a seu bel-prazer, de qualquer forma, sendo arbitrário ao que fizemos, mas segundo as nossas práticas nesta terra. Assim, se não nos preocupamos com os que sofrem, com os esquecidos e marginalizados, estamos relegando o próprio Jesus, Rei glorioso e Justo Juiz, ao escanteio. Onde está a maior manifestação da glória de Jesus na terra senão nos famintos, sedentos, estrangeiros e sem-teto, nus, doentes e encarcerados, não apenas em um sentido estritamente literal, mas tantos que são desprovidos de dignidade de diversas ordens. Jesus se traveste neles. Assim, desde a encarnação, “o Senhor escolhe o que é fraco para confundir os fortes” (1Cor 1,27). Grande prova disto é o seu despojamento da glória fazendo-se aos homens semelhante: “mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens”. (Fl 2,7). O Senhor nos vem cotidianamente no irmão!

Se o Senhor, Rei e Juiz se compadece de nós, qual pastor preocupado com o seu redil, principalmente com aquela ovelha dispersa, extraviada, alquebrada, ferida (cf. Ez 34, 15), quem somos nós para não possuirmos os mesmos sentimentos de compaixão do próprio Deus? Interessante, o Pastor Divino se interessa por todo o seu aprisco, indistintamente, porém, a quem mais precisa de atenção e cuidados, o zelo torna-se maior. Essa é a justiça de Deus a ser imitada. Cristo é Pastor que reúne as ovelhas e as segrega em bons e maus: “Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e eles separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda” (Mt 25,32-33)

O nosso povo, em sua simplicidade, afirma: “Quem não deve, não teme”. Por que nos aterroriza o dia do juízo? Se nos sentimos apavorados é sinônimo de que a nossa caminhada não está sendo trilhada conforme o querido por Deus. Se isso realmente acontece, há uma incongruência entre o que rezamos e a nossa prática de fé, já que, diariamente, pedimos na Oração do Senhor: “Venha a nós o Vosso Reino!”.

O dia do juízo deve abastecer de esperança a todos. Lembremo-nos o que a Carta de São Paulo aos Romanos alude: “Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8,22). Logo, todos ansiamos por este dia; a Igreja expecta esta bem-aventurada data das calendas divinas, por isso, cotidianamente ela implora: “Vem, Senhor Jesus!”  (Ap 22, 20), ou ainda, “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição: Vinde, Senhor Jesus!”.

Na Segunda Leitura, São Paulo, mais uma vez, afirma a fé-fundamento da Igreja: Cristo ressuscitou. Para isso, ele utiliza uma palavra bastante atípica, ‘primícias’ para falar do Ressuscitado. Assim sendo, ele começa a perícope: “Na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15, 20). Primícias são os primeiros frutos de uma árvore a cada estação frutuosa. Dependendo das primícias, sabemos a qualidade dos outros frutos. Ora, se as primícias são boas, os frutos subsequentes também serão da mesma qualidade; o contrário, também é válido. Pois bem, as primícias da fé cristã é a ressurreição do Senhor, por ele e como ele igualmente ressuscitaremos; assim como Adão é primícias de morte, Cristo é primícias da ressurreição. Como Cristo ressuscitado é vitorioso sobre a morte, nós também o seremos. Tudo acontece a partir dele: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (v. 23). A ressurreição de todos nós será a realização plena e perfeita da obra de Cristo; é a entrega do Reino de Cristo ao Pai, quando seremos um e nos “perderemos em Deus” (cf. v. 28).

Que Cristo Senhor, Rei do Universo, inicie o seu reinado em nossa vida. Que lhe sejamos submissos. Ele que é bendito e já reina para sempre. 



sexta-feira, 14 de novembro de 2014

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

(Ano A – 16 de novembro de 2014)


I Leitura: Pr 31,10-13.19-20.30-31
Salmo Responsorial: Sl 127(128),1-2.3.4-5ab (R/. cf. 1a)
II Leitura: 1Ts 5,1-6
Evangelho: Mt 25,14-30



“Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). É com esta certeza que o autor do Livro dos Gênesis conclui o primeiro relato da criação. Tudo, inclusive os homens, Deus cria, e assim o faz tendo em vista a Sua bondade, enquanto Criador, e a utilidade de toda criatura para a glória divina e para o bem da criação. Logo, como criaturas de Deus, fomos pensados com um talento primário: a bondade, e, por este caráter, refletimos o próprio Criador. Entretanto, alguns não fazem caso deste ‘proto-talento’ – fazer o bem, ser do bem – e obstinam-se no mal. Mas, o que é talento?
Talento era uma unidade de medida relativa ao ouro. Um talento equivalia a um montante de quase trinta e cinco quilo de ouro. Logo, não é uma moeda, mas uma fortuna considerável. O Evangelho diz-nos que o homem da parábola, ao viajar para o estrangeiro, “chamou os seus empregados e lhes entregou seus bens”, o que supomos que, muito rico, entregou nos oito talentos de ouro, toda a sua fortuna. Deus, em sua benevolência, oferece os bens da criação ao homem para que, na sua administração, seja capaz de fazer frutifica-los em multíplices outras benesses.
Percebam que a fortuna foi distribuída desigualmente, e o Evangelho deixa claro o porquê: [deu] “a cada um de acordo com a sua capacidade” (Mt 25,15). No original grego, encontramos o termo dynamis (dynamin), o que em latim se traduz por virtus (virtutem), ou seja, de acordo com as forças de cada um. Deus conhece-nos muito mais do que nós pensamos nos conhecer, sabe de quanto somos disponíveis a oferecer. Entretanto, ninguém pense que nasceu desprovido de dom, de talento que possa servir a Deus e ao próximo. Neste sentido, São João Crisóstomo nos afirma: “Esta parábola se apresenta contra aqueles que não só com dinheiro, nem com palavras, nem com qualquer outro modo querem ser úteis a seus próximos, mas, pelo contrário, não lhes servem” (Homiliae in Matthaeum, hom. 78,2). Todos possuímos algo para o oferecimento ao Reino e ao irmão, pois ninguém é tão pobre que não tenha nada a ofertar, já que o Senhor nos infunde os seus valorosos dons para que os desenvolvamos.
O patrão se ausenta. Sequer diz quando retornará para tomar posse do que lhe pertence e receber a devida prestação de contas, esperando que cada um tenha feito multiplicar aquilo que Lhe pertence, mas que foi dado para que outrem administre. Este homem é o nosso Redentor, que subiu ao céu. Aparentemente está distante, alheio às nossas obras, ao desenvolvimento dos talentos que Dele recebemos, mas esta viagem “para o estrangeiro” significa unicamente que Ele, doador dos talentos e dos dons provenientes de Sua bondade, nos deixa livres para administrá-los como quisermos, porém que esta liberdade não dispensa a responsabilidade e a justiça de, quando da sua volta, pedir satisfação do que lhe pertence e que havia-nos confiado.
Percebam ainda que, com seu o retorno, o homem, além de pedir contas do que é seu, ele não se escusa de tecer juízos de valores, ou seja, não deixa de realizar o seu julgamento. De imediato, vislumbramos que, além de dono dos talentos, ele também é juiz. Aos dois primeiros, que foram multiplicadores dos talentos do seu patrão, não economizando esforços, trabalhos, lutas, coragem para enfrentar as dificuldades no conseguimento do lucro, o homem, igualmente à competência dos seus servos, não economiza nos elogios e na recompensa: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!” (Mt 25,21.23). Por terem sido conscientes da sua responsabilidade, por terem levado adiante e a bom termo o pouco desigual que lhes fora confiado, os dois empregados recebem do Divino Patrão e Juiz título igual ao de Moisés: ‘Homem de confiança para toda a minha casa’ (cf. Nm 12,7). Já quanto a recompensa, o patrão lhe confia, por incrível que pareça mais trabalho, uma responsabilidade maior e, mormente, mais sublime: a participação na alegria do seu senhor. Onde se dará esta alegria? No Céu. Lá gozaremos da alegria, da festa, da contínua presença do Senhor, o Divino Patrão e Justo Juiz. Neste sentido, a Oração de Coleta, dirigindo-se ao Senhor, reza: “[…] fazei que a nossa alegria consista em vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a vós, o Criador de todas as coisas”.
Mas, vocês podem me questionar: E no céu existe maior e mais sublime trabalho do que aqui na terra? Sim, meus irmãos, lá há trabalho incansável e prazeroso. Como partícipes da alegria do Senhor, reinaremos com Ele; ser-nos-á, por exemplo, nos confiada a intercessão dos servos que ainda ficarão no campo, desenvolvendo os talentos do homem justo e exigente. Enquanto no céu estaremos unidos num labor mais eminente do reinado de Cristo, na terra, os bons empregados, entoarão, mediante o exemplo que tivermos deixado, os elogios a nós destinados, tal como a Primeira Leitura deste Domingo se encerra: “Proclamem o êxito de suas mãos, e na praça louvem as suas obras” (cf. Pr 31,31).
Debrucemo-nos agora sobre o terceiro servo. “Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (Mt 25,18). Na sua comodidade, infidelidade, covardia, preguiça, pensamento baixíssimo e irresponsabilidade, o terceiro homem, mesmo sabendo da severidade do seu senhor, prefere ocultar o que de precioso recebeu e que é conforme à sua capacidade, às suas forças. O terceiro homem é reflexo daqueles que apegam e se teimam ao que é terreno. Por isso, na parábola, o homem não esconde em outro lugar, mas num buraco, envolto em terra. Estes receberão um adjetivo e uma recompensa proporcionada às suas atitudes de inutilidade e desleixo, similares ao do terceiro empregado do Evangelho: “Servo mal e preguiçoso”, jogar-te-ei “lá fora, na escuridão”, onde “haverá choro e ranger de dentes”. Às fortíssimas dores de ser atirado, jogado fora, une-se a humilhação de ser condenado aos tormentos infernais.
O que estamos fazendo com os talentos que recebemos do Divino Patrão? Se o dia do Senhor, [que] virá como ladrão, nos advier hoje, estaremos dormindo, apegados à terra, desguarnecidos, como os outros, ou estaremos vigilantes e sóbrios para lhe retribuir com lucro o que Ele nos concedeu? Ouçamos o conselho de São Paulo na Segunda Leitura de hoje. Obriguemo-nos a empregar todos os bens que Deus nos concedeu fazendo a Sua vontade, na mesma consciência de que, com apenas um talento, podemos ser gloriosos, já que, no dia de nossa morte teremos de prestar estritas contas ao nosso Juiz, Jesus Cristo, a quem sejam dadas honras e glórias infindas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO

(09 de novembro de 2014)



I Leitura: Ez 47,1-2.8-9.12
Salmo Responsorial: Sl 45(46),
II Leitura: 1Cor 3,9c-11,16-17
Evangelho: Jo 2,13-22

           
           

Hoje, celebramos a antiquíssima festa da Dedicação da Basílica do Latrão, Catedral de Roma, em recordação à sua consagração pelo Papa Silvestre em 09 de novembro de 324. Esta igreja, construída pelo Imperador Constantino, é a mais antiga e a primeira em dignidade das igrejas do Ocidente, sendo, por isso mesmo, considerada a “Mãe e Cabeça de todas as igrejas de Roma e do mundo” (Urbi et Orbe).
            Na realidade, celebrar a festa de hoje é celebrar Cristo Jesus, morada de Deus entre nós; Ele que montou a Sua ‘tenda’ em nosso meio, o Sheninah. Aquele que é Deus, e, portanto, atemporal e não pode ser contido em espaço algum, vem até nós, encarnando-se, para congregar-nos em Si, em Seu interior. Mesmo existindo na história, Cristo Senhor, morada eminentíssima de Deus entre nós, continua a congregar tantos em Si e a Si pelo mistério da Igreja. Ele, a Cabeça; nós, os membros que só temos vida e sentido se interligados ao cerne do corpo, fonte das emoções e da razão.
            A Primeira Leitura de hoje, que nos traz a visão profética de Ezequiel em relação ao Templo, é, de fato, uma visão prefigurativa do mistério de Cristo e da Igreja. Cristo é o Templo, cuja contemplação absorve o olhar de Ezequiel; a sua Graça é escorrida pela correnteza da Igreja; o curso desta correnteza, ou seja, a sangria deste rio esplendoroso é a história e a Terra inteiras, desbravadas por este majestoso e fecundo rio; às suas margens observa-se o crescimento de toda espécie de árvores frutíferas, cujas folhas são imarcescíveis e frutos infindáveis, porque às pessoas de todos os séculos e lugares aos quais chegou, chega e chegará a Graça Divina através da Igreja, única despenseira da vida imperecível para a humanidade, produziram frutos incalculáveis e insondáveis. Como poderíamos medir ou quantificar o bem produzido pelos cristãos ao longo destes dois milênios, se a Graça de Deus transmitida a eles pela Igreja através dos Sacramentos age neles? Nossa vida só frutifica e remedia o mundo se estamos fincados na Igreja, Corpo Místico de Cristo.
            Creio, meus irmãos, que a cena de Cristo no Calvário, crucificado, com o seu peito dilacerado, jorrando sangue e água em abundância, é a concretização desta visão de Ezequiel. É do peito aberto do Senhor que nasce a Igreja, que, por ser Sacramento de Cristo, congrega, revitaliza a vida de tantos quantos estão mortos, ressequidos, cujas ramagens estão secas. E como isto acontece senão pelos sete sacramentos simbolizados no sangue e na água que irromperam do Crucificado, do Verdadeiro Templo de Deus?
            Também nós somos habitação de Deus pelo Espírito que age e mora em nós.  Esta é a reflexão da Segunda Leitura. A Igreja, por sua prática sacramental, infunde em nós esta condição de santuário de Deus, alicerçados em Cristo – que também nos é pedra angular, pedra de amarração da construção que somos nós. Santo Agostinho afirma com toda clareza: “Aqueles que habitam na casa de Deus, são também eles mesmos casa de Deus”. Logo, entrevemos a importância de estarmos congregados na única Igreja de Cristo, a Igreja Católica, Corpo Místico do Senhor, ao tempo em que também nós somos, por participação, esta Igreja, este Corpo.

            No Evangelho, temos o Senhor, consumido de zelo pela casa de Deus, purificando-a de vendilhões, trapaças e crimes. Na realidade, movido de ímpeto, Nosso Senhor, com chicote de cordas não quer expulsar somente os cambistas do templo. A mensagem vai além: Cristo Senhor decreta o fim da importância do judaísmo profanado pela infidelidade e pelo desrespeito a Deus. O templo a ser purificado não é aquele, mas o que será fundado sobre o seu Corpo – por este motivo, Jesus fala de reconstruí-lo em três dias. Jesus quer fundar a Sua Igreja límpida, purificada, a tão ponto bela que faz dela a Sua Esposa; o Senhor ao falar do Seu corpo, fala também de nós, da nossa pureza, da nossa limpidez, da nossa purificação e da nossa beleza garantidas pelo Seu triunfo pascal – Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão. No Corpo Majestoso do Senhor, estamos nós.
            São Cesário de Arles, no distante século VI, ilustra-nos a necessidade de prezarmos pela beleza do Templo de Deus, em seus dois aspectos: o interior (que somos nós) e o edifício de pedras, ao qual, por conveniência, também denominamos igreja: “Todos nós, caríssimos, antes do batismo fomos templos do demônio; depois do batismo, obtivemos ser templos de Cristo. E se meditarmos com atenção sobre a salvação de nossa alma, reconheceremos que somos o verdadeiro templo vivo de Deus. Deus não habita somente em construções de mão de homem (At 17,24) nem em casa feita de pedras e madeira; mas principalmente na alma feita à imagem de Deus e edificada por mãos deste artífice. Desse modo pôde São Paulo dizer: O templo de Deus, que sois vós, é santo (1Cor 3,17). […] Queres ver bem limpa a basílica? Não manches tua alma com as nódoas do pecado. Se desejas que a basílica seja luminosa, também Deus quer que tua alma não esteja em trevas, mas que em nós brilhe a luz das boas obras, como disse o Senhor, e seja glorificado aquele que está nos céus. Do mesmo modo como tu entras nesta igreja, assim quer Deus entrar em tua alma, conforme prometeu: E habitarei e andarei entre eles (cf. Lv 26,11.12)”.
            Que esta festa hoje celebrada nos encha de zelo para cuidarmos da propriedade de Deus neste mundo: a Igreja, habitação interior de Deus, que somos nós; e a igreja-edifício, sublime casa onde nos reunimos para nos nutrir dos Sacramentos e da Palavra de Deus pela fé, e para a reunião dos crentes em Jesus.